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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

A BATALHA DE FARSÁLIA









A BATALHA DE FARSÁLIA

Em um dia 09/08, no ano de 48 a.C., ocorria o confronto final entre Júlio César e Pompeu, que disputavam o poder sobre a República de Roma, que na prática deixaria de existir a depender do resultado daquela batalha, travada na Grécia, e do comportamento de seu vencedor
A Batalha de Farsália, ou Farsalos, era parte da Guerra Civil iniciada por conta do boicote e da perseguição de uma parte do Senado contra César, no final da Guerra na Gália. 
Pompeu, o mais proeminente, poderoso e popular cidadão da facção senatorial anti César, e membro do Primeiro Triunvirato que fora desestabilizado pela morte de Crassus, liderou essa disputa pelo poder, deixando a César, como única opção viável, a reação.
O que Pompeu e o Senado não esperavam é que a reação de César fosse tão rápida e radical. Ele violou a Lei que proibia a entrada de generais acompanhados por tropas no território da Itália e marchou para Roma sem que Pompeu tivesse tempo de mobilizar tropas suficientes para barrar-lhe o caminho. Só restou-lhes a fuga!Em pouco tempo, porém, Roma estaria novamente em guerra!

O campo de batalha visto a partir do Leste, nas imediações de Paleofarsália.
Após seu retorno da Gália e da travessia do Rubicão, César conquistara Roma sem batalha, mas correra em perseguição a Pompeu, que conseguiu escapar do cerco em Brindisi, levando a guerra para o solo grego/macedônico.
Com muito mais recursos humanos e materiais, Pompeu se dava ao luxo de evitar um confronto direto, optando por minar as forças de seu adversário.
A vitória em Dirráquio obrigara César a fugir, apresentando-se o momento em que Pompeu deveria persegui-lo, o que ele até fez, mas interrompeu logo depois.
Quando a perseguição recomeçou e César estacionou suas tropas em Paleofarsália (não Farsália, que fica bem ao sul do campo de batalha), não demorou para que os exércitos ficassem frente a frente . Estava para começar o confronto direto que César sempre desejara e que decidiria o confronto entre os dois titans romanos.
César reuniu suas forças com as que escaparam de Pompeu em Dirráquio e chegou à planície de Tessália, onde encontrou campos cheios de trigo. A cidade de Gomphos, ou Gomphi1 recusou-se a atendê-lo e foi cercada.
Na ocasião César falou aos soldados das vantagens de saquear uma cidade bem abastecida como aquela e “...aproveitando o entusiasmo extraordinário dos soldados, no mesmo dia de sua chegada pôs-se a atacar a cidade […] entregou-a à pilhagem dos soldados.2
Esta ação de César, pondo de lado a clemência, acabou fazendo com que Metrópolis3, a próxima cidade do caminho, fosse bem mais receptiva, assim como as demais cidades da região.4
Acima: à esquerda a região intermediária entre as atuais Gomfoi e Paleomonastiro, onde acreditamos ter sido localizada a antiga Gomphi. À direita a periferia de Mitropoli que acreditamos ser, obviamente, a antiga Metrópolis.
Abaixo: à esquerda a pequena Krini, a antiga Paleofarsália a oeste do campo de batalha. À direita a Igreja Ortodoxa Grega de Farsália, bem ao Sul do campo de batalha.
Seguindo sua marcha, César chegou à região de Paleofarsália (atual Krini – e não Farsália, mais ao sul e que mantém o nome), acampando às margens do Rio Enipeas. Pompeu também chegou à região e acampou próximo a elevações de onde podia observar vasta área.5
Acompanhando as formas geométricas brancas de cima para baixo: o primeiro elipse é o acampamento de Pompeu, logo abaixo, os primeiros três retângulos são suas tropas. Frente a eles as tropas de César, com um traço diagonal representando sua reserva contra a cavalaria inimiga. No círculo a localização de Paleofarsália e o segundo elipse aponta o acampamento de César. A seta indica a direção de Farsália, que ficou com a fama, mas nem aparece no mapa!
Em 09/08/48 a.C., finalmente as forças de Pompeu avançaram em direção ao acampamento de César. Eram compostas por 47 mil homens e 6.700 cavaleiros.6
César possuía cerca de 22 mil homens e mil cavaleiros e quando as infantarias ficaram frente a frente, as linhas de Pompeu eram bem mais robustas.7
Tendo o Rio Enipeas à esquerda de César e direita de Pompeu, o grosso das cavalarias foram posicionadas no lado oposto de cada um. Mas César posicionou dois mil soldados da infantaria em uma linha diagonal, atrás de sua cavalaria, oculta das vistas de Pompeu, mas prontas a entrar em combate quando a cavalaria mais numerosa deste avançasse, impedindo-os, assim, de cercar sua infantaria.8
Quando o confronto começou de fato, a cavalaria de Pompeu avançou a galope, mas a infantaria permaneceu parada, a esperar a chegada das tropas de César.9
Pompeu queria manter a coesão de suas forças e desorganizar as tropas de César pela caminhada quando “...estariam sem fôlego e exauridos de cansaço.”10
Mas as tropas de César não caíram na armadilha da correria. Avançaram em intervalos, reagrupando e descansando e, quando chegou o momento, atacaram.11
Pompeu usou tudo que tinha, mas César, apesar de em menor número, manteve reservas e, mesmo com a vantagem ainda maior que isso proporcionava ao adversário, as linhas de ambos os lados resistiam.12
Acima: à esquerda o Rio Enipeas nas proximidades do campo de batalha. À direita a vista dos montes onde acampou Pompeu, a partir da área do acampamento de César. Abaixo: à esquerda uma vista mais próxima dos montes onde Pompeu montou seu acampamento. À direita o campo de batalha visto da área logo abaixo do mesmo acampamento.
A decisão, então, só poderia vir do confronto de cavalarias. Quando a mais numerosa cavalaria de Pompeu começou a ter vantagem, César ordenou o recuo da sua. Acreditando na vitória, as forças adversárias começaram a se dividir para cercar a infantaria de César por trás.13
Neste momento, a infantaria obliqua de César recebeu ordem de ataque. Os legionários investiram ferozmente assustando cavalos e atacando o rosto dos cavaleiros com suas lanças e, surpresa das surpresas, a infantaria venceu a cavalaria, que se colocou em fuga.14
Uma vez liberada, a cavalaria de César pôde cuidar das tropas de arqueiros de Pompeu e as reservas que tinha entraram no combate pelo flanco esquerdo, onde antes estava a cavalaria fugitiva. As tropas menores cercavam as tropas maiores!15
Sem reservas para colocar em combate, Pompeu viu suas legiões abandonarem a luta para escapar de um massacre. Foram recuando lentamente até refugiarem-se nas colinas próximas do acampamento, para onde seu comandante já se havia retirado. Vitória de César!16
César vencera a batalha decisiva da Guerra Civil. Mas, mesmo com a vitória assegurada, ele não agia como Pompeu, queria liquidar a partida, queria a vitória total e avançou seu exército para o acampamento adversário, invadindo-o e tomando-o. Pompeu e seus seguidores fugiram, assim como as tropas remanescentes.17
César colocou suas forças em perseguição e conseguiu cercar os restos do exército de Pompeu na atual localidade de Kiparissos, uma colina que foi cercada na base leste, cortando o acesso a um riacho. Sem água e sem líderes, o restante das forças de Pompeu se renderam na manhã de 10 de agosto de 48 a.C.18
A Guerra Civil ainda duraria quase 3 anos, mas a Batalha de Farsália foi, a nosso ver, decisiva. Não há um consenso absoluto sobre os motivos que levaram Pompeu a conceder a César um combate total quando seria muito mais vantajoso esperar que a fome e outros problemas minassem a força do exército deste.
O próprio César afirma que a confiança na vitória de Pompeu era tão grande que os políticos e militares romanos que o acompanhavam já se envolviam em disputas do poder que teriam ao retornar a Roma: “... todos estavam ocupados em obter cargos ou compensações financeiras, ou em dar livre curso aos seus ressentimentos pessoais...19
Para Rostovtzeff essas presenças políticas também foram motivo para a derrota de Pompeu, que não tinha total liberdade de ação, dificuldade causada “... pela presença de grande número de senadores em seu quartel-general – homens que constantemente criticavam e interferiam nas disposições do general e exigiam reuniões frequentes para discutir a situação.20
Sheppard, segue na mesma linha ao afirmar que o próprio Pompeu não desejava conceder um combate direto, que foi obrigado a isso por seus companheiros “... não por vontade própria...”21
Obrigado ou não, Pompeu apostou tudo quando não precisava apostar nada. E perdeu. César manteve-se senhor de Roma e de seus vastos recursos, podendo dividir suas forças, enviando seus generais para lugares diferentes. Pompeu buscou refúgio no Egito onde acabou assassinado de forma traiçoeira.
Lissner escreve que o grande general foi apunhalado às vistas de sua esposa e filhos e que “...cobriu o rosto com sua toga. Não pronunciou uma palavra e nenhuma queixa lhe saiu da garganta.22
Quando, na perseguição, César chegou ao Egito, foi-lhe entregue a cabeça de seu maior rival, “Profundamente perturbado, César cobriu a face e chorou.23


1 Sheppard afirma que é a atual Paleo Episkopi (que não localizamos nos mapas da região), mas nós acreditamos que a antiga cidade pode ser a atual Gomfoi ou Paleomonastiro.


2 CÉSAR, BELLUM CIVILE – A Guerra Civil. Livro III: 80. pg. 273


3 Sheppard afirma que é a atual Paleo Kastro (que localizamos ao norte de Gomfoi e não ao sul como deveria ser. Nós acreditamos que a antiga cidade é a atual Mitropoli, ou Paleoklisi.


4 CÉSAR, BELLUM CIVILE – A Guerra Civil. Livro III: 81. pg. 273-275


5 (SHEPPARD: 2010) pg. 53


6 Ibid pg. 56


7 Ibid. pg. 56-60


8 CÉSAR, BELLUM CIVILE – A Guerra Civil. Livro III: 88-89. pg. 281-283


9 Ibid. Livro III: 92. pg. 285


10 Idem


11 CÉSAR, BELLUM CIVILE – A Guerra Civil. Livro III: 93. pg. 285


12 (SHEPPARD: 2010) pg. 73


13 Ibid pg. 74


14 CÉSAR, BELLUM CIVILE – A Guerra Civil. Livro III: 93. pg. 287


15 Idem


16 Ibid. Livro III: 94. pg. 285


17 CÉSAR, BELLUM CIVILE – A Guerra Civil. Livro III: 95. pg. 289


18 (SHEPPARD: 2010) pg. 81


19 CÉSAR, BELLUM CIVILE – A Guerra Civil. Livro III: 83. pg. 277


20 (ROSTOVTZEFF: 1983) pg 132


21 (SHEPPARD: 2010) pg. 56


22 (LISSNER: 1964) pg. 67-68


23 Ibid. pg.68

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