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segunda-feira, 29 de maio de 2017

CHURCHILL X ROOSEVELT

CHURCHIL
X
ROOSEVELT1
A grande maioria dos livros didáticos de História abordam a II Guerra Mundial, assim como toda a História, de forma tão superficial que poderíamos dizer “passageira”. Explica seus motivos, suas fases, desfecho e consequências. Seria difícil fazer diferente, de modo que não é exatamente uma crítica.
A maior parte dos estudiosos que se debruçaram sobre o tema de forma aprofundada, ficam restritos à vasta documentação pública, civil e militar, e gravitando em torno dos grandes nomes: Hitler, Mussolini, Tojo, Stalin, De Gaulle, Roosevelt e Churchill. Certamente não há como fugir destes, pois seus feitos gigantescos fizeram com que figurassem no panteão da História, para o bem ou para o mal. Mas não raras vezes há um quê maniqueísta.
Daí a importância que dedicamos a esta obra de Lynne Olson, “Churchill e Três Americanos em Londres”. Os gigantes estão lá presentes, um deles no título, pois do contrário não passaria nem pelos editores, mas o foco não é Churchill, e sim os três americanos, e vários outros ao seu redor, que passam quase inominados pelos livros, mas que foram fundamentais na História.
O mais surpreendente, porém, é que ao focar personagens secundários, Lynne Olson desnuda os gigantes de uma forma tão impressionante que os arrasta ao nível do ser humano comum. Vejamos se o leitor concorda com essa visão...
Quem lê a maioria dos livros sobre o período forma a imagem de que os EUA demoraram a entrar na guerra, mas, enquanto isso, ajudaram a Inglaterra de todas as formas que poderiam, menos nos combates. E que, após Pearl Harbour, os EUA entraram de cabeça, aliaram-se aos ingleses em uma amizade que os levou até a Alemanha. Sim, em resumo de linhas bem gerais, foi isso mesmo. Mas a realidade que Lynne Olson nos revela é bem mais complexa.
Roosevelt pede no Congresso a aprovação da Declaração de Guerra contra o Eixo.
De início, os dois povos só tinham em comum a língua inglesa, mas nenhuma compreensão cultural mútua, pelo contrário, nutriam preconceitos e cultivavam estereótipos arraigados entre si.
...seus líderes políticos e militares, de Churchill e Roosevelt para baixo, tinham pouquíssimo entendimento e conhecimento uns dos outros. Ignorantes a respeito da história e da cultura do futuro parceiro, os dois aliados tendiam a pensar em estereótipos quanto aos seus primos de além-mar, com escassa avaliação de suas respectivas dificuldades políticas e militares. Suspeitas, tensões, preconceitos e rivalidades ameaçaram descarrilar a nova e singular confederação antes mesmo que ela se firmasse. E os problemas foram exacerbados pela atitude condescendente inglesa em relação aos americanos e pelo ressentimento dos EUA com a Inglaterra.(pg. 15)
Diante do colapso que se aproximava, toda a comunicação, gestos e oratória de Churchill em direção aos EUA era um incessante cortejar ao Presidente Roosevelt. Este, em seus discursos, prometia tudo, menos entrar na guerra. Falava em urgência, mas a prática ficava distante disso. Surpreendente, porém, é perceber que os EUA “ajudaram” Hitler na tarefa de sangrar a Inglaterra ainda mais.
Em troca de cinquenta contratorpedeiros americanos bastante velhos, cedidos no verão de 1940, o governo Roosevelt exigiu que lhe fosse concedido o arrendamento por noventa e nove anos de bases militares na Terra Nova, nas Bermudas e em seis possessões inglesas no Caribe. A negociação, como todos sabiam, era bem mais vantajosa para os Estados Unidos do que para a Inglaterra, e o governo britânico ficou profundamente ressentido. Apesar disso, não teve alternativa e aceitou aquilo que considerou termos grosseiramente injustos. 
[...] 
Os ingleses sentiram-se ainda mais lesados quando os contratorpedeiros da Primeira Guerra Mundial chegaram. Dilapidados e obsoletos, eles não podiam ser empregados sem extensas e custosas reparações.
Quando a lei que proibia a exportação para nações em guerra foi modificada para autorizar a venda à Inglaterra, foi exigido pagamento à vista, em dólares, ficando o transporte por conta do comprador! O ouro inglês praticamente acabou, foi pedido empréstimo à Bélgica e a situação ficou tão crítica que “...o ministro das Finanças sugeriu ao Gabinete que considerasse a requisição de anéis de casamentos e outras joias daquele metal precioso da população inglesa.
O primeiro encontro de Roosevelt com Churchill ocorreu em 29/07/1918, ao final da Primeira Guerra Mundial, quando Roosevelt tinha 36 anos e Churchill 43. O americano guardou profundas recordações daquele dia. O inglês nenhuma. Roosevelt sentiu-se esnobado e Lynne Olson sugere que guardou ressentimentos por mais de 20 anos!
FDR ainda não tinha engolido o que considerava uma descortesia de Churchill. “Sempre desgostei dele, desde o tempo em que fui à Inglaterra em 1918,” disse o Presidente a Joseph Kennedy, em 1939. “Ele agiu como um pedante no jantar a que compareci, comportando-se como um lord, acima de todos nós.” (pg. 22)


Acima, Roosevelt assina a Lend-Lease. Abaixo, Churchill faz o mesmo.


Quando o programa Lend-Lease foi anunciado, Churchill percebeu que a Inglaterra seria ainda mais sangrada. E tornou-se realmente constrangedora a situação, considerando a importância que Roosevelt deu inicialmente ao programa, quando nomeou Averell Harriman para fazê-lo funcionar:
“Senhor Presidente,” indagou um dos jornalistas, “qual a relação de Mr Harriman com a embaixada de lá? Ele representará diretamente o senhor?” Com um pigarro, Roosevelt replicou: “Não sei e não dou a mínima!” Quando outro repórter perguntou a quem Harriman se reportaria em Washington, o Presidente retrucou: “Não sei e não me interessa isso.” (pg. 55)
No decorrer da guerra, enquanto comandantes americanos e ingleses se digladiavam em teorias e planejamentos, cada um deles querendo para si e aos seus as glórias militares, sempre contidos pela determinação de Eisenhower em fazer as relações aliadas funcionarem, Roosevelt começava a impor cada vez mais seus pontos de vista e interesses, dando demonstrações de que considerava a Inglaterra como parte menos importante da aliança:
Quando a Inglaterra se opôs a uma proposta de se conceder acesso às companhias aéreas dos EUA a todas as rotas aéreas do mundo, Roosevelt enviou um telegrama a Winant, em novembro de 1944, a ser repassado a Churchill, dando a entender que os Estados Unidos poderiam interromper o auxílio do Lend-Lease caso os ingleses não aprovassem o plano. A mensagem era, na opinião de John Colville, “chantagem pura.” (pg. 253)
E, quando reunidos em Yalta, Roosevelt e Stalin pareceram formar aliança contra todos os pontos de vista de Churchill, chegando mesmo à descortesia pura e simples com o idoso Primeiro Ministro inglês:
Numa das sessões plenárias, Roosevelt e Stalin começaram a confabular antes da chegada de Churchill. Informado por um auxiliar que o primeiro-ministro aguardava do lado de fora, a resposta de FDR foi abrupta: “Ele que espere.”(pg. 256)
Acima a Conferência de Teerã e abaixo a Conferência de Yalta.


A postura de Roosevelt permitiu que Stalin tivesse terreno livre para avançar sobre a Polônia e saísse do conflito como a segunda maior potência militar do planeta. Churchill anteviu todos esses riscos, assim como Averell Harriman, agora embaixador americano em Moscou, e Gilbert Winant, embaixador em Londres. E todos os alertas não foram suficientes para que Roosevelt agisse com mais dureza nas negociações com Stalin:
Roosevelt, dando toda a impressão de que não se preocupava em deixar a União Soviética como potência militar e política dominante no continente europeu, ainda piorou as coisas, na opinião de Churchill, ao dizer a Stalin em Yalta que planejava retirar as tropas americanas da Europa, inclusive da Alemanha, em dois anos. (pg. 256)
Churchill e a Família Real.
Churchill, por seu turno, lutava contra os planos de dominação nazista na Europa, mas não queria sequer discutir a perda de partes do Império Britânico, pois segundo ele “não se tornara primeiro-ministro do Rei para presidir à liquidação do Império Britânico.” (pg. 221). Era contra o aumento de autonomia da Índia e resistiu a todas as tentativas de cessão de territórios ou de monopólios comerciais que mantinha com as demais regiões do império, no que era arduamente combatido por Roosevelt:
“Temos de deixar patente aos ingleses, desde o início, que não seremos simplesmente o amigão que pode ser usado para tirar o Império Britânico de um aperto. (...) Creio que falo como presidente dos Estados Unidos quando digo que nosso país não ajudará a Inglaterra nessa guerra só para que ela continue capaz de tratar com desprezo povos coloniais.” (pg. 221)
O leitor deve estar atento ao fato de que os EUA queriam, eles mesmos, adentrar estes mercados. Quando políticos e militares americanos falam em liberdade, não é exatamente às pessoas comuns que se referem, mas, prioritariamente, aos negócios.
Por fim, o suposto e bem provável conhecimento de Churchill sobre o caso extra-conjugal de sua nora Pamela com Averell Harriman e depois com Edward Murrow, e de sua filha Sarah com o já casado Gilbert Winant, sem que se apresente um único registro de reprovação, não falam exatamente bem de um rematado conservador inglês, pelo que se depreende do relato de Lynne Olson.
Quando Randolph Churchill voltou à Inglaterra de licença e descobriu o caso, explodiu de raiva. Sua ira não derivava tanto do ciúme, disseram alguns amigos, mas de um sentimento de que havia sido traído por Harriman, com o qual criara até certa amizade quando, a pedido de seu pai, o acompanhara na missão no Cairo. Amargo, Randolph acusou os pais de cumplicidade com o adultério “debaixo do próprio teto deles,” em Chequers, e de só o fazerem por causa da importância de Harriman e dos americanos para a Inglaterra. (pg.181)
Averell Harriman - Gilbert Winant - Edward Murrow


Pamela Churchill - Randolph Churchill - Sarah Churchill
A deliciosa obra de Lynne Olson nos transporta aos bastidores aliados da II Guerra Mundial e o que “vemos e ouvimos” por trás das portas é surpreendente e, por vezes, chocante.
Hitler previra que a aliança entre americanos, ingleses e soviéticos desmoronaria por conta das diferenças intransponíveis entre eles. Constatar que ele quase acertou é assombroso. Perceber os comportamentos indefensáveis de nomes gigantes como Roosevelt e Churchill, Montgomery e Patton, que ressaltam a importância de nomes bem menos conhecidos como Harriman, Murrow e Winant, é algo que não se espera, embora não seja aceitável deixar de conceder humanidade (virtudes e defeitos) a esses homens que escreveram a História.  
Bem pensado, contudo, essas imperfeições humanas fazem com que os papéis desempenhados por Roosevelt e Churchill sejam, a despeito de tudo, talvez até maiores. A conclusão é que, se mesmo com todos esses defeitos, realizaram tais feitos extraordinários, bem fizeram por merecer o título de Gigantes da História.


1Este artigo tem como fonte a obra de Lynne Olson, “Churchill e Três Americanos em Londres”, da Globo Livros (SP, 2013), Tradução de Joubert de Oliveira Brízida.

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Imagens

http://scrippsmediaethics.blogspot.com.br/2013/11/the-ethical-eye-of-edward-merrow.html
Winston Churchill, W. Averell Harriman, Joseph Stalin, and Vyacheslav Molotov at Fourth Moscow Conference, Russia, Oct 1944 - United States Library of Congress
http://ww2db.com/image.php?image_id=15578
In The Same Boat: British Prime Minister Winston Churchill (from left) leaves Westminster Pier in 1942 with American politicians Harry Hopkins, John Winant and William Bullitt. At right is British Labor Party politician and First Lord of the Admiralty A.V. Alexander.
http://www.npr.org/templates/story/story.php?storyId=123231825
http://www.bbc.co.uk/radio4/womanshour/03/2006_48_wed.shtml
http://www.bbc.co.uk/radio4/features/desert-island-discs/castaway/1feb3b9b
Winant, Roosevelt, Stettinius, and Hopkins aboard USS Quincy off Egypt, 14 Feb 1945
http://ww2db.com/image.php?image_id=13466
http://creativeconflictwisdom.wordpress.com/2011/02/13/the-great-emancipator-abraham-lincolns-statue-in-london/
http://www.warhistoryonline.com/war-articles/medals-battle-britain-auctioned.html
http://www.ducksters.com/history/world_war_ii/battle_of_britain.php
http://www.yenra.com/battle-of-britain/
http://ww2history.com/blog/category/ww2-people/
http://www.theatlantic.com/infocus/2011/07/world-war-ii-the-battle-of-britain/100102/
http://www.dailymail.co.uk/news/article-1214041/The-Queen-Mother-She-loved-owls-fairies-miners-She-hated-oysters-LibDems-kissed-U-S-president-And-lived-day-last.html
http://news.bbc.co.uk/local/manchester/hi/people_and_places/history/newsid_8234000/8234329.stm
http://www.warhistoryonline.com/war-articles/world-war-iis-doodlebug-hunters-lost-story-told.html
http://ww2today.com/16-june-1944-the-v1-doodlebugs-begin-hitting-london
http://www.indianamilitary.org/FreemanAAF/WarePhotos/300%20dpi/WareAlbum-Part4.htm
http://www.warhistoryonline.com/war-articles/v2-attack-london-september-8th-1944.html
http://www.dailymail.co.uk/news/article-2211558/Hitlers-lethal-weapon-Seventy-years-deadly-V-2-rocket-launched.html
http://bombsight.org/explore/greater-london/city-of-london/
http://en.wikipedia.org/wiki/W._Averell_Harriman
http://www.concordhistoricalsociety.org/john-gilbert-winant/
http://www.dvdtalk.com/reviews/24807/edward-r-murrow-the-best-of-person-to-person/
http://www.npg.org.uk/collections/search/portrait/mw165546/Sarah-Churchill
http://www.smh.com.au/articles/2007/06/20/1182019179355.html
http://www.npgprints.com/image/43999/bassano-ltd-randolph-frederick-edward-spencer-churchill
http://www.express.co.uk/news/uk/437795/Winston-Churchill-s-specially-trained-resistance-fighters-were-prepared-for-Nazi-invasion
https://fdrlibrary.wordpress.com/tag/winston-churchill/
http://dingeengoete.blogspot.com.br/2012/07/this-day-in-history-jul-26-1945-winston_2785.html


segunda-feira, 22 de maio de 2017

BATALHA DO TUIUTI

GUERRA DO PARAGUAI
BATALHA DO TUIUTI
Em um dia 24/05, no ano de 1866, a Guerra do Paraguai tinha sua mais sangrenta batalha, travada em território paraguaio.
De um lado o exército de Solado Lopes, com cerca de vinte mil homens comandados pelo General José Eduvigis Díaz. Do outro, trinta e dois mil soldados brasileiros, argentinos e uruguaios, sob comando maior do General argentino Bartolomé Mitre, do brasileiro Manuel Luís Osório e do uruguaio Venancio Flores.
Solano Lopes vinha de duas derrotas nas batalhas do Passo da Pátria e Batalha de Estero Bellaco travadas já em solo paraguaio. A despeito disso estava muito otimista com a teoria de que uma vitória decisiva expulsaria os aliados do país.
Do outro lado, apesar das vitórias, havia discordância na estratégia de avanço, pois Mitre mantinha o movimento lento e cauteloso, levando em conta o desconhecimento do terreno, enquanto os generais brasileiro e uruguaio pediam uma maior velocidade.
Mas o terreno desconhecido acabou favorecendo os aliados, pois estes acamparam em uma região pantanosa, mais propícia à defesa do que ao ataque.
Este começou por volta de 11hs. As tropas paraguaias foram divididas em três colunas que tentaram cercar as forças aliadas.
O General Mitre não estava no acampamento, de modo que o comando foi assumido pelo General Osório.
No início a vantagem foi toda dos paraguaios e nada menos que três batalhões uruguaios foram dizimados. Mas, quando a cavalaria de Solano Lopes partiu para cima das forças brasileiras, depararam-se com um fosso intranspovível e, sem tempo de recuar, acabaram bem ao alcance das armas brasileiras. O resultado foi devastador para a cavalaria paraguaia.


Passado o impacto inicial, as iniciativas dos comandos menores dos aliados, bem como a estratégia de Osório, equilibraram as ações e logo viraram o jogo. Mas o combate foi sangrento, como revela o alferes Dionísio Cerqueira:
Os batalhões avançavam; a artilharia rugia rápida, a revolver; era um contínuo trovejar. Parecia uma tempestade. Cornetas tocavam a carga; lanças se enristavam, cruzavam-se baionetas, rasgavam-se os corpos sadios dos heróis; espadas brandidas a duas mãos, como os montantes nos pares de Carlos Magno, abriam crânios, cortavam braços, decepavam cabeças.
Seis horas depois de iniciada, a Batalha do Tuiuti terminou com vitória da Tríplica Aliança. Solano Lopes perdeu cerca de seis mil homens, enquanto os aliados perderam cerca de quatro mil.
Ao final do dia os aliados estavam firmemente estabelecidos dentro do território paraguaio e Solano Lopes desprovido da capacidade de ataque, restando-lhe o isolamento em fortalezas e as ações defensivas e de recuo.
Começou no alagadiço Tuiuti a derrocada do ditador Paraguaio.




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Fontes e Imagens:
http://www.bonde.com.br/educacao/passado-a-limpo/voce-sabe-o-que-foi-a-batalha-de-tuiuti--224893.html
http://www.historiadobrasil.net/resumos/batalha_tuiuti.htm
http://www.historiabrasileira.com/guerra-do-paraguai/batalha-de-tuiuti/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_do_Passo_da_P%C3%A1tria
https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Estero_Bellaco
https://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Lu%C3%ADs_Os%C3%B3rio
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_E._D%C3%ADaz
https://pt.wikipedia.org/wiki/Venancio_Flores
https://pt.wikipedia.org/wiki/Bartolom%C3%A9_Mitre
https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Tuiuti



quinta-feira, 18 de maio de 2017

AUSCHWITZ I – PRECURSOR DO INFERNO

AUSCHWITZ I
PRECURSOR DO INFERNO
Em um final de semana como este, em 1940, era inaugurado o Campo de Concentração de Auschwitz I.
Quando ouço a palavra Auschwitz logo vem à mente a imagem daquela construção longa, de telhado alto, com trilhos de trem na frente. É uma imagem que ficou ainda mais marcante para quem assistiu ao filme "A Lista de Schindler”, de Steven Spielberg. O diretor americano apresenta o lugar como sendo muito mais sombrio que o campo onde viviam os judeus de Schindler. E deveria ser mesmo...
Mas aquele lugar sinistro não é o Campo de Concentração. Aquela é a entrada do Campo Auschwitz II - Birkenau, o campo de extermínio.
Auschwitz I é onde fica o infame portão com a frase “Arbeit Macht Frei” (O trabalho liberta) e surgiu como campo de concentração funcionando depois mais como a administração de todo o imenso complexo de três campos e das outras dezenas de campos auxiliares.
Mas que o leitor não se engane. Morreu muita gente em Auschwitz I...
As construções iniciais do campo, que fica na localidade polonesa de Oświęcim, tinham servido de alojamento para a artilharia do exército e foram escolhidas para abrigar novo campo, diante da superlotação que já se registrava nas demais instalações espalhadas pela Polônia e Alemanha.
A reforma foi ordenada por Heinrich Himmler em 27 de abril de 1940 e a supervisão das obras coube ao Obersturmbannführer Rudolf Höss, que acabou se tornando o primeiro comandante do novo campo.
Rudolf Höss, prestes a ir ao encontro do chefe...
Após o despejo de todos os moradores das redondezas, foi criada uma área de 40 km2 que fornecia muito espaço para ampliação das instalações e, ao mesmo tempo, isolamento das vilas e cidades mais próximas. Os nazistas não queriam que ninguém soubesse o que aconteceria naquele local...
Os primeiros prisioneiros de Auschwitz foram alemães, trazidos do Campo de Concentração de Sachsenhausen, o primeiro dos campos construído na Alemanha “para confinar ou liquidar em massa opositores políticos, judeus, ciganos, homossexuais, Testemunhas de Jeová, e, posteriormente, milhares de prisioneiros de guerra.1 Sua tarefa era servir como funcionários dentro do complexo.
Os primeiros ocupantes de Auschwitz como prisioneiros foram 728 poloneses, 20 dos quais judeus, que chegaram em junho. Menos de um ano depois, em março de 1941, a quantidade de ocupantes já chegava a 10.900 pessoas, a maioria poloneses.
Dentro do sistema, cada prisioneiro era marcado em suas roupas segundo sua origem. Criminosos comuns recebiam a cor verde, presos políticos recebiam a cor vermelha e a cor amarela era destinada aos judeus.
Estes, junto com os prisioneiros soviéticos, recebiam os piores tratamentos.
Os prisioneiros tinham que trabalhar, geralmente nas fábricas de armas adjacentes. O trabalho era extenuante e a única “folga” era nos dias de Domingo, quando os escravos deveriam se dedicar a limpeza.
Uma das fábricas próximas a Auschwitz.
Para os desobedientes, fugitivos recapturados e suspeitos de sabotagem havia o Bloco 11, considerado a prisão da prisão, que possuia celas de 1,5 m² nas quais quatro prisioneiros eram colocados juntos e onde passavam a noite em pé, o que era um terrível castigo.
Algumas celas do Bloco 11.
Mas estes castigos não eram piores do que aqueles aplicados aos que eram enviados ao porão do Bloco 11, onde ficavam sem água nem comida até que morressem de fome e/ou sede. Outros eram colocados em celas vedadas, na qual morriam asfixiados.
Neste porão foi conduzida a primeira experiência de extermínio com o famigerado gás Zyclon B. 
Latas de Zyclon B, que vinha em forma de pedrinhas que se dissolviam no ar, liberando o gás mortal.
Seiscentos prisioneiros soviéticos e cento e cinquenta poloneses foram trancados por ordem do subcomandante SS-Hauptsturmführer Karl Fritzsch e expostos ao gás, vindo a morrer.
O “êxito” da experiência fez com que uma área maior fosse adaptada para ampliar a eficiência, e um crematório foi construído. 
Acima a câmara de gás de Auschwitz e abaixo o crematório.

Cerca de 60 mil pessoas morreram nas novas instalações até que foi convertida em bunker para a SS.
O leitor não estranhe esse número. Lembre-se que estamos falando de Auschwitz I, que era um Campo de Concentração. O campo de extermínio ainda seria implantado.
A despeito disso, e como foi visto, Auschwitz I foi embrião para a indústria da morte nazista em muitos aspectos. E não foi o trabalho que libertou os prisioneiros, foi o Exército Vermelho da União Soviética.
1https://pt.wikipedia.org/wiki/Campo_de_concentra%C3%A7%C3%A3o_de_Sachsenhausen 
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Fontes e Imagens:
http://www.infoescola.com/historia/campo-de-concentracao-de-auschwitz/
http://www.dw.com/pt-br/1945-liberta%C3%A7%C3%A3o-de-auschwitz-birkenau/a-1465691
http://www.viajandoporai.com.br/campos-de-concentracao-na-polonia-parte-1-uma-visita-a-auschwitz/
http://www.megacurioso.com.br/guerras/75463-10-fatos-assombrosos-que-voce-talvez-desconheca-sobre-auschwitz.htm
http://avidanofront.blogspot.com.br/2010/12/kapos.html
https://pt.wikipedia.org/wiki/O%C5%9Bwi%C4%99cim
https://pt.wikipedia.org/wiki/SS-Totenkopfverb%C3%A4nde
https://pt.wikipedia.org/wiki/Auschwitz
https://pt.wikipedia.org/wiki/Campo_de_concentra%C3%A7%C3%A3o_de_Sachsenhausen

sexta-feira, 12 de maio de 2017

A QUEDA DE ANA BOLENA

A QUEDA DE ANA BOLENA
Em um dia 17/05 como este, no ano de 1536, Anne Boleyn (Ana Bolena) perdia o posto de Rainha Consorte da Inglaterra por ordem do Rei Henrique VIII, até então seu marido.
Terminava o casamento que mudara a História da Inglaterra e do Cristianismo, por ter ocasionado a separação entre o Rei e a Rainha original, Catarina de Aragão, e por ter levado Henrique VIII a romper com a Igreja Católica, fundando a Igreja Anglicana.
Ana Bolena nasceu em data e local incertos entre os anos de 1501-1507 em "Blickling, Norfolk ou Hever, Kent, Inglaterra". Seus pais eram Thomas Bolena, 1.º Conde de Wiltshire e Elisabeth Howard. Ele linguista e diplomata da corte do Rei Henrique VII, ela filha do Duque de Norfolk.
Ana Bolena em dois momentos de sua vida. Jovem e mais velha.
Ana passou toda sua vida frequentando as cortes da Europa. Foi educada na corte dos Países Baixos, junto a Margarida, Arquiduquesa da Áustria. Depois passou alguns anos na corte da França, ao lado da Rainha Cláudia de Valois.
Ao retornar à Inglaterra tornou-se dama de companhia de Catarina de Aragão, esposa do Rei Henrique VIII, notório por seus casos extraconjugais dos quais o mais recente era com a irmã de Ana, Maria Bolena.
Tataraneta de um chapeleiro e aparentada com um santo (São Thomas Becket), a vida de Ana Bolena foi sempre cercada dos mexericos das cortes e da busca incessante de poder e influência junto ao Rei por parte de seus familiares. Rumores chegaram a afirmar que ela seria filha de Henrique VIII, que teria sido amante da mãe de Ana na juventude, o que certamente teria sido um escândalo de proporções bíblicas!
Mas o boato perde credibilidade quando é fortemente apoiado pelos católicos adversários do rei, que negava ter tido qualquer envolvimento com Elizabeth Howard. O mais provável é que tenha ocorrido uma confusão entre os nomes da mãe de Ana com Elizabeth Blount, essa sim, conhecida amante do rei.
Antes do casamento real com Henrique VIII, Ana quase se tornou Condessa na Irlanda, por conta de um arranjo de casamento que não chegou a se concretizar. Por amor, ela quase se casou com Henry Percy, futuro Conde de Northumberland, com quem Ana teve um relacionamento secreto que foi descoberto e proibido por influência do Cardeal Wolsey, então Chanceler da Inglaterra.
Quando Ana e o Rei se conheceram ele era amante de Maria Bolena e já estava descontente com sua esposa legítima, a Rainha Catarina de Aragão, por esta não lhe dar um herdeiro homem para assumir a coroa. Encantado com a moça, que não era tão bela mas era espirituosa e bem humorada, Henrique VIII logo começou a cortejá-la insistentemente, sendo sempre recusado.
Esta recusa teria sido a provável causa do grande encantamento do Rei por Ana, que mostrou grande determinação ao afirmar que se não pudesse ser esposa, amante não seria.
A partir dai Henrique VIII, usando o argumento da falta de um herdeiro homem e do suposto parentesco com a Rainha, que seria sua cunhada (viúva de seu irmão), trabalhou junto ao Vaticano para anulação do casamento.
Carta da Inglaterra ao Vaticano para anulação do casamento de Henrique VIII.

A carta seguiu com 85 selos de nobres que apoiavam a solicitação do Rei. 
Mas a Rainha Catarina tinha aliados poderosos como seu sobrinho Carlos V da Espanha, de modo que o Papa Clemente VII negou a anulação do casamento levando Henrique VIII a casar mesmo assim, rompendo com a Igreja e fundando a Igreja Anglicana.
O casamento ocorreu em segredo, no dia 25/01/1533, quando Ana já estava grávida. O divórcio do Rei e da Rainha só foi oficializado em 23/05/1533 e o casamento com Ana foi validado em 28/05 do mesmo ano. Poucos dias depois, em 01/06, Ana Bolena foi coroada na Abadia de Westminster.
Relativamente poucas pessoas compareceram ao banquete cerimonial, mostrando a forte impopularidade da nova rainha. Quando as notícias chegaram a Roma, Henrique VIII foi excomungado pelo Papa.
Henrique VIII e o Papa Clemente VII.
Tamanho escândalo foi se revelando infrutífero na medida em que os meses se passavam. É certo que Ana já estava grávida, mas o herdeiro masculino não veio, nascendo Elisabeth no dia 07/09/1533. As novas gravidezes resultaram em abortos ou em herdeiros que logo morreram e novas e desesperadas tentativas de engravidar não deram resultado.
O casamento também se deteriorou porque Ana não soube ou não quis lidar pacificamente com os casos extraconjugais do marido, talvez por receio de ser descartada caso uma das amantes desse ao rei o tão sonhado herdeiro homem. Há relatos de que a rainha chegou a agredir fisicamente a nova amante do Rei, Jane Seymor.
A Rainha Catarina de Aragão e Jane Seymor.
Mas nada disso foi suficiente para salvar a situação. No período em que Henrique VIII já tinha Jane Seymor como amante, rumores de infidelidade e incesto supostamente cometidos pela rainha foram usados pelo Rei para se livrar da esposa.
Ela e mais cinco supostos (e não comprovados) amantes, inclusive o irmão da Rainha (Jorge Bolena) foram presos na Torre de Londres. Os homens foram mortos dia 17/05. A decaptação de Ana foi marcada para o dia seguinte.
A Torre de Londres.
Contudo, por influência do Primeiro Ministro Thomas Cromwell, a execução foi adiada. Ele queria afastar os simpatizantes da rainha e estrangeiros, para que relatos da decaptação não fossem espalhados e resultassem em uma imagem ruim do Rei.
Ana comportou-se bravamente durante estes momentos, reclamando do adiamento da execução, do atraso do carrasco e caminhando de cabeça erguida quando o momento finalmente chegou.
Apesar dos cuidados de Cromwell, ocorreram vazamentos seletivos do acontecimento. O mais aceito deles, feito por Edward Hall, informa que as últimas palavras de Ana Bolena foram estas, proferidas aos presentes:
Bom povo cristão, eu não vim aqui para passar sermão; eu vim para morrer. De acordo com a lei e pela lei fui julgada para morrer, e, portanto, eu não direi nada contra isso. Não vim aqui para acusar qualquer homem, nem para falar daqueles que me acusaram e condenaram à morte, mas eu rezo a Deus que salve o rei e mantenha-o por muito tempo reinando sobre vocês, pois príncipe mais misericordioso jamais existiu, e para mim ele sempre foi bom, gentil, e senhor soberano. E se alguma pessoa intervir em minha causa, eu peço a ele [o rei] que o julgue melhor. E assim eu me despeço do mundo e de vocês, e cordialmente peço-lhes que rezem por mim.1
Acredita-se que Ana não contestou sua condenação e proferiu palavras elogiosas a Henrique VIII por ser o usual na época mas, principalmente, para que sua filha Elisabeth e sua família não incorressem na ira do Rei por culpa dela.
Após o discurso Ana teve os adornos que carregava retirados para deixar o pescoço livre para receber o golpe do carrasco. No momento final o carrasco teria pedido a espada em voz alta, levando a condenada a virar um pouco a cabeça para olhar. Esse pedido (encenado, posto que o carrasco já estava com a espada), teria a intenção de provocar um leve movimento da vítima, facilitando o golpe.
Quando este foi dado, ocorreu com precisão, separando cabeça e corpo em uma única espadada. Os restos mortais de Ana Bolena foram colocados em uma caixa de flechas e sepultados no piso da capela de St. Peter ad Vincula, dentro do próprio complexo da Torre de Londres.
Suposto local de execução de Ana Bolena e a Capela de St. Peter ad Vincula ao fundo.
Com o tempo, a localização de seu túmulo se perdeu e exumações posteriores podem ter misturado seus ossos com o de outras pessoas sepultadas no local. Assim sendo, quando o visitante se depara com a lápide no chão, indicando a sepultura de Ana Bolena, pode não estar sobre seus restos mortais.
A suposta sepultura de Ana Bolena.
A despeito de sua vida conturbada e de seu fim trágico, Ana Bolena escreveu com letras muito fortes seu nome na História e legou à Inglaterra uma herdeira que acabou se tornando sua maior Rainha: Elisabet I.
Long Live The Queen!


1 https://rainhastragicas.com/2016/05/19/eu-me-despeco-deste-mundo-e-de-voces-as-ultimas-palavras-de-ana-bolena/

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Fontes e Imagens:

https://tudorbrasil.com/2014/09/15/10-fatos-que-voces-deve-saber-sobre-ana-bolena/
https://rainhastragicas.com/2013/04/11/escandalo-na-corte-seria-ana-bolena-filha-de-henrique-viii/
https://rainhastragicas.com/2016/05/19/eu-me-despeco-deste-mundo-e-de-voces-as-ultimas-palavras-de-ana-bolena/
https://rainhastragicas.com/2016/05/19/eu-me-despeco-deste-mundo-e-de-voces-as-ultimas-palavras-de-ana-bolena/
http://origin.guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/historia-ana-bolena-reinado-henrique-viii-681249.shtml
https://rainhastragicas.com/2014/05/19/a-exumacao-de-ana-bolena/
https://seuhistory.com/biografias/ana-bolena
https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_I_de_Espanha
https://pt.wikipedia.org/wiki/Tom%C3%A1s_Wolsey
https://pt.wikipedia.org/wiki/Henrique_VIII_de_Inglaterra
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ana_Bolena
http://famouswonders.com/tower-of-london-near-the-river-thames/
http://creatingit.org/wp-content/uploads/2016/09/st-peter-ad-vincula-and-execution-place-for-jane.jpg