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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

IT – A COISA – CRÍTICA DE FÃ

PENNYWISE ASSUSTADOR COMO SEMPRE!
Como sabem, raramente nos aventuramos no mundo das críticas de filmes. Isso só acontece quando um filme chama muito nossa atenção, a ponto de sentirmos vontade de falar sobre ele com nossos amigos.
O livro IT, de Stephen King, é uma obra prima incontestável, embora não seja a única do autor, a nosso ver o maior escritor de suspense e terror de todos os tempos, tal a sua quantidade de livros que figuram juntos no topo das obras primas do gênero, superando, a nosso ver, nomes como Bram Stoker, Mary Shelley, H. P. Lovecraft, Robert Louis Stevenson e Edgar Allan Poe.
O filme em cartaz é uma refilmagem, sendo que a representação anterior, de 1990, em forma de minissérie, foi um trabalho muito bom, conduzido pelo diretor Tommy Lee Wallace, que fez o que precisam fazer quaisquer diretores e roteiristas para ter sucesso em uma adaptação de obra de Stephen King: não querer saber mais do que o mestre, ou melhor, serem o mais fieis possíveis ao livro tema. 
As modificações não comprometeram o trabalho como foi o caso da última versão de Cemitério Maldito, uma ofensa em termos de deturpação. 

AS CRIANÇAS DE 1990


Na versão de 1990 os atores crianças eram muito carismáticos e os adultos que as sucederam deram conta do recado mesmo sem ter nomes consagrados de Hollywood no elenco. Não foram brilhantes, mas trouxeram as emoções certas nos momentos certos.
OS ADULTOS DE 1990
O destaque, porém, ficou por conta do ator Tim Curry, que encarnou com maestria o palhaço Pennywise, jogando involuntariamente uma carga pesada nas costas de Bill Skarsgård, que atua nos filmes recentes. 

TIM CURRY, O PENNYWISE DE 1990
Nesta versão atual as crianças são tão ou mais carismáticas do que as de 1990, trazendo no elenco algumas carinhas já conhecidas e amadas como o talentoso Finn Wolfhard de Stranger Things. 
Os atores adultos, alguns deles de já consagrado talento como James McAvoy e Jessica Chastain, também dão conta do recado, sem superar, contudo, a turma de 1990. 

Mais uma vez o destaque vai para o ator escalado para dar vida a Pennywise. Bill Skarsgård entrega um palhaço diferente daquele apresentado por Tim Curry, mas nem por isso menos irônico, debochado e assustador, chegando a babar quando interage com suas vítimas.
A trama traz algumas diferenças e tem mais alterações da obra de Stephen King do que a minissérie, mas, com exceção de duas ausências (a esposa de Bill e o marido de Beverlly, que deveriam interferir de forma incisiva mas não aparecem nos momentos chave, é um erro sério) bem como uma cena desnecessária numa casa de espelhos, as alterações ajudam a contar a estória e não desrespeitam a obra tema. 

As referências sutis à outras obras de Stephen King bem como a empolgante participação do próprio, são cerejas nesse bolo delicioso que é o filme.
Saí do cinema satisfeito enquanto fã e recomendo 3 ações: leiam os livros, assistam os filmes atuais e, depois, assistam à minissérie de 1990 (com o cuidado de desprezar as diferenças tecnológicas de 29 anos que separam as duas filmagens).
E para Stephen King um pedido: em 1957 a Coisa atacou Georgie em Derry, voltando depois em 1984. Mas, considerando que o mal ainda persiste no mundo, que tal trazer A Coisa de volta em nosso tempo, para que a geração Iphone a enfrente? Mãos à obra mestre King! 




NAPOLEÃO EM MOSCOU

NAPOLEÃO ENTRA EM MOSCOU1
Em um dia como este 14 de setembro, no ano de 1812, Napoleão Bonaparte e seu exército entravam na cidade de Moscou, como resultado da invasão da Rússia, iniciada em 24/06/1812.
Na França essa invasão denominada Campanha Russa, na Rússia é conhecida como Guerra Patriótica de 1812. O próprio Napoleão, porém, a denominou de Segunda Guerra Polaca.
A campanha tinha dois objetivos básicos: forçar a Rússia a permanecer no Bloqueio Continental, decretado por Napoleão para coibir o comércio com a Inglaterra, e impedir a invasão da Polônia pelos russos e a preparação começou ainda em 1810, com a arregimentação de tropas que envolviam, além dos franceses, também homens da “Prússia, Áustria, Baviera, Saxônia, Itália, Nápoles, Polônia, Espanha e Croácia.
Ao todo o Grand Armée para invasão da Rússia foi composto por 610 mil soldados, 1420 canhões, 70 mil tropas de reserva e mais todos os comboios, cavalos, outros animais e aquelas pessoas que sempre seguiam a retaguarda dos exércitos.
Por seu lado o Csar Alexandre I também vinha montando um grande exército, que chegaria a 900 mil combatentes, mas que ainda não estavam reunidos, pois viriam de diversas partes do império russo. Quando a invasão começou, de surpresa, essa grande força não pode ser usada na defesa do território.
O Grand Armée iniciou a guerra cruzando o Rio Neman em 24/06/1812 e menos de dois meses depois já tomava Smolensk.  



Os três exércitos russos de defesa, apenas um deles com mais de 100 mil homens, recuavam em todas as frentes, mas conseguiram deter o avanço rumo a São Petesburgo.
Do lado francês, as perdas já totalizavam um terço das tropas, não apenas por morte, mas também por doenças, fadiga e deserções. A desvantagem francesa é que não tinha como repor essas perdas.
Para piorar a situação, o Csar convocou o povo russo a defender e Pátria ao mesmo tempo em que decretou a política de terra arrasada, o que privou os franceses de conseguir suprimentos e alimentos no decorrer do caminho.
Do lado russo a desvantagem inicial, representada pelos sucessivos recuos, trazia a condição de não sofrer perdas irreparáveis, pois não ofereciam batalhas decisivas, não tinham problemas com alimentação e suprimentos e podiam sempre receber tropas novas, vindas dos rincões mais distantes da Rússia.
A despeito disso, o avanço francês prosseguia, agora rumo a Moscou, sob comando de Napoleão em pessoa. Menos de 200km da cidade os russos finalmente ofereceram uma batalha de grandes proporções.
O General Kutuzov posicionou 155 mil homens e 640 canhões nas imediações da aldeia de Borodino. Napoleão chegou com 135 mil homens e 587 canhões. O combate durou o dia inteiro. 

Ao final daquele dia 07/09/1812 os russos haviam perdido 66 mil soldados e decidiram recuar para além de Moscou, abandonando a cidade para Napoleão, que havia perdido “58 mil mortos, incluindo 48 marechais”.
Só que a política de terra arrasada foi aplicada com ainda mais rigor em Moscou. Além da destruição de todos os recursos que pudessem servir ao invasor, a cidade foi evacuada e “minada”, ou seja, foi preparada para ser incendiada com os franceses dentro.
No dia 14/09/1812 Napoleão adentrou Moscou esperando saquear tudo e reabastecer suas tropas mas, o que viu foi a cidade começar a arder completamente. 

Napoleão ainda permaneceu cinco semanas acampado em Moscou, aguardando a rendição dos russos que nunca veio. Então, ciente de que nesse tempo os adversários estavam se rearmando, enquanto ele não tinha como manter seus soldados numa cidade vazia, ele decidiu pelo retorno à França. 
A volta foi catastrófica para o Grand Armée, como se sabe, pois então os recuos russos se transformaram em ataques e o General Inverno entrou em ação. 
Esse período foi decisivo para o futuro de Napoleão, da França e da Europa inteira.

Fontes e Imagens
1 https://pt.wikipedia.org/wiki/Campanha_da_R%C3%BAssia_(1812)
https://pt.wikipedia.org/wiki/Moscou#Czarado_e_Imp%C3%A9rio
https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Patriotic_War_of_1812_in_art
https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Battle_of_Borodino_in_art
https://commons.wikimedia.org/wiki/Category:French_invasion_of_Russia?uselang=pt




sexta-feira, 6 de setembro de 2019

CHURCHILL - Parte 11


CHURCHILL – Parte XI [1] [2]
No decorrer de janeiro/1915, embora Churchill ainda defendesse priorizar seu plano de ação no Mar do Norte, já começava a ver com bons olhos uma ação em Galipoli. Entretanto foi o Primeiro Ministro Asquith quem decidiu que as prioridades seriam uma ação no Mar Adriático, para pressionar a Itália, bem como o ataque a Galipoli, estipulando, inclusive, a data: fevereiro. (pg. 322)
O bombardeio começou em 19/02/1915 e visava destruir as defesas costeiras do estreito para poder adentrar a frota sob menor resistência. A primeira tentativa de entrada ocorreu em 18/03.
Dois navios foram enviados, mas encontraram resistência da fortaleza de Kum Kale. Após mais bombardeios preparatórios, os turcos recuaram das defesas na entrada do canal.
Em 25/02 os navios aliados penetraram o estreito seguindo os navios caça-minas. A medida em que avançavam, atacavam as defesas turcas e enviavam equipes de demolição para destruir as fortificações. Mas os turcos mudaram de estratégia.
Se as fortificações eram fáceis alvos estáticos, eles passaram a utilizar artilharia móvel, puxada por cavalos. Esses canhões disparavam nos navios e logo se deslocavam, tornando quase impossível aos inimigos acertá-los da água.




[1]    GILBERT, Martin. Churchill : uma vida, volume 1. tradução de Vernáculo Gabinete de tradução. – Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2016.

[2]    Em relação às referências das páginas, que fazemos ao final de alguns parágrafos, por uma questão estética e de não ficar sempre repetindo, criamos um código simples com o símbolo “<”. Sua quantidade antes da referência da página indica a quantos parágrafos anteriores elas se relacionam. Exemplo: A referência a seguir se refere ao parágrafo que ela finaliza e mais os dois anteriores  (<<pg.200-202).
Sob fogo constante o trabalho dos navios caça-minas ficou bastante prejudicado e a situação piorou quando os navios de guerra começaram a bater nas minas não desarmadas e “...um dos pré-couraçados franceses bateu em uma mina e afundou em menos de dois minutos, matando praticamente toda a tripulação.[3].
Com vários outros navios danificados pela artilharia turca, a frota invasora foi obrigada a se retirar.
Em 18/03 nova incursão foi realizada. A frota entrou com 12 navios formados em três linhas de quatro embarcações, mais uma linha com quatro navios de apoio e uma quinta linha, com duas naus de reserva, seguindo os caça-minas.
Mas os turcos haviam implantado, secretamente, uma linha de minas paralela à costa, bem perto do curso dos navios invasores. Desconhecendo o perigo, estes adentraram o estreito e avançaram.
Porém, quando foram manobrar perto da linha minada, o inferno começou. Os navios começaram a bater nas minas e explodir. O primeiro afundou matando toda tripulação. Outros ficaram seriamente danificados e um deles ficou à deriva, tendo que ser abandonado. E os turcos ainda nem tinham usado todo seu potencial defensivo, localizado na parte mais estreita do canal, em Çanakkale.
Logo ficou claro que o estreito não seria tomado apenas pela marinha e que “Para limpar os Dardanelos seria necessário empregar forças terrestres que ocupariam as praias: a Península de Galipoli à esquerda e a costa da Turquia asiática à direita.[4].




[3]   SONDHAUS, Lawrence. A Primeira Guerra Mundial – História Completa. Trad. Roberto Cataldo. Editora Contexto, 2011. pg. 177.

[4]   PIMLOTT, John. A Primeira Guerra Mundial. Bogotá, Colômbia: Editora Norma. pg. 34. Tradução livre.
No dia 22/03 os ingleses tomaram a decisão de realizar o desembarque de uma grande quantidade de tropas terrestres e os locais escolhidos foram as praias do Cabo Helles, de Gaba Tepe e da Baia de Suvla. Mas os turcos previram os locais de desembarque e posicionaram tropas para defender a península a partir de posições mais elevadas em trincheiras e com artilharia.
Em 25/04/1915 os desembarques começaram e, nos próximos nove dias, os invasores sofreram uma média de mil mortes por dia. Em agosto, quando a retirada começou, as mortes já atingiam a marca de quarenta mil.
Foi um massacre, pois os turcos “...lhes fizeram frente com um mortífero fogo de artilharia e metralhadoras a partir de posições ocultas em terreno alto.[5].
A Batalha de Galipoli terminou oficialmente em 09/01/1916 e, dos cerca de 480 mil homens que participaram dos combates em mar e terra, nada menos que 220 mil foram feridos ou mortos.
Churchill não foi o responsável direto pelo planejamento e nem pela operação de Galipoli, mas levou a culpa que se espalhou a despeito da documentação com provas em contrário das acusações que recebia. (pg. 335-336)
Quando falou na Câmara dos Comuns sobre a operação, o Primeiro Ministro Asquith, apesar de munido destes documentos, não “defendeu Churchill da principal acusação que faziam a ele, de passar por cima de seus conselheiros navais.” e quando um novo Gabinete foi formado, Winston não foi incluído. Pediu para ser nomeado para outro posto mas não obteve sucesso. Também não foi demitido até que pediu demissão em caráter irrevogável. (pg. 355-356)
Não sabemos se serviu de consolo, mas Bonar Law,[6] que não era aliado comum de Churchill, declarou:
Ele tem os defeitos de suas qualidades, e, como suas qualidades são grandes, a sombra que lançam é também grande, mas afirmo deliberadamente, na minha opinião, que em poder intelectual e em força vital ele é um dos homens mais notáveis de nossa nação. (<pg. 357)
Vendo que sua atuação política como simples parlamentar durante a guerra seria inútil, e reconhecendo que precisaria se afastar para recuperar sua influência, Churchill foi juntar-se ao Regimento dos Hussardos nos campos de batalha, de onde escreveu:
Não parti porque desejava desligar-me da situação ou porque temia o peso desse golpe, mas porque estava e estou certo de que minha utilidade está exaurida por enquanto e de que apenas posso recuperá-la por meio de um definitivo e talvez prolongado afastamento. Se eu tivesse previsto a mais breve possibilidade de ser capaz de influenciar os acontecimentos, eu teria ficado. (pg. 358)
CONTINUA




[5]  PIMLOTT, John. A Primeira Guerra Mundial. Bogotá, Colômbia: Editora Norma. pg. 34. Tradução livre.. pg. 35.

[6]   Andrew Bonar Law (Kingston, 16 de setembro de 1858 — 30 de outubro de 1923) foi um político britânico, foi primeiro-ministro do Reino Unido pelo Partido Conservador. Foi, até hoje, o único primeiro-ministro britânico nascido fora da Grã-Bretanha. […] Abalado pela morte da esposa, não se deixa abater em sua vida pública e torna-se, em 1911, líder dos Conservadores, com a renúncia de Arthur Balfour. Durante a Primeira Guerra Mundial, causou grande embaraço a Bonar Law o fato de sua empresa ter vendido ferro para a Alemanha até 1914, para seu programa de armamamento.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Andrew_Bonar_Law

terça-feira, 23 de julho de 2019

CHURCHILL - Parte 10



 CHURCHILL – Parte X [1] [2]
A questão do armamentismo alemão prosseguia e Churchill foi impedido de viajar à Alemanha, onde pretendia encontrar-se com o Almirante Tirpitz e o próprio Kaiser para costurar um acordo que reduzisse a corrida armamentista. (pg. 284)
Impedido de costurar a paz, Churchill prosseguiu preparando-se para guerra. Negociou a compra de “51% de participação nos lucros de todo o petróleo produzido pela Anglo-Persian Oil Company, assim como o direito a ser o primeiro utilizador de todo o petróleo produzido...” o que supria todas as necessidades de combustível da Marinha, bem como cobria os custos da construção naval. (pg. 286)
Tal medida mostrava, mais uma vez, a capacidade quase profética de Churchill, pois 11 dias após a aquisição do petróleo persa, o Arquiduque Franz Ferdinand [3] foi assassinado em Sarajevo juntamente com sua esposa, Sofia, Duquesa de Hohenberg.




[1]    GILBERT, Martin. Churchill : uma vida, volume 1. tradução de Vernáculo Gabinete de tradução. – Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2016.

[2]    Em relação às referências das páginas, que fazemos ao final de alguns parágrafos, por uma questão estética e de não ficar sempre repetindo, criamos um código simples com o símbolo “<”. Sua quantidade antes da referência da página indica a quantos parágrafos anteriores elas se relacionam. Exemplo: A referência a seguir se refere ao parágrafo que ela finaliza e mais os dois anteriores  (<<pg.200-202).

[3]    Franz Ferdinand Karl Ludwig Joseph Maria von Österreich-Este; (Graz, 18/12/1863 - Sarajevo, 28/06/1914) foi um arquiduque da Áustria, chefe do ramo cadete de Áustria-Este e herdeiro presuntivo do trono do Império Austro-Húngaro. Filho mais velho do arquiduque Carlos Luís (irmão dos imperadores Francisco José I da Áustria e Maximiliano do México) e da princesa Maria Anunciata das Duas Sicílias, ele herdou de seu primo, o duque Francisco V de Módena, a chefia da Casa de Áustria-Este, tornando-se pretendente ao trono do extinto ducado quando tinha apenas 12 anos de idade. Em 1889, com a morte do arquiduque Rodolfo, único filho varão de Francisco José I, no chamado Incidente de Mayerling, seu pai tornou-se o primeiro na linha de sucessão ao trono austro-húngaro, mas renunciou aos seus direitos em seu favor. Sua morte num atentado em Sarajevo, em 28 de junho de 1914, foi um dos estopins da Primeira Guerra Mundial.
      https://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Fernando_da_%C3%81ustria-Hungria
Arquiduque Franz Ferdinand - Duquesa de Hohenberg Sofia
Mas nas primeiras semanas após o fato ninguém acreditava (nem Churchill) que pudesse haver uma guerra e a pauta da reunião do governo liberal era a Irlanda e suas questões de autonomia. (pg. 287-289)
No entanto, quando a Áustria apresentou um ultimato à Sérvia, do qual Churchill tomou conhecimento em uma reunião do Gabinete, sua impressão foi que “parecia absolutamente impossível que qualquer Estado pudesse aceitar aquele ultimato ou que essa aceitação, por mais abjeta que fosse, satisfizesse o agressor.
E, de fato, era um documento elaborado para não ser aceito mesmo pois, apesar de a Sérvia ter concordado em atender quase todas as exigências austríacas, sua resposta foi rejeitada. (<pg. 289)


Diante da possibilidade, agora quase inevitável de uma guerra, só restou a Churchill trabalhar pela proteção de sua ilha. As frotas navais foram impedidas de dispersão ou receberam ordens para retornar e permanecerem estacionadas nos portos, os depósitos de munição e combustível foram guarnecidos, a frota do Mediterrâneo foi deslocada para Malta, os aviões foram concentrados no estuário do Rio Tâmisa, para defesa aérea. 
Somente a Primeira Esquadra entrou em movimento, tendo sido enviada ao Mar do Norte. E ainda “as embarcações civis foram retiradas dos portos militares e foram enviados guardas armados para pontes e viadutos e vigias para a costa, com a ordem de informarem da presença de qualquer embarcação hostil.” (<pg. 292-294)
Os políticos britânicos, inclusive o governo, estavam divididos em relação a entrar em uma eventual guerra. Alguns defendiam, como Churchill, que a Inglaterra entrasse em guerra contra a Alemanha se esta declarasse guerra contra a França, outros argumentavam que não havia nenhum tratado assinado neste sentido, mas apenas em relação à Bélgica. E ainda havia aqueles que não queriam entrar em guerra de jeito nenhum, com ou sem tratado. (pg. 295-297)
Mas nos últimos dias de julho a situação degringolou como em um efeito dominó. A Rússia se posicionou ao lado da Sérvia contra a Áustria que, por sua vez, declarou guerra à Sérvia em 28/07 levando a Rússia a mobilizar suas tropas dois dias depois, em 30/07. Imediatamente a Alemanha exigiu que os russos voltassem atrás, ficando no aguardo da resposta do Csar Nicolau II.
Quando a França se mobilizou, a Alemanha fez o mesmo e, em 01/08, sem uma resposta do Csar, declarou guerra contra a Rússia. Em 02/08 os alemães pediram à Bélgica passagem para suas tropas e, quando esta recusou o pedido em 03/08, os alemães passaram assim mesmo.
Em 04/08 a Inglaterra declarou guerra a Alemanha. Em 06/08 foi a vez da Áustria declarar guerra contra a Rússia e, logo, Montenegro, Turquia, Itália e até o Japão estavam no conflito.

Nas primeiras semanas da guerra a “profecia” do avanço alemão de Churchill se cumpriu milimetricamente e, a despeito de alguns sucessos aqui e ali, as tropas britânicas, francesas e belgas recuavam continuamente diante do poderio das tropas do Kaiser. 
Winston atuava freneticamente, tanto na Inglaterra quanto na França para a qual viajou nada menos que quatro vezes, para inspeções e para incentivar o moral das tropas. Também viajou para a Antuérpia (Bélgica) quando esta estava prester a ser abandonada pelos defensores e cair em mãos alemãs e decidiu ficar para incentivar a resistência o máximo possível.
Nesta ocasião sua presença perto da frente de combate foi relatada por um jornalista italiano: “Fumava tranquilamente um longo charuto e via o decorrer da batalha debaixo de uma chuva de projéteis no mínimo assustadora.” (<pg. 302-309)
No regresso da Bélgica em 07/10/1914, Churchill visitou a esposa e conheceu a filha Sarah, nascida naquele mesmo dia. Ele conseguira que Antuérpia resistisse por mais uma semana e isso permitira um seguro reagrupamento das forças britânicas em Flandres. (pg. 312)
Churchill se movimentava com desenvoltura, no entanto algumas de suas ações eram deturpadas e sempre criticadas pela mídia ligada aos conservadores, por vezes transformando vitórias em derrotas ou atribuindo-lhe a culpa de erros dos outros. Faziam isso, muitas vezes, por não ter, e tampouco buscar, as informações corretas sobre os acontecimentos. (pg. 312-314)
Quando dezembro de 1914 chegou Churchill já planejava uma ação contra Galipoli, ao mesmo tempo em que planejava a tomada da Ilha de Bornholm, pertencente a Dinamarca. Uma base em Bornholm permitiria desembarques de tropas britânicas e russas que teriam acesso mais curto ao território alemão, podendo apressar o fim da guerra. (pg. 316)
Contudo, embora outros membros do comando de guerra passassem a apoiar uma ação em Galipoli, inclusive para atender a um pedido de auxílio russo, em janeiro de 1915 Churchill estava mais empenhado nas ações no Mar do Norte. (pg. 319)
Foi neste mês de janeiro que Churchill fez referência, pela primeira vez a um veículo semelhante ao tanque de guerra, que ainda não existia, mas que já povoava a imaginação dos militares britânicos como uma necessidade para romper a imobilidade da guerra de trincheiras. É muito curiosa a forma como Winston se refere àquela ideia:
Seria bastante fácil conseguir, em pouco tempo, tratores a vapor com áreas de proteção blindadas nas quais se poderiam colocar homens e metralhadoras. Usados à noite, não seriam afetados por fogo de artilharia. O sistema de esteira permitiria atravessar as trincheiras e o peso das máquinas destruiria todos os obstáculos de arame farpado. Quarenta ou cinquenta dessas máquinas, preparadas secretamente e colocadas em posição ao cair da noite, poderiam quase certamente avançar para as trincheiras inimigas, esmagando todos os obstáculos e varrendo as trincheiras com suas metralhadoras e com granadas lançadas por cima. Conseguiriam assim muitos points d’appui para que as tropas de apoio da infantaria britânica pudessem avançar e reunir-se a eles. Podem então continuar para atacar a segunda linha de trincheiras.. (<pg. 319-320)
Mas foi somente em janeiro que a denominação tanque surgiu nesta forma e por um motivo prosaico. Ele seria:
um veículo blindado que transportasse armamento e pudesse ultrapassar obstáculos, trincheiras e arame farpado. […] um “navio terrestre” [...]. Para confundir supostos espiões, chamou os veículos de “caixas d’água para a Rússia”, mas, quando foi sugerido que poderiam vir a ser conhecidos como “banheiros para a Rússia”, o nome foi mudado para “tanques de água” e abreviado para “tanques”. (<pg. 325)


CONTINUA

TEXTO: VALE A LEMBRANÇA 3


QUEDA DE JERUSALÉM
No ano 70 d.C., as tropas romanas comandadas pelo General Tito, invadiam Jerusalém, iniciando a destruição da cidade, inclusive do Templo de Salomão, reconstruído décadas antes por Herodes, o Grande.
A tomada da cidade colocava, na prática, ponto final à Grande Revolta Judaica, iniciada quatro anos antes, em 66 d.C., quando os judeus se revoltaram contra a ordem de tomada de parte do tesouro do templo, expedida pelo Procurador da Judeia Géssio Floro, representante de Roma.
Os judeus se recusaram a entregar o tesouro e a retaliação romana consistiu na autorização de saque de parte de Jerusalém e na crucificação de alguns judeus eminentes.
Em resposta à repressão, a revolta estourou. Liderados por Eleazar, os revoltosos tomaram o templo e a Torre Antônia anexa, massacrando as tropas romanas mesmo após terem se rendido.
Outras fortalezas foram tomadas, tropas massacradas ou cercadas em Massada, Chipre, Macero e Ascalão.
O Templo de Herodes e a Fortaleza Antônia anexa, no alto à direita.
A primeira força enviada por Roma contra os rebeldes, liderada pelo recém-nomeado Governador da Síria, Caio Céstio Galo, foi dizimada e os sobreviventes se refugiaram na capital da Judeia, Cesareia.
O Imperador Nero enviou, então, Tito Flávio Sabino Vespasiano (Tito pai) à frente de uma força tarefa e substituiu Galo por Caio Licínio Muciano.
Vespasiano marchou para a judeia mas evitou Jerusalém, deixando que os judeus revoltosos, divididos em facções, e que travavam luta fratricida, se enfraquecessem mutuamente. Enquanto isso ele foi retomando o controle do restante da província.
Quando chegou o momento de atacar Jerusalém, a tarefa coube a outro Tito (o filho de Vespasiano, já que este viajara a Roma onde foi aclamado Imperador após a morte de Nero).
Tito filho cercou Jerusalém, posicionando três legiões no lado oeste e enviando uma legião para o Monte das Oliveiras, cortando as rotas de alimentação e fornecimento de água para a cidade.
Flavio Josefo narra o horror que este cerco trouxe aos moradores da capital:
É então um caso miserável, uma visão que até poria lágrimas em nossos olhos, como os homens agüentaram quanto ao seu alimento ... a fome foi demasiado dura para todas as outras paixões... a tal ponto que os filhos arrancavam os próprios bocados que seus pais estavam comendo de suas próprias bocas, e o que mais dava pena, assim também faziam as mães quanto a seus filhinhos... quando viam alguma casa fechada, isto era para eles sinal de que as pessoas que estavam dentro tinham conseguido alguma comida, e então eles arrombavam as portas e corriam para dentro... os velhos, que seguravam bem sua comida eram espancados, e se as mulheres escondiam o que tinham dentro de suas mãos, seu cabelo era arrancado por fazerem isso... (Guerras dos Judeus, livro 5, capítulo 10, seção 3).
Quando as tropas romanas conseguiram destruir partes da muralha de Jerusalém, a cidade foi invadida, a Fortaleza Antônio retomada, o Templo de Salomão destruído e seus tesouros saqueados, segundo Sulpício Severo por ordem de Tito, o que é negado por Flavio Josefo, alegando que não foi possível conter a fúria dos soldados romanos.
Ainda segundo Josefo, “foram levados cativos durante toda esta guerra foi verificado ser noventa e sete mil...”. Tito recebeu o título de Imperator mas recusou a coroa de oliveira, menosprezando assim o valor de seus adversários.

A Fortaleza de Massada. 

À direita (rocha mais clara)a rampa construída pelos romanos.

A guerra ainda duraria mais três anos, embora boa parte desse tempo fosse gasto apenas no cerco a Massada, fortaleza de difícil acesso construída por Herodes, o Grande, e ocupada por rebeldes sicários e suas famílias, que terminaram por cometer suicídio coletivo quando a queda da fortaleza era iminente.
Fontes:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Primeira_guerra_judaico-romana
https://pt.wikipedia.org/wiki/Destrui%C3%A7%C3%A3o_de_Jerusal%C3%A9m
https://pt.wikipedia.org/wiki/Cerco_de_Massada
http://www.estudosdabiblia.net/2002322.htm
http://www.arqnet.pt/portal/calendario/agosto.html

Imagens:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Francesco_Hayez_017.jpg
https://www.youtube.com/watch?v=u7dPf35D4X0
http://blogs.universal.org/bispomacedo/2016/05/28/a-revolta-judaica/
http://vexilla-regis.blogspot.com.br/2015/11/blood-sacrifice-new-temples-perfect_19.html

TEXTO: VALE A LEMBRANÇA 2



NO CAMINHO DA ABOLIÇÃO
Nesta data, no ano de 1871, era promulgada a Lei do Ventre Livre, que libertava todos os filhos de escravos nascido a partir daquele dia. Catorze anos depois (1885), na mesma data, era aprovada a Lei dos Sexagenários, que libertava todos os escravos que atingissem a idade de 65 anos.
A Lei do Ventre Livre foi fruto de uma antiga pressão diplomática da Inglaterra, que pretendia fazer surgir um mercado consumidor bem maior para seus produtos através da criação de uma grande classe assalariada no Brasil. Claro que isso não era mencionado, preferindo-se o argumento de que a escravidão era uma abominação desumana.
A pressão inglesa veio também pela força das armas pois, com a aprovação do Slave Trade Suppression Act (Ato de Supressão do Comércio de Escravos), mais conhecido como Lei Bill Aberdeen (08/08/1845), a marinha real britânica passou a abordar os navios negreiros.
Essa medida, vista como uma intromissão indevida na soberania nacional, levou à aprovação da Lei Eusébio de Queirós em 04/09/1850, que proibia o tráfico internacional de escravos para o Brasil.
A lei, apesar de conter uma intenção mais de aparência do que de efetividade, logrou reduzir bastante a entrada de escravos vindos da África. Mas isso fez aumentar o comércio interno de escravos, entre as províncias, o que não satisfazia as intenções inglesas.
Por longos anos o país se bateu no dilema entre a questão humana e econômica até que a libertação dos filhos de escravos foi visto como uma forma lenta e segura de caminhar para o fim da escravidão sem grandes prejuízos econômicos para os donos de escravos.
A Lei nº 2040 foi, após meses de discussões e aprovação da Câmara, aprovada no Senado por 65 votos contra 45, a maioria destes últimos dados por representantes dos produtores de café de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
A Lei do Ventre Livre desagradou aos escravagistas, pela perda de patrimônio futuro, e aos abolicionistas mais radicais, pois não resolvia o problema de imediato.
O passo seguinte só foi dado catorze anos depois, quando foi aprovada a lei que libertava os escravos de 60 anos (após mais três anos de trabalho compensatório a seus proprietários) e imediatamente os escravos com 65 anos.
O projeto foi apresentado por Souza Dantas do Partido Liberal em 15/07/1884 e a oposição a ele foi tamanha que gerou uma crise que acabou com a dissolução da Câmara.
Quem recolocou a ideia novamente em pauta foi o novo Presidente do Conselho de Ministros, o Barão de Cotegipe (João Maurício Wanderley). Ele negociou um novo projeto, apresentado pelo Senador José Antônio Saraiva, com as mudanças de idade e indenização. Ambos eram membros do Partido Conservador.
A estratégia de Cotegipe para conseguir os votos conservadores necessários ao novo projeto foi fazer-lhes ver a aprovação sob aquelas bases menos desfavoráveis como uma forma de calar a propaganda abolicionista. A lei foi aprovada e promulgada em 28/09/1885.
Na prática, a nova lei, somada a anterior, colocava um marco temporal para o fim da escravidão no Brasil: quando o último escravo completasse 65 anos, o que se daria, no mais tardar, em 1936, sem contar as eventuais (e muitas) fraudes. Mas, felizmente, os abolicionistas queriam mais. E conseguiram! Menos de três anos depois era aprovada a Lei Áurea.
Para conhecer o texto da Lei do Ventre Livre clique aqui.
Para conhecer o texto da Lei dos Sexagenários clique aqui.

Fontes e Imagens:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_do_Ventre_Livre
https://pt.wikipedia.org/wiki/Bill_Aberdeen
http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2015/08/31/lei-dos-sexagenarios-completa-130-anos
http://www.historia.uff.br/curias/modules/tinyd0/index.php?id=14
http://blackpagesbrazil.com.br/?p=2119
http://www.lookfordiagnosis.com/mesh_info.php?term=Escravos&lang=3





28 DE AGOSTO


DISCURSO DE MARTIN LUTHER KING
No ano de 1963, no dia 28 de agosto, o pastor protestante e líder político Martin Luther King Jr. proferia o célebre discurso “Eu Tenho um Sonho”, das escadarias do Lincoln Memorial, em Washington – EUA.
Nascido em 15/01/1929, em Atlanta – Geórgia, King participou dos movimentos civis em Montgomery - Alabama, incluindo o boicote aos ônibus, após Rosa Parks, mulher negra da cidade, se negar a dar seu lugar a um branco dentro do transporte público. O movimento foi vitorioso e logrou acabar com a discriminação racial nos transportes coletivos dos EUA.

Após esta vitória, King participou da fundação da Conferência da Liderança Cristã do Sul, movimento que praticava a desobediência civil. As ações do grupo, que geralmente atingiam os racistas onde era mais doloroso (o bolso), eram combatidas com violência pelas forças da lei, o que gerou uma onda de indignação nos EUA.
Uma dessas ações foi a Marcha de Washington por Empregos e Liberdade, durante a qual King proferiu seu discurso para cerca de 200 mil pessoas.

Suas palavras, consideradas um dos mais belos discursos da História, ajudaram na aprovação do Ato de Direitos Civis de 1964 e do Ato de Direitos do Voto de 1965, nos quais a discriminação racial legalizada sofreu duríssimos golpes nos EUA.
Vejamos seu discurso abaixo, que podemos assistir no vídeo posterior:
Eu Tenho Um Sonho
“Estou feliz por estar hoje com vocês num evento que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nosso país.
Há cem anos, um grande americano, sob cuja simbólica sombra nos encontramos, assinou a Proclamação da Emancipação. Esse decreto fundamental foi como um grande raio de luz de esperança para milhões de escravos negros que tinham sido marcados a ferro nas chamas de uma vergonhosa injustiça. Veio como uma aurora feliz para pôr fim à longa noite de cativeiro.
Mas, cem anos mais tarde, devemos encarar a trágica realidade de que o negro ainda não é livre. Cem anos mais tarde, a vida do negro está ainda infelizmente dilacerada pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação.
Cem anos mais tarde, o negro ainda vive numa ilha isolada de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o negro ainda definha nas margens da sociedade americana estando exilado em sua própria terra. Por isso, encontramo-nos aqui hoje para dramatizar essa terrível condição.

De certo modo, viemos à capital do nosso país para descontar um cheque. Quando os arquitetos da nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência, eles estavam a assinar uma nota promissória da qual todo americano seria herdeiro. Essa nota foi uma promessa de que todos os homens teriam garantia aos direitos inalienáveis de “vida, liberdade e à procura de felicidade”.
É óbvio que a América de hoje ainda não pagou essa nota promissória no que concerne aos seus cidadãos de cor. Em vez de honrar esse compromisso sagrado, a América entregou ao povo negro um cheque inválido devolvido com a seguinte inscrição: “Saldo insuficiente”.
Porém recusamo-nos a acreditar que o banco da justiça abriu falência. Recusamo-nos a acreditar que não haja dinheiro suficiente nos grandes cofres de oportunidade desse país. Então viemos para descontar esse cheque, um cheque que nos dará à vista as riquezas da liberdade e a segurança da justiça.
Viemos também para este lugar sagrado para lembrar à América da clara urgência do agora. Não é hora de se dar ao luxo de procrastinar ou de tomar o remédio tranquilizante do gradualismo. Agora é tempo de tornar reais as promessas da democracia.
Agora é hora de sair do vale escuro e desolado da segregação para o caminho iluminado da justiça racial. Agora é hora de retirar a nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a sólida rocha da fraternidade. Agora é hora de transformar a justiça em realidade para todos os filhos de Deus.
Seria fatal para a nação não levar a sério a urgência desse momento. Esse verão sufocante da insatisfação legítima do negro não passará até que chegue o revigorante outono da liberdade e igualdade. Mil novecentos e sessenta e três não é um fim, mas um começo. E aqueles que creem que o negro só precisava desabafar e que agora ficará sossegado, acordarão sobressaltados se o país voltar ao ritmo normal.
Não haverá nem descanso nem tranquilidade na América até o negro adquirir seus direitos como cidadão. Os turbilhões da revolta continuarão a sacudir os alicerces do nosso país até que o resplandecente dia da justiça desponte.

Há algo, porém, que devo dizer a meu povo, que se encontra no caloroso limiar que conduz ao palácio da justiça: no processo de ganhar o nosso legítimo lugar não devemos ser culpados de atos errados. Não tentemos satisfazer a sede de liberdade bebendo da taça da amargura e do ódio. Devemos sempre conduzir nossa luta no nível elevado da dignidade e disciplina.
Não devemos deixar que o nosso protesto criativo se degenere na violência física. Repetidas vezes, teremos que nos erguer às alturas majestosas para encontrar a força física com a força da alma.
Esta nova militância maravilhosa que engolfou a comunidade negra não nos deve levar a desconfiar de todas as pessoas brancas, pois muitos dos irmãos brancos, como se vê pela presença deles aqui, hoje, estão conscientes de que seus destinos estão ligados ao nosso destino.
E estão conscientes de que sua liberdade está intrinsicamente ligada à nossa liberdade. Não podemos caminhar sozinhos. À medida que caminhamos, devemos assumir o compromisso de marcharmos em frente. Não podemos retroceder.
Há quem pergunte aos defensores dos direitos civis: “Quando é que ficarão satisfeitos?” Não estaremos satisfeitos enquanto o negro for vítima dos indescritíveis horrores da brutalidade policial. Jamais poderemos estar satisfeitos enquanto os nossos corpos, cansados com as fadigas da viagem, não conseguirem ter acesso aos hotéis de beira de estrada e das cidades.

Não poderemos estar satisfeitos enquanto a mobilidade básica do negro for passar de um gueto pequeno para um maior. Não podemos estar satisfeitos enquanto nossas crianças forem destituídas de sua individualidade e privadas de sua dignidade por placas onde se lê “somente para brancos”.
Não poderemos estar satisfeitos enquanto um negro no Mississippi não puder votar e um negro em Nova Iorque achar que não há nada pelo qual valha a pena votar. Não, não, não estamos satisfeitos e só estaremos satisfeitos quando “a justiça correr como a água e a retidão como uma poderosa corrente”.
Eu sei muito bem que alguns de vocês chegaram aqui após muitas dificuldades e tribulações. Alguns de vocês acabaram de sair de pequenas celas de prisão. Alguns de vocês vieram de áreas onde a sua procura de liberdade lhes deixou marcas provocadas pelas tempestades de perseguição e pelos ventos da brutalidade policial.
Vocês são veteranos do sofrimento criativo. Continuem a trabalhar com a fé de que um sofrimento injusto é redentor. Voltem para o Mississippi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para Luisiana, voltem para as favelas e guetos das nossas modernas cidades, sabendo que, de alguma forma, essa situação pode e será alterada. Não nos embrenhemos no vale do desespero.
Digo-lhes hoje, meus amigos, que, apesar das dificuldades e frustrações do momento, eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.
Eu tenho um sonho que um dia essa nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado da sua crença: “Consideramos essas verdades como auto-evidentes que todos os homens são criados iguais.”
Eu tenho um sonho que um dia, nas montanhas rubras da Geórgia, os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes de donos de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da fraternidade.

Eu tenho um sonho que um dia mesmo o estado do Mississippi, um estado desértico sufocado pelo calor da injustiça, e sufocado pelo calor da opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça.
Eu tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas pelo conteúdo do seu caráter. Eu tenho um sonho hoje.
Eu tenho um sonho que um dia o estado do Alabama, com seus racistas cruéis, cujo governador cospe palavras de “interposição” e “anulação”, um dia bem lá no Alabama meninos negros e meninas negras possam dar-se as mãos com meninos brancos e meninas brancas, como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje.
Eu tenho um sonho que um dia “todos os vales serão elevados, todas as montanhas e encostas serão niveladas; os lugares mais acidentados se tornarão planícies e os lugares tortuosos se tornarão retos e a glória do Senhor será revelada e todos os seres a verão conjuntamente”.
Essa é a nossa esperança. Essa é a fé com a qual eu regresso ao Sul. Com essa fé nós poderemos esculpir na montanha do desespero uma pedra de esperança. Com essa fé poderemos transformar as dissonantes discórdias do nosso país em uma linda sinfonia de fraternidade.
Com essa fé poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, ser presos juntos, defender a liberdade juntos, sabendo que um dia haveremos de ser livres. Esse será o dia, esse será o dia quando todos os filhos de Deus poderão cantar com um novo significado:
Meu país é teu, doce terra da liberdade, de ti eu canto.
Terra onde morreram meus pais, terra do orgulho dos peregrinos, que de cada lado das montanhas ressoe a liberdade!

E se a América quiser ser uma grande nação, isso tem que se tornar realidade.
E que a liberdade ressoe então do topo das montanhas mais prodigiosas de New Hampshire.
Que a liberdade ressoe das poderosas montanhas de Nova Iorque.
Que a liberdade ressoe das elevadas montanhas Allegheny da Pensilvânia.
Que a liberdade ressoe dos cumes cobertos de neve das montanhas Rochosas do Colorado.
Que a liberdade ressoe dos picos curvos da Califórnia.
Mas não só isso; que a liberdade ressoe da montanha Stone da Geórgia.
Que a liberdade ressoe da montanha Lookout do Tennessee.
Que a liberdade ressoe de cada montanha e de cada pequena elevação do Mississippi. Que de cada encosta a liberdade ressoe.
E quando isso acontecer, quando permitirmos que a liberdade ressoe, quando a deixarmos ressoar de cada vila e cada lugar, de cada estado e cada cidade, seremos capazes de fazer chegar mais rápido o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar as palavras da antiga canção espiritual negra:
Finalmente livres! Finalmente livres!
Graças a Deus Todo Poderoso, somos livres, finalmente."

Martin Luther King


Fontes e Imagens:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Eu_Tenho_um_Sonho
https://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Luther_King_Jr.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Rosa_Parks
https://pt.wikipedia.org/wiki/Boicote_aos_%C3%B4nibus_de_Montgomery
http://anoticia.clicrbs.com.br/sc/mundo/noticia/2013/08/confira-a-traducao-na-integra-do-discurso-feito-por-martin-luther-king-ha-50-anos-4248603.html
http://okok1111111111.blogspot.com.br/2013/08/martin-luther-king-jr-i-have-dream.html
http://www.history.com/topics/black-history/martin-luther-king-jr/pictures/martin-luther-king-jr/martin-luther-king-giving-dream-speech
http://genius.com/Martin-luther-king-jr-i-have-a-dream-annotated
http://www.sandiegouniontribune.com/news/2013/aug/28/martin-luther-king-i-have-a-dream/