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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O REINO DE CLIO NO EGITO ANTIGO

GREVES, CORRUPÇÃO E 
DELAÇÕES NÃO PREMIADAS
NO EGITO ANTIGO – Parte II
A economia do Egito, durante o reinado de Ramsés III, estava com sérios problemas. Se, de um lado, o Faraó cobrava mais impostos e contribuições do povo para sustentar os templos, do outro a casta de sacerdotes de Amon, 10% da população ligada a seus templos e 13% das terras a estes pertencentes, eram isentos de qualquer contribuição.
A crise econômica levou ao atraso de cerca de um mês na entrega dos cereais e do óleo com que os operários construtores e decoradores de túmulos eram pagos. Quando a situação se tornou insustentável não houve outra saída a não ser a manifestação.
Os operários acamparam atrás do Templo de Tutmósis III até que foram recebidos pelas autoridades. Mas ficaram só na promessa, de modo que, dias depois, os trabalhadores invadiram o Ramesseum, templo funerário (cenotáfio – um tipo de memorial que não contém a múmia) de Ramsés II – O Grande.

Uma vez dentro do templo, os trabalhadores unidos apresentaram suas reivindicações: "Viemos até aqui, chegamos a este ponto, porque temos fome, sede, estamos sem roupas, pomadas, peixe, óleo e verduras. Contai isto ao Faraó, o nosso bom deus, e ao vizir. Fazei com que possamos viver." (1)
A greve foi um sucesso temporário, pois os salários foram pagos, mas, no mês seguinte novo atraso e nova paralisação, desta vez encerrada somente após o fechamento de um acordo que garantiu o pagamento antecipado dos salários.
É interessante notar que, durante as negociações, denúncias foram feitas contra auditores que deveriam prestar contas das obras ao vizir, mas estavam enganando a este e, indiretamente, ao próprio Faraó.
Essa corrupção nos faz voltar à questão do roubo de túmulos, para analisar um caso em que as duas atividades criminosas caminharam juntas, durante o reinado de Ramsés IX.

Continua...
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GREVES, CORRUPÇÃO E
DELAÇÕES NÃO PREMIADAS
NO EGITO ANTIGO – Parte I
Todos sabem do costume dos egípcios antigos ricos de serem enterrados com seus pertences pessoais e tudo mais que fossem precisar na vida após a morte.
A tumba de Tutankamon, descoberta intacta em 1922 por Howard Carter, revelou tesouros impressionantes.
Considerando que Tutankamon reinou por pouco tempo e foi Faraó de pouca expressão em um período conturbado, pode-se imaginar que tesouros havia, por exemplo, na tumba de faraós de expressão como Seti e Ramsés, O Grande.
Tais tesouros, incalculáveis e perdidos, não poderiam mesmo deixar de despertar a cobiça de ladrões de tumbas que, a despeito da superstição, da guarda e das armadilhas montadas nos túmulos, arriscavam as próprias vidas para colocar as mãos nestas riquezas.
A vida de ladrão de túmulos no Egito Antigo era muito difícil, considerando que o Faraó, através dos administradores regionais, mantinha uma guarda para tomar conta dos cemitérios.
Apenas nos momentos em que tal vigilância relaxava, o "trabalho" dos ladrões de túmulos ficava mais fácil e esses momentos estariam associados, geralmente, aos períodos de turbulência política causados por invasões estrangeiras, quedas abruptas de dinastias ou qualquer outro motivo que abalasse a estabilidade social, a Ma'at.
Em sua obra "Tesouros do Egito do Museu Egípcio do Cairo", Francesco Tiradritti informa que "É provável que a primeira série de roubos ao cemitério real tenha acontecido durante o período de distúrbios que seguiu a heresia de Amarna..." (pg.284)
Períodos conturbados também causavam declínio na economia e traziam dificuldades aos trabalhadores que construíam as obras do Faraó. Foi no Egito que se registrou a primeira greve de trabalhadores da História.
Nesta última minissérie de textos, componente de nossa Grande Série “O Reino de Clio no Egito Antigo”, vamos abordar o roubo de túmulos e a greve que paralisou obras importantes na terra dos Faraós.
Continua...
Fontes e Imagens:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Papiro_de_Abbott
https://en.wikipedia.org/wiki/Amherst_Papyrus
http://escriba-elise.blogspot.com.br/2011/12/greve-no-egito-dos-faraos-acredite-ja.html
http://www.dulcerodrigues.info/historia/pt/historia_first_strike_pt.html
http://www.fascinioegito.sh06.com/roubos.htm
http://www.alamy.com/stock-photo/egypt-tomb-robbers.html
https://www.emaze.com/@AZRCZICF/Why-Was-Tomb-Robbery
http://www.cs.dartmouth.edu/farid/egypt.html
http://www.ancient-origins.net/news-history-archaeology/analysis-skeletons-reveals-harsh-punishment-ancient-egypt-004178
http://topyaps.com/odd-ancient-egypt
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Papyrus_Amherst_3a.png


AS CONFISSÕES NEGATIVAS E OS DEZ MANDAMENTOS
As 42 confissões negativas do Livro dos Mortos, apesar das variações, talvez fruto das traduções, constituem o código de conduta, os princípios éticos e morais sob os quais se sustentava a sociedade egípcia.
É uma impressionante coleção de comportamentos corretos que a pessoa deveria observar em vida, considerando futura cobrança pelos deuses após a morte.
O fato de que o Livro dos Mortos ensina como passar pelos desafios, oferecendo fórmulas e indicando amuletos, revelando que os egípcios não eram exatamente fiéis em vida, isso não exclui a conclusão de que aquele povo tinha princípios éticos e morais que considerava relevantes para atingir o Paraíso.
É justamente neste ponto que o Livro dos Mortos se encontra com os Dez Mandamentos de tal forma que alguns estudiosos chegam a sugerir que Moisés teria se inspirado nele para compor seu código de conduta. Retiram de Deus a autoria, o que consideramos um erro e aqui está escrevendo um autor cristão que não vai se separar de sua convicção.
Nós, enquanto cristão, consideramos que, como as Leis de Deus são perfeitas, e portanto imutáveis, qualquer código de boas práticas encontrará respaldo nestas Leis e terá muitas semelhanças com outros códigos semelhantes, guardando apenas pequenas diferenças de núcleo cultural e temporal.
Dito isto, vejamos as semelhanças entre os dois códigos. Listaremos as Confissões Negativas do Papiro de Ani a partir da tradução de nosso controverso Wallis Budge[1], auxiliados pelo blog Guarda-Livro[2] quando necessário.
Primeiro vamos separar os Mandamentos que possuem equivalentes egípcios e, depois, veremos o que sobra, se haveria, de fato, muita diferença. Acima, sem numeração e em negrito, vai o Mandamento e, abaixo, numeradas, as confissões, na ordem do Papiro de Ani:
Não usar o nome de Deus em vão;
27 Eu não blasfemei.
37 Eu não amaldiçoei Deus.
Não roubar;
Não cobiçar o que é do outro.
02 Eu não cometi roubo com violência.
03 Eu não roubei.
05 Eu não roubei grãos.
06 Eu não furtei oferendas.
07 Eu não roubei a propriedade de deus.
16 Eu não roubei terra cultivada.
39 Eu não tenho roubado o pão dos deuses.
40 Não desviei bolos khenfu dos espíritos dos mortos.
41 Eu não arranquei o pão de crianças nem tratei com desprezo o deus da minha cidade.
42 Eu não matei o gado que pertence ao deus.
Não matarás;
04 Eu não matei homens e   mulheres.
14 Eu não ataquei qualquer homem.
28 Eu não sou violento.
Não levantar falso testemunho;
08 Eu não proferi mentiras.
15 Eu não sou homem falso.
18 Eu não caluniei.
20 Eu não desmoralizei verbalmente a mulher de homem algum.
Não cometer adultério;
Não desejar a mulher do próximo.
11 Eu não cometi adultério, não deitei com homens.

Nossa comparação pode ser contestada por uma observação mais rigorosa, no entanto, estamos buscando apenas a essência, o conceito que aproxima as duas filosofias.
Assim, para nós, a blasfêmia e a maldição proferidas contra a divindade podem ser encaixadas como transgressão ao “Não usar o nome de Deus em vão”, assim como a violência pode estar junto ao “Não Matarás”, considerando que o assassínio dificilmente prescindirá de alguma forma de violência.
Da mesma forma, embora a mulher do próximo não seja necessariamente sua esposa, não haverá adultério se não houver, antes, o desejar da esposa alheia.
Quanto ao “Não Roubarás”, todas as confissões negam algum tipo de subtração de propriedade de outrem, sejam eles deuses, espíritos ou homens e não há, a nosso ver, a possibilidade de que alguém vá roubar algo que, de alguma forma não tenha cobiçado antes.
Na mesma linha, mentir, ser falso, caluniar e desmoralizar, certamente se encaixam na categoria de falso testemunho.
Vemos, portanto, que sete (70%) dos Dez Mandamentos possuem alguma relação com as Confissões Negativas do Papiro de Ani. São nada menos que 20 confissões (quase 50%) relacionadas de alguma forma a um equivalente hebreu.
Indo além, considerando que a semelhança é irrefutável, também fica claro que o código de conduta egípcio é bem mais detalhado e específico, embora a simplicidade Divina dos Dez Mandamentos tenha o dom de torná-los muito mais abrangentes.
Os Mandamentos restantes (Amar a Deus sobre todas as coisas / Santificar o dia de descanso / Honrar pai e mãe) também não ficam descartados quando sabemos do cuidado egípcio com a religiosidade e com seus antepassados. É provável que isso fosse tão óbvio que nem precisaria ser incluído nas confissões.
Vejamos, agora, as confissões restantes:
01 Eu não cometi pecado.
09 Eu não joguei comida fora
10 Eu não proferi maldições
12 Eu não fiz ninguém lamentar
13 Eu não comi o coração.
17 Eu não fui um intrometido.
19 Eu não senti raiva sem justa causa.
22 Eu não me profanei
23 Eu não aterrorizei ninguém
24 Eu não transgredi a lei
25 Eu não fui irado
26 Não fechei os ouvidos às palavras verdadeiras.
29 Eu não fui um agitador de conflitos.
30 Eu não agi com pressa imprópria.
31 Eu não pressionei em debates.
32 Eu não falei demais
33 Não prejudiquei ninguém, não fiz nenhum mal
34 Não fiz feitiços nem blasfêmias contra o Faraó
35 Eu não interrompi o fluxo de água
36 Eu nunca elevei minha voz.
38 Eu não agi com arrogância.

Vemos que as confissões restantes apenas aprofundam e especificam mais as anteriores, como se fossem, a nosso ver, gradações mais leves, mas que podem levar aos degraus maiores, que relacionamos aos Dez Mandamentos.
Também vemos que demonstram o comportamento egípcio em comunidade, nos permitindo perceber que aquela sociedade considerava incorreta a alteração de comportamento, a perda do equilíbrio interior e abominavam o desperdício.
Por fim, o status quo também ficava garantido pois, atentar contra o Faraó, ainda que apenas em palavras, era um pecado!




[1]     O PAPIRO DE ANI - O LIVRO EGÍPCIO DOS MORTOS - Traduzido por E.A. Wallis Budge. Disp.:http://www.historia.seed.pr.gov.br/arquivos/File/fontes20historicas/livro_egipcio_dos_mortos.pdf

[2] http://guarda-livro.blogspot.com.br/2014/06/42-confissoes-negativas-para-maat.html

Um comentário:

  1. Carla Oliveira Santos arrebenta! Adoro seus textos sobre panteão egípcio. Queria saber mais como um deus-tutelar de uma cidade (Iunu/Heliópolis) que não foi preeminente militarmente como Hieracompolis/Neken ou Tebas/Waset, passou seu deus para a cabeça do Panteão de todo Egito de III e especialmente IV dinastia até fim da civilização egípcia (sec VI dC). klausprovenzano@hotmail.com

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