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sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A VITÓRIA CRISTÃ EM ROMA - IX



COMO O CRISTIANISMO TRIUNFOU EM ROMA – IX
Segundo Paul Veyne13, não foi Constantino que encerrou com a perseguição aos cristãos, já encerrada antes, mas que coube a ele “...fazer com que o cristianismo, transformado em sua religião, fosse uma religião amplamente favorecida, diferentemente do paganismo.”(pg.7).
O autor informa que havia um ambiente de virada da situação dos cristãos pois, no ano seguinte à tomada de Roma por Constantino, o Augusto do Oriente, Licínio, que era pagão mas não perseguia os cristãos, venceu seu rival perseguidor, Daia.
Com esta vitória, Roma voltava a ser uma diarquia, com um Augusto para o Ocidente, Constantino, e outro para o Oriente, Licínio. Ambos já haviam entrado “...em acordo em Milão para que seus assuntos pagãos e cristãos fossem tratados em pé de igualdade...” (pg.8)

A união dos dois homens mais poderosos da terra fora sacramentada através do casamento. Não entre eles, claro, mas entre Constância, filha de Constantino, e Licínio. No acordo foi disposto que o cristianismo seria tolerado e que “...os bens espoliados, os lugares de reunião dos cristãos deviam ser restituídos, as diversas comunidades cristãs reconhecidas.”(LISSNER, pg.491).
Paul Veyne chama a atenção para a diferença fundamental existente entre os cultos pagão e cristão que foram autorizados a conviver no império. Enquanto o fiel pagão tinha uma relação ocasional e de interesse com seus deuses, a quem recorria para o suprimento de suas necessidades, os cristãos agiam como submissos a Deus, vivendo em função de agradá-Lo. (pg.8)
E, se por um lado, Constantino não pretendesse, segundo Veyne, impor a crença cristã aos pagãos, por outro não aceitaria mais qualquer perseguição pagã aos cristãos.
Assim, foi por uma legítima proteção da fé, ou usando-a como pretexto, que Constantino entrou em guerra contra Licínio em 324 d.C. quando este expulsou os cristãos de seu convívio e impediu a passagem das tropas ocidentais pelas terras do Oriente para combater na Sarmátia14.
Vamos, contudo, por partes.
Continua...
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quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

CÉSAR ATRAVESSA O RUBICÃO


CÉSAR CRUZA O RUBICÃO
Em um dia 10/01 como hoje, no ano 49 a.C., Júlio César, acompanhado da XIII Legião, atravessou o Riacho Rubicão, em Ariminum (atual Rimini – Itália), cruzando assim a fronteira italiana da época e violando a lei do Senado que proibia o ingresso de Generais e Legiões armadas na Itália.
A República Romana vivia seus momentos finais, embora parecesse restaurada após a ditadura de Sila. Quando este morreu, o poder retornou a um Senado desconectado do povo e incapaz de reassumir, de fato, o comando do império que Roma já se tornara.1

Com isso, recorreu-se ao suporte de figuras aliadas de Sila, mas capazes de reunir apoio popular, apesar de oriundas das classes dominantes. O poder passou a se concentrar em Cneu Pompeu e Marco Crasso.2
O Triunvirato
Crasso, “...general enriquecido pela compra dos bens confiscados por Sila...”3 derrotara a rebelião de Spartacus, mas tivera seu triunfo (o mais pomposo desfile militar) negado pelo Senado.4

Pompeu conquistara fama e fortuna vencendo a rebelião de Sertório, na Hispania, também vencera o Rei Mitridates e eliminara os piratas do Mar Mediterrâneo.5 Contudo os senadores estavam receosos do poder acumulado pelo general, por eles mesmos conferido, e passaram a cerceá-lo.6
Uma vez terminadas as campanhas militares, Pompeu e Crasso deveriam devolver os postos de comando, o que não fizeram. E o Senado não tinha como forçá-los sem iniciar uma guerra civil.7
Para garantir o apoio do partido popular, ambos fizeram acordo com um dos sobrinhos de Mário que conseguira escapar da perseguição de Sila. Seu nome? Júlio César!8

O acordo político dos três garantia “assistência mútua entre si para dividir o poder” entre eles mesmos e seus aliados nascendo, assim, o sistema que ficou conhecido como Primeiro Triunvirato.9
Este sistema de alianças permitiu que César chegasse ao Consulado e conseguisse, depois, o mandato para atuar na Gália. Esta guerra, como se sabe, lhe garantiu imensa riqueza e fama, equiparando-o, e até superando, seus dois parceiros de poder.
Apesar dos imensos egos que suportava, o acordo correu bem até que a morte os separou. Em 54 a.C. a esposa de Pompeu, Júlia, morreu de parto. Ela era filha de César.10 E no ano seguinte, 53 a.C., quem morreu foi Crasso, quando seu exército foi massacrado na Partia.11
Com esta morte, o equilibrio do Triunvirato acabou pois “A graça do triunvirato residia na sua inerente estabilidade, pois nenhum dos seus membros podia contra os outros dois”.12

O iminente retorno de César vitorioso e super rico da Gália fez com que seus adversários do Senado instigassem Pompeu contra ele. A estratégia consistiu, segundo Sheppard, em fazê-lo voltar a Roma sem a imunidade do cargo de Cônsul, para poder acusá-lo e derrotá-lo, apesar de um acordo ter sido aprovado “...por ampla maioria: 370 votos contra 22.13
Os 22, porém, conseguiram vetar os votos dos 370 e “O fato de os poucos senadores poderem vetar uma medida com apoio tão amplo era apenas um dos sinais do estado de deterioração das instituições democráticas de Roma.14
Lissner compara Roma a uma nau sem piloto, entregue à anarquia: “O Senado era corruptível, a Constituição estalava por todos os lados e as tribunas dos oradores estavam muitas vezes manchadas de sangue...15
Quando Pompeu finalmente aderiu aos inimigos de César, o confronto direto deixou de ser apenas uma das opções, passando a ser a única.16
Os primeiros embates da Guerra Civil, porém, ocorreram não nos campos de batalha, mas no piso do Senado. Uma série de medidas legislativas, algumas apenas de fachada, outras aprovadas e depois vetadas, resultou, por fim, na declaração de César como fora da lei.17
Com suas conquistas e a própria vida em risco, César dirigiu-se a Ariminum, onde o Rio Rubicão marcava a fronteira da Itália, na qual pela lei ele não poderia entrar liderando tropas.18

Plutarco descreve assim o momento decisivo: “Havendo, pois, chegado ao Rio Rubicão, […] parou pensativo e esteve por algum tempo meditando sobre o atrevimento de suas ações. Depois […] sem articular mais palavras do que esta expressão […] - A sorte está lançada...- fez com que as tropas atravessassem o rio.”19
César estava voltando pra casa!
1  SHEPPARD, Si. Grandes Batalhas - Farsália 48 a.C. César contra Pompeu. Osprey – Espanha 2010. pg. 10
2   Idem
3   MENDES, Norma Musco. Roma Republicana. São Paulo: Ática, 1988. pg. 67
4  BRANDÃO, José Luís (coord.); OLIVEIRA, Francisco de (coord.). História de Roma Antiga volume I: das origens à morte de César. Coimbra-Portugal: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2015. pg.373
5  GRIMAL, Pierre. História de Roma. Trad. Mª L. Loureiro. São Paulo: UNESP , 2011. pg. 106
6   (MENDES: 1988) pg. 67
7   (BRANDÃO; OLIVEIRA: 2015). pg.373
8   (MENDES: 1988) pg. 67
9   (GRIMAL: 2011) pg. 111
10  SUETONIUS. Roma Galante – pg. 16
11  (BRANDÃO; OLIVEIRA: 2015). pg.384
12  (SHEPPARD: 2010) pg. 11
13 BRUNS, Roger. Os Grandes Líderes – Júlio César. São Paulo: Nova Cultural, 1988. pg. 64
14  Idem
15 LISSNER, Ivar. Os Césares – Apogeu e Loucura: Tradução de Oscar Mendes. Belo Horizonte: Itatiaia, 1964. pg.79
16  (BRANDÃO; OLIVEIRA: 2015). pg.385
17  (SHEPPARD: 2010) pg. 12-16
18  Ibid. pg. 16
19 PLUTARCO. Vidas Paralelas - Tomo V - Pompeyo: LX
 

sábado, 1 de dezembro de 2018

PRINCESA ISABEL DO BRASIL

http://cearamirimvale.blogspot.com.br/2014_05_11_archive.html
NOVA SÉRIE DO REINO DE CLIO!
Nos últimos tempos o Reino de Clio vem, com suas séries, tentando sempre manter um foco na prestação de homenagens a mulheres que tiveram participação importante na História do Brasil.
E são muitas as mulheres que, em meio a um ambiente sempre machista, conseguiram a duras penas gravar seus nomes no eterno processo de construção da nossa sociedade.
Essa quantidade impossibilita que todas sejam homenageadas, de modo que vamos nos focando naquelas que atingiram maior notoriedade.
Hoje iniciamos uma nova mini-série, desta feita dedicada à Princesa Isabel. O texto é uma mescla entre pesquisa feita para um seminário da UFS, realizado junto com os amigos Carla Oliveira, Rafael Rocha e Gérson Alves e novo material.
Especificamente falando, utilizamos material produzido pela Profª. Carla Oliveira no qual introduzimos mais conteúdo, o que resultou na obra que segue, portanto uma co-autoria.
Como sempre, nosso intento é contar uma boa História e esperamos que seja tão bom ler, quanto foi pesquisar e escrever.
Todas as informações desta série são oriundas da obra” Princesa Isabel do Brasil: Gênero e Poder no século XIX”[1] de Roderick J. Barman, a não ser quando expressamente informado.
Vamos, pois, à Princesa Isabel, porque o Ministério do Reino de Clio é cheio de mulheres!
D. Isabel foi a terceira mulher a ocupar uma posição que poderíamos qualificar como chefe de estado do Brasil, única delas brasileira (a primeira foi a rainha portuguesa Maria I, a segunda a austríaca D. Leopoldina) e foi também nossa primeira senadora.
Com a morte prematura dos dois irmãos, ela tornou-se, aos 04 anos de idade, a primeira na linha de sucessão do trono, prestando juramento aos 14 anos de idade, de acordo com a Constituição. 
Roderick J. Barman revela que os historiadores não se ocupam muito da figura de D. Isabel. Quando geralmente o fazem é por dois motivos: por sancionar a Lei do Ventre Livre em 1871, e por assegurar o fim da escravidão, sancionando a Lei Áurea de 1888.
Porém, a princesa Isabel foi a herdeira do trono do Brasil durante quase quarenta anos, de 1851 a 1889, e nesse período a participação dela não foi tão limitada como se está acostumado a crer. É sobre a vida dela que o autor irá escrever.
Fazendo uma análise do contexto histórico em que viveu D. Isabel, o autor coloca que ainda no século XIX, assim como nos anteriores, as mulheres eram educadas para exercerem as típicas funções de filhas, esposas e mães, mas nenhuma delas em diferentes países eram preparadas para a função de governante do Estado. Logo, com a Princesa Isabel não foi diferente.
À mulher era negado o direito de formação política. E para dar um exemplo, Barman menciona as únicas mulheres que são citadas na História do Brasil: Imperatriz Leopoldina, Maria Quitéria e Joana Angélica.
A política, frequentemente definida em termos de poder, ou seja, de “quem tem o que, quando e como”, ocupava-se do acesso e do controle dos recursos materiais e humanos. Era vista como parte da esfera pública, na qual as mulheres não tinham lugar. (p. 20)


CONTINUA


PRINCESA ISABEL DO BRASIL – Parte II
A Princesa Isabel nasceu em 29 de julho de 1846, segunda filha do Imperador D. Pedro II e da Imperatriz Teresa Cristina.
Ao nascer, o bebê foi levado pelo pai a um grupo de homens do governo reunidos para atestar as declarações de nascimento da criança, que, sendo menina, mostrou ser uma grande frustração para todos os presentes. 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Princesa_Isabel_cerca_1851_frame_removed.png
Ela foi batizada com o nome de Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga, os quatro últimos dados por tradição aos membros da família Bragança. Depois do nascimento de Isabel, nasceu sua irmã Leopoldina.
Barman diz que a princesa e sua irmã levavam uma vida reclusa, o que as impossibilitava de manter contato com o público. 
http://www.conexaojornalismo.com.br/video/o-maior-casamento-brasileiro-da-historia,-por-elcio-braga-video-84-41117
No que se refere a educação das princesas, é sabido que em maio de 1854 iniciaram seus estudos com um preceptor republicano convicto, Francisco Crispiniano Valderato, que as tratava de doninhas[1] no lugar de Altezas, como mandava o protocolo.
D. Isabel tinha, em sua personalidade, a tendência a ver a vida de forma alegre, como também faltava-lhe introspecção.
Por tradição da Coroa Portuguesa, ao completar 7 anos, o herdeiro do trono era entregue aos cuidados de um aio[2], que ficava responsável por sua criação e educação.

[1]  O nome Doninha pode-se referir a vários pequenos mamíferos carnívoros das famílias dos mustelídeos e dos mefitídeos.
Disp.: https://pt.wikipedia.org/wiki/Doninha
[2]  A palavra "aio" vem de uma palavra grega que quer dizer, literalmente, "uma pessoa que conduz uma criança". 
Disp.: http://www.dicionarioinformal.com.br/aio/

http://escola.britannica.com.br/assembly/191459/Retrato-de-dom-Pedro-II-dona-Teresa-Cristina-e-as
D. Pedro II era extremamente zeloso e rigoroso quando o assunto era a educação de suas filhas. Sendo um homem culto, amante das ciências e das artes, preparou ele mesmo um programa para desenvolver o conhecimento das meninas.
Porém é necessário dizer que o Imperador não incluiu no programa nenhum tipo de educação que preparasse D. Isabel para o papel de futura governante do país, como foi visto anteriormente. É possível pensar que ele esperasse vir a ter um filho homem para quem pudesse deixar o trono. 

PRINCESA ISABEL DO BRASIL – Parte III
A Isabel foi negada toda espécie de conhecimento político, como era típico da sociedade da época. É preciso dizer também que a princesa era um tanto descuidada com a educação formal, ela não tinha muito interesse, sendo muito resistente no tocante a essa questão.
Também não havia uma prática de educar as meninas para as mudanças pelas quais o corpo passava ao entrar na adolescência. Elas permaneciam em estado de completa ignorância.  
Era muito comum aos homens do século XIX, acreditar que as mulheres eram altamente incapazes de administrar sozinhas suas próprias vidas.  Essas mudanças fisiológicas geralmente eram acompanhadas por alguns transtornos psicológicos, como depressões e agressividades. 
Para a sociedade da época era o casamento que dignificava a mulher.   
Os casamentos eram acordos, transação de bens arranjadas pelos pais. Não cabiam às filhas escolherem seus cônjuges, precisavam apenas aceitar de bom grado e com muita resignação o que lhes era imposto:
No século XIX, o casamento era o destino da maioria das mulheres ocidentais nascidas nas classes média e alta. A missão de vida da mulher consistia em prestar apoio, conforto e lealdade ao marido e em gerar e criar seus filhos. (p. 78)

Com a Princesa Isabel não foi diferente. Coube ao Imperador a escolha do genro. E ele procurou um jovem influente de família real. Não poderia aceitar menos que isso para casar suas filhas.
Foram indicados para desposarem as princesas os senhores August de Saxe-Coburg e o Conde d’Eu. Os trâmites dos casamentos foram tão burocráticos quanto à época se exigiam e as princesas não tomaram conhecimento dessas negociações. 

O BEM COMPORTADO NAMORO!
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Alberto_Henschel_-_A_Familia_Imperial.jpg
É notória a paixão da princesa Isabel por seu pretendido, porém é notório também que ele não sentiu a mesma empolgação e não compartilhou os mesmos sentimentos. Poder-se-ia dizer que ele se casou por conta do interesse próprio. 
CASAMENTO DA PRINCESA ISABEL
http://rio-curioso.blogspot.com.br/2010/12/o-casamento-da-princesa-isabel.html
Provavelmente ignorando isso, a princesa ficou feliz e ansiosa pela nova vida que a esperava: a de esposa e, conseqüentemente, a de mãe. O matrimônio foi celebrado no dia 15 de outubro de 1864.
Nada na educação da princesa lhe ensinara a igualar o matrimônio ao amor romântico. [...] Pode ser que o casal tenha se apaixonado durante a lua-de-mel em Petrópolis, mas nem por isso D. Isabel escapou ao seu papel de obediente subordinação. (p. 95 – 96)
CONTINUA

[1]  BARMAN, Roderick J. Princesa Isabel do Brasil: Gênero e Poder no século XIX. Tradução de Luis Antônio Oliveira Araújo. São Paulo: UNESP, 2005.