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segunda-feira, 24 de junho de 2013

ESPECIAL 2



O CAPÍTULO ANTERIOR ESTÁ LOGO ABAIXO DO ATUAL!


COMO O CRISTIANISMO TRIUNFOU EM ROMA – X
O conflito entre os dois Augustos teve início em 314 d.C. com a Batalha de Cibalis, que terminou com a vitória de Constantino.
Para Lissner1 o segundo confronto, ocorrido na Trácia (Batalha de Márdia), terminou indefinido mas serviu para que os Augustos assinassem um termo de paz que dividiu o Império Romano em dois estados completamente separados e independentes pois “Nenhum deles tinha o direito de imiscuir-se no outro.” (pg.494)
As atitudes dos dois soberanos quando de volta a seus domínios foi totalmente oposta.
Veyne2, defendendo a tese de que Constantino já era cristão convertido nesta época, detalha os pontos que, acredita ele, foram a política do governante já a partir de 312 d.C.(pg.9):
  1. Todas as suas medidas desde então visaram preparar um futuro cristão para Roma;
  2. Ele seria cristão mas permaneceu pagão, não perseguindo os cultos e seus seguidores;
  3. Apoiaria fortemente a Igreja, mas não imporia sua fé;
  4. Proibiria cultos à sua pessoa e dispensaria da realização de ritos pagãos os funcionários públicos cristãos;
  5. Não se empenharia na conversão dos pagãos, deixando esta tarefa à Igreja;
  6. Pensaria em abolir os sacrifícios de animais aos deuses, mas não chegaria a fazê-lo;
  7. Assumiria a função “... auto-proclamada de uma espécie de presidente da Igreja; atribuirá a si mesmo negócios eclesiásticos e usará de rigor não com os pagãos, mas com os maus cristãos, separatistas ou hereges.”(pg.10)
Se no Ocidente a paz reinava por meio das ações de um Imperador politicamente hábil e religioso tolerante, no Oriente Licínio se entregou a uma feroz perseguição contra os cristãos: “As igrejas foram destruídas, os dignatários condenados à morte e os fiéis lançados na prisão.”(LISSNER, pg.494).
Mas, por conta do acordo firmado em Milão, o Ocidente não podia interferir no que se passava no Oriente. A situação mudou quando, em 324 d.C., os bárbaros invadiram o império, atravessando o Rio Danúbio e não foram contidos por Licínio, a quem cabia a tarefa.
Constantino então rompeu o acordo e cruzou as fronteiras dos domínios de seu colega do Oriente para combater os invasores. Este foi o estopim do novo conflito Ocidente x Oriente.
Para Licínio, entretanto, conforme destaca Lissner, esse foi o confronto entre duas fés: “Essa batalha demonstrará qual de nós possui a boa crença […] Se nossos deuses alcançarem a vitória, levaremos a guerra contra todos os infiéis (os cristãos).”(LISSNER pg.495)
A batalha decisiva estava prestes a começar!
Continua...
1 LISSNER, Ivar. Os Césares – Apogeu e Loucura: Tradução de Oscar Mendes. Belo Horizonte: Itatiaia, 1964.
VEYNE, Paul. Quando nosso mundo se tornou cristão [312-394]. Tradução de Marcos de Castro. Civilização Brasileira. 2011. Versão eletrônica disp. em:http://portalconservador.com/livros/Paul-Veyne-Quando-Nosso-Mundo-Se-Tornou-Cristao.pdf
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COMO O CRISTIANISMO TRIUNFOU EM ROMA – IX
Segundo Paul Veyne13, não foi Constantino que encerrou com a perseguição aos cristãos, já encerrada antes, mas que coube a ele “...fazer com que o cristianismo, transformado em sua religião, fosse uma religião amplamente favorecida, diferentemente do paganismo.”(pg.7).
O autor informa que havia um ambiente de virada da situação dos cristãos pois, no ano seguinte à tomada de Roma por Constantino, o Augusto do Oriente, Licínio, que era pagão mas não perseguia os cristãos, venceu seu rival perseguidor, Daia.
Com esta vitória, Roma voltava a ser uma diarquia, com um Augusto para o Ocidente, Constantino, e outro para o Oriente, Licínio. Ambos já haviam entrado “...em acordo em Milão para que seus assuntos pagãos e cristãos fossem tratados em pé de igualdade...” (pg.8)

A união dos dois homens mais poderosos da terra fora sacramentada através do casamento. Não entre eles, claro, mas entre Constância, filha de Constantino, e Licínio. No acordo foi disposto que o cristianismo seria tolerado e que “...os bens espoliados, os lugares de reunião dos cristãos deviam ser restituídos, as diversas comunidades cristãs reconhecidas.”(LISSNER, pg.491).
Paul Veyne chama a atenção para a diferença fundamental existente entre os cultos pagão e cristão que foram autorizados a conviver no império. Enquanto o fiel pagão tinha uma relação ocasional e de interesse com seus deuses, a quem recorria para o suprimento de suas necessidades, os cristãos agiam como submissos a Deus, vivendo em função de agradá-Lo. (pg.8)
E, se por um lado, Constantino não pretendesse, segundo Veyne, impor a crença cristã aos pagãos, por outro não aceitaria mais qualquer perseguição pagã aos cristãos.
Assim, foi por uma legítima proteção da fé, ou usando-a como pretexto, que Constantino entrou em guerra contra Licínio em 324 d.C. quando este expulsou os cristãos de seu convívio e impediu a passagem das tropas ocidentais pelas terras do Oriente para combater na Sarmátia14.
Vamos, contudo, por partes. 
Continua...

COMO O CRISTIANISMO TRIUNFOU EM ROMA – VIII
Segundo Lissner7, Maxêncio formou um exército composto de “...170.000 infantes e de 18.000 cavaleiros.”(pg. 480) e estabeleceu sua sede em Roma, ordenando a destruição do acesso à cidade, as pontes sobre o Rio Tibre.
Ele contava com muitas vantagens. Um exército duas vezes maior que o de Constantino, o apoio da Guarda Pretoriana, as muralhas da cidade e um bom abastecimento de alimentos.
Por seu turno, Constantino conseguiu recrutar um exército composto de “...90.000 infantes e de 8.000 cavaleiros...”(pg. 480), com o qual chegou às portas de Roma.
Ele ainda conquistou apoio ao redor de Roma, que fora isolada com a derrubada das pontes, e, mais ainda, contava com a simpatia do próprio povo de Roma, dentro dos muros.
Lissner conta que o confronto decisivo ocorreu em 28/10/312 d.C. Na Ponte Mílvia, sobre o Rio Tibre. Maxêncio, que ordenara sua destruição para cortar o acesso a Roma construíra, ao lado, uma ponte de barcos, para permitir passagem às suas tropas.
A Historiografia da época revela um acontecimento milagroso, relacionado a esta batalha. Com algumas diferenças entre si, os relatos de Lactâncio8 e Eusébio de Cesaréia9 dão conta de que Constantino teve uma visão no céu (e depois um sonho), onde lhe foi mostrada uma mensagem: in hoc signo vinces10 (com este símbolo vencerás) e as letras “x” e “p” conjugadas (que são as primeiras letras da palavra Cristo em grego: ΧΡΙΣΤΟΣ11).
Constantino ordenou que o símbolo fosse pintado nos escudos e nos estandartes de seu exército, que, assim caracterizado, marchou para enfrentar as tropas de Maxêncio.
Este consultara os oráculos sibilinos que lhe informaram que o inimigo de Roma morreria, de modo que partiu convicto da vitória. Ele posicionou suas tropas em longa linha de frente, tendo o Rio Tibre na retaguarda, o que dificultou a mobilidade.12
Constantino ordenou um ataque de cavalaria que, apesar do menor número, conseguiu romper a cavalaria de Maxêncio e fazer carga sobre a infantaria cuja linha também rompeu.
Na fuga por sobre a ponte de barcos Maxêncio caiu no rio, morrendo afogado. Quem não conseguiu atravessar antes do colapso da estrutura foi capturado ou morto pelos soldados de Constantino.
Se Constantino teve realmente uma visão espiritual, ou se apenas usou um habilíssimo estratagema para encorajar seus soldados (provavelmente de maioria cristã), o fato é que seu exército inferior derrotou as numerosas mas mal comandadas e pouco motivadas tropas de Maxêncio.
Em 29/10/312 Constantino entrou triunfalmente em Roma, sendo saudado pela população que também podia ver a cabeça de Maxêncio exibida como prova de sua morte. Parece que o inimigo de Roma era ele próprio!
Continua...
7 LISSNER, Ivar. Os Césares – Apogeu e Loucura: Tradução de Oscar Mendes. Belo Horizonte: Itatiaia, 1964.
8Lucio Célio Firmiano Lactâncio foi um autor entre os primeiros cristãos que se tornou um conselheiro do primeiro imperador romano cristão, Constantino I, guiando sua política religiosa que começava a se desenvolver e sendo o tutor de seu filho.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Lact%C3%A2ncio
9Eusébio de Cesareia foi bispo de Cesareia e é referido como o pai da história da Igreja porque nos seus escritos estão os primeiros relatos quanto à história do cristianismo primitivo.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Eus%C3%A9bio_de_Cesareia
10https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_da_Ponte_M%C3%ADlvia
11https://pt.wikipedia.org/wiki/Chi_Rho
12https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_da_Ponte_M%C3%ADlvia

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quinta-feira, 20 de junho de 2013

LEMBRANÇAS UNIVERSITÁRIAS


HERÓI DA REPÚBLICA – A VISÃO DE JOSÉ M. DE CARVALHO
José Murilo de Carvalho9 fala da dificuldade em se construir um herói para a República. Deodoro, que poderia encarnar o papel, tinha contra si a aparência com o Imperador, um duvidoso republicanismo e sua fama era restrita ao meio militar. Benjamin Constant também não atendia ao perfil desejado.
Floriano Peixoto não unificava, ao contrário, dividia Militares e Civis, uns contra os outros e entre si mesmos, pela forma como se conduziu nas Revoltas da Armada e Federalista. Por fim o próprio movimento da proclamação carecia de participação popular e seus líderes eram ilustres desconhecidos do povo.
Apela-se então à figura cuja história se vinha tentando resgatar nos círculos republicanos desde a década de 1870: Tiradentes!
Carvalho comenta que a disputa historiográfica sobre Tiradentes foi e continua intensa, contudo esta não é sua meta, mas, antes, como se dá a construção do mito e como sua simbologia é apropriada.
Para o autor há poucas informações sobre quem foi e como vivia Tiradentes, embora se saiba que foi grande a comoção popular causada pela condenação dos inconfidentes, que o povo ficou aliviado com o perdão concedido à maioria, embora condoído pela execução do único réu não perdoado. Cita ainda que o delator, Joaquim Silvério dos Reis, foi amplamente rejeitado em Minas e no Rio de Janeiro, trocando de nome e tendo, por fim, de se refugiar no Maranhão.
Mas a luta pela memória de Tiradentes se arrastou por toda a vigência do império, pois resgatar sua figura consistia em condenar a avó do proclamador da Independência, D, Pedro I e da bisavó do Imperador da época, D.Pedro II.
Para Carvalho, apenas a obra de Robert Southey, publicada em 1810, é neutra, embora sua fonte sobre o tema fosse bem limitada. As demais publicações, para o autor, estavam todas contaminadas de ideologia, ou monarquista, ou republicana, embora reconheça o caráter inédito e mais bem embasado da obra de Joaquim Norberto de Souza Silva, História da Conjuração Mineira, feita a partir dos Autos da Devassa, guardados nos arquivos imperiais, entre outras fontes.
A obra nos permite conhecer o Tiradentes que passou os últimos anos de vida no cárcere, onde entrou como um revolucionário e de onde teria saído convertido em fervoroso cristão, obra dos franciscanos que buscaram catequizá-lo. Para Carvalho, Norberto diminui a importância de Tiradentes e aumenta a de Gonzaga, tira o foco de um representante humilde e passa para um membro da elite.
A transformação de Tiradentes em religioso, que sai das páginas de Norberto, irritou os republicanos, mas para Carvalho é justamente isso que vai contribuir para a mitificação do homem.
A associação religiosa, a figura aproximada da imagem de Cristo, tudo isso esta nas representações artísticas e vai crescer até a proclamação, embora jamais tenha existido nenhum retratista que tenha representado Tiradentes enquanto este vivia, nenhum que o tenha conhecido pessoalmente, mas, antes, uma descrição sua como "feio e espantado", nas palavras de Alvarenga Peixoto. Bem diferente daquela figura cristianizada e serena que povoa os livros de História e os bustos espalhados pelo país.
O autor identifica ainda a não-concretização da revolta, o não-derramamento de sangue, o auto-imposto comportamento de mártir de Tiradentes, a forma de sua execução como contributos para que permanecesse no imaginário popular como um herói corajoso que enfrentou a morte por acreditar em seus ideais, logo, figura passível de ser reivindicada por qualquer ideal, até mesmo abolicionista, operário, socialista ou anarquista.
Isso servia aos interesses do novo regime político que o queria como herói nacional unificador de todos os interesses e não apenas os republicanos, o que sempre geraria críticas dos adversários do regime.
A apropriação que todos fizeram de sua imagem, contribuiu para que se tornasse o símbolo procurado, aceito por todos, servindo aos interesses de todos.
Continua...
9CARVALHO, José Murilo de. Tiradentes: Um Herói para a República in: A Formação das Almas. Cia. das Letras.

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terça-feira, 18 de junho de 2013

REINO DE CLIO - PORQUE TUDO É HISTÓRIA!


O REINO DE CLIO ESTÁ DE VOLTA!
Olá! Seja bem vindo!
Iniciamos nossa trajetória em 2008 como um fotoblog, destinado a publicar as nossas aventuras no curso de História. Publicamos 1000 fotos e atingimos 20.000 visualizações.
Agora estamos de volta como um blog onde, já como professor, vamos publicar textos diversos sobre o que considerarmos relevante escrever.
Vamos procurar dar atenção a análises históricas do que ocorreu ou ocorre no mundo buscando sempre uma visão plural.
Este procedimento é, para nós, um dever de toda pessoa que abraça o sacerdócio do ensino ao qual ninguém nos obriga mas que, se o queremos bem exercido, obrigamo-nos voluntariamente.
Melhor esclarecendo: ao professor, principalmente de História, não é dado o direito de “ir na onda” sem analisar criteriosamente o que, porque, como, quando, onde e, principalmente, pelo interesse de quem, as coisas ocorreram ou estão ocorrendo.
Isso se dá desta forma pois um dia os alunos poderão perguntar a respeito e o professor deverá saber responder sem paixões ou parcialidades, mas de forma plural, para que os alunos possam conhecer e escolher por si mesmos.
Assim vejo o sacerdócio do ensino. Essa é a meta a ser sempre perseguida.
Espero que goste e volte sempre. Agradeço sua visita!
Marcello Eduardo