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quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O LIVRO DOS MORTOS EGÍPCIO

O GUIA PARA O PARAÍSO
Os egípcios não separavam a religião da vida cotidiana e já vimos que possuíam divindades relacionadas às mais diversas atividades que impregnavam praticamente todos os aspectos do dia a dia das pessoas, desde o Faraó até os camponeses.

Dentre todos os aspectos dessa vida impregnada de religiosidade, o que mais parecia preocupar os egípcios era a morte. Ou, melhor dizendo, garantir que houvesse uma vida após a morte por meio da aprovação no Tribunal de Osiris.

O Tribunal de Osiris - a Pesagem do Coração e a apresentação da alma a Osíris conduzida pelos deuses.
Eles escreviam as fórmulas relacionadas ao julgamento dos mortos nas pirâmides e nos sarcófagos há muito tempo. Durante o Império Novo, porém, elas passaram a ser escritas em rolos de papiro que eram colocados em vasos que ficavam próximos ao sarcófago, dentro da câmara, ou, em contado direto com o corpo, junto às pernas da múmia, sendo enfaixados junto com esta. Nascia, assim, o Livro dos Mortos baseado, acredita-se, nos Textos das Pirâmides1 e nos Textos dos Sarcófagos2
Segundo Stuart Tyson Smith,  Phd, Professor da Univeristy of California Santa Barbara, falando no documentário "O Livro dos Mortos" (do History Channel, produzido por Tim Evans e dirigido por Petra Hafner), a obra "era um guia dos que morriam e tinha instruções que ajudavam o morto em sua jornada, além do processo de tornar-se imortal".

Para Zahi Hawass, à época Chefe do Conselho Supremo de Antiguidades a obra “...fala o que eles encontrarão no Além.
Exemplar do texto das pirâmides.


Exemplar do texto dos sarcófagos.
Inicialmente destinado apenas às famílias reais, nos reinados de Hatshepsut e Thutmés III tornou-se comum que pessoas não pertencentes às dinastias governantes pudessem ter suas próprias cópias do livro. Em dado momento até mesmo os artesãos as conseguiram.

Como eram todos desenhados, escritos e pintados à mão, não é de admirar que custassem muito caro estando, portanto, apenas ao alcance de uma alta elite, a possibilidade de aquisição de um exemplar personalizado. Embora os preços pudessem variar, dificilmente estariam ao alcance do camponês comum.

Já foram descobertos mais de 25 mil exemplares do Livro dos Mortos, sendo que os mais antigas são datadas de 1500 a.C. aproximadamente.
No início, as obras completas englobavam cerca de 200 estrofes em forma de encantos ou hinos, embora a maioria dos exemplares variasse entre 40 e 50, pois o conteúdo de cada rolo de papiro era feito de acordo com as escolhas (ou posses) do interessado ou de sua família. As quantidades da obra completa variaram, contudo, ao longo do tempo, inclusive a depender da região de seu uso:
Durante o Período Saíta (c. 664 a. C.) atinge a versão canônica sendo estruturada em 165 fórmulas ou capítulos dispostos em uma ordem regular, conhecida como Recenção Saíta, que permaneceu em uso até o Período Ptolomaico quando atinge a sua forma completa com 192 capítulos.
Esta padronização das fórmulas e vinhetas (conteúdo e seqüencia) não significou uma estagnação, surge o estilo mênfita e o tebano evidenciando uma ruptura entre o Alto e Baixo Egito, onde circulavam versões diferentes para o mesmo capítulo e vinheta.3
Considerado uma obra do deus Toth, o Livro dos Mortos era um conjunto de fórmulas que a alma do morto deveria utilizar para garantir sua absolvição e a entrada no Paraíso. O fracasso significava ter a alma devorada por Ammut (um monstro com corpo misto de leão/hipopótamo e cabeça de crocodilo), e jamais poder voltar à vida.
Diante de tamanho desafio, era de esperar que os preocupados egípcios procurassem se preparar da melhor forma possível e munir-se de todas as ferramentas disponíveis para enfrentar o momento decisivo de sua existência!
Imagem:
http://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Judgement_of_Osiris?uselang=pt-br
1Os Textos da Pirâmide de Unas, descobertos em 1881 por Gaston Maspero, são os escritos religiosos mais antigos descobertos até hoje. Por apresentarem uma síntese das crenças religiosas do Antigo Egito, eles datam de 4.500 anos ou mais, considerando que estas crenças devem ter nascido muito antes de serem transcritas na pedra.
Embora a Pirâmide de Unas seja a menor das pirâmides reais construídas no Antigo Império, ela foi a primeira a trazer em suas paredes internas este conjunto de encantamentos (fórmulas), que ajudariam a alma do faraó em sua jornada para o próximo mundo.
Os textos estão gravados nas colunas, sobre as paredes do corredor, da ante-câmara e da passagem que leva à câmara funerária da pirâmide. As paredes que cercam o sarcófago não têm texto e o teto é coberto por estrelas.
Os Textos da Pirâmide de Unas estão dispostos na tumba do Oeste para o Leste, simbolizando a crença que o reino dos mortos ficava no Ocidente - a maioria das necropoles estão dispostas na margem oeste do Nilo - e o Sol, associado à Ressureição por reaparecer vivificado após o seu trajeto noturno, ressurge sempre no Oriente.
Estes textos foram retomados pelos soberanos seguintes e, posteriormente, pelas rainhas no fim do Antigo Império. Algumas fórmulas foram utilizadas também nos Textos dos Sarcófagos.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Textos_das_Pir%C3%A2mides

2Textos dos Sarcófagos é a designação moderna atribuída a textos de carácter funerário produzidos na civilização do Antigo Egipto a  partir do Primeiro Período Intermediário, mas sobretudo durante o Império Médio.
Em resultado da desagregação do poder político no final do Império Antigo e das alterações culturais produzidas, a hipótese de gozar uma vida no Além deixou de estar reservada à realeza, alargando-se aos funcionários e, progressivamente, a toda a população egípcia. Os Textos dos Sarcófagos, dos quais se conhecem mais de mil fórmulas, visavam proteger o defunto no Além e prover as suas necessidades. Foram inscritos na sua maioria em escrita hieroglífica cursiva no interior das paredes internas de sarcófagos de madeira rectangulares (o que explica a designação de "Textos dos Sarcófagos"), embora também se conheçam inscrições realizadas em vasos canópicos, estelas, paredes dos túmulos e papiros.
Os textos retomam e adaptam as fórmulas dos Textos das Pirâmides, textos gravados no interior das pirâmides de reis da V, VI, VII e VIII dinastias. Contudo, verificam-se algumas novidades como a possibilidade do defunto assumir várias formas, bem como de regressar à terra para visitar os seus entes queridos. Enquanto que os Textos das Pirâmides apresentam a possibilidade do defunto se juntar ao deus solar Ré, os Textos dos Sarcófagos favorecem a união com Osíris. Saliente-se ainda que o acesso a uma vida no Além está sujeito a ter levado uma vida marcada pela prática de um comportamento justo.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Textos_dos_Sarc%C3%B3fagos

3http://aumagic.blogspot.com.br/2012/03/o-livro-dos-mortos-do-egito-antigo.html


PREPARANDO A VIAGEM AO PARAÍSO – A MUMIFICAÇÃO
O Faraó e os ricos egípcios passavam a vida preparando-se para o pós vida. Os túmulos eram construídos e decorados segundo os desejos do futuro morto. Os pobres não tinham essa opção, de modo que eram enterrados, geralmente, perto dos ricos, na esperança de que fossem beneficiados de alguma forma, pela alma endinheirada.
Para os egípcios, o espírito precisava manter seu corpo terreno intacto para prosseguir na vida após a morte. O ser humano seria composto de quatro partes:
...o ba, uma espécie de alma; o ka, ou "duplo", réplica imaterial do corpo; o khu, centelha do fogo divino; e o kat, ou seja, o corpo. Acreditando numa vida após a morte, entendiam que esses quatro elementos precisavam ser preservados depois do falecimento do indivíduo. O ba e o khu, sendo elementos espirituais, precisavam apenas de orações. O corpo, por ser a moradia do ka, tinha que ser preservado e protegido. Em conseqüência, o túmulo, casa do morto, devia ser mantido intacto para todo o sempre e permitir-lhe uma vida agradável e semelhante à existência terrena.1

O pior crime que poderia ser cometido a um egípcio seria a danificação ou destruição de sua múmia, pois significava que seu espírito ficaria sem sua casa material. Essa profanação ocorreu em diversos casos, inclusive com a múmia que a Drª. Joann Fletcher suspeitava ser de Nefertiti.

À esquerda a múmia danificada da suposta Nefertiti. No centro Seti I e, à direita, Ramsés II
A importância dada à vida após a morte era proporcional aos cuidados dispensados à mumificação dos mortos. Os maiores museus do mundo possuem múmias em exibição. Ramsés II, o Grande, pode ser “encontrado em pessoa” no Museu do Cairo e seu pai, Seti I, tem uma das múmias mais bem preservadas de todas.
O processo de mumificação pode ter se iniciado por acaso nos tempos mais remotos da História egípcia. Os corpos sepultados na areia do deserto ficavam ressecados antes de se decompor e a mumificação cerimoniosa pode ter sido apenas uma forma de imitar e garantir tal resultado.

O falecido era assistido por um sacerdote especialista. Este removia o cérebro do morto pelas narinas, fazendo uso de um gancho. Os demais órgãos eram extraídos por um corte na virilha e guardados em vasos chamados canópicos. O coração era mantido intacto em seu lugar e, se retirado, era substituído por um amuleto em forma de escaravelho.

Vasos Canópicos
Feita essa extração, o corpo era coberto com natrão2 e deixado para secar entre 40 e 70 dias, quando a substância salina ressecava o corpo e eliminava as bactérias, impedindo a decomposição. Terminada a secagem e desinfecção:

as cavidades eram cheias com linho e substâncias aromáticas, e enrolava-se o corpo com ligaduras. Os olhos eram cheios com linho ou pedras pintadas de branco. Faraós e pessoas ricas eram estofados com tecidos virgens. Já os pobres eram forrados com as roupas que haviam usado em vida, terra ou serragem. Depois disso, a incisão era fechada com uma placa de ouro, para evitar a invasão do corpo por maus espíritos. Durante cada uma dessas etapas da mumificação, eram lidas preces do Livro dos Mortos, que ensinava como o ritual deveria ser feito.3

Instrumentos para retirada do cérebro: vaso de óleo, ganchos, faca do embalsamador e funil para o nariz.
Materiais usados para mumificação: (1) linho. (2) serragem; (3) líquen. (4) cera de abelha. (5) resina. (6) natrão. (7) cebolas. (8) lama do Nilo. (9) almofadas de linho. (10) incenso.
O processo de enfaixar o falecido começava pelos pés ou mãos e durante a operação eram colocados amuletos junto ao corpo e entre as faixas, contendo fórmulas para ajudar a caminhada.

O sepultamento era feito em procissão liderada pelo sacerdote até a tumba. O corpo, já no sarcófago, era acompanhado pelos vasos canópicos e por diversos pertences, dentre eles, a valiosa cópia do Livro dos Mortos.

Quanto mais rico o falecido, mais sofisticado seu túmulo. O Faraó Tutancâmon, por exemplo, teve quatro capelas funerárias, encaixadas umas nas outras, dentro delas um sarcófago e, dentro deste, três caixões, um dentro do outro.

Na imagem superior esquerda os objetos encontrados na tumba de Tutancamon. À direita a capela funerária. Na imagem inferior esquerda os sarcófagos e, à direita, o esquema de encaixamento.
Em sua companhia, mais de 5000 objetos destinados a oferecer-lhe todo o conforto na vida após a morte. Considerando-se a inexpressividade e o curto período de seu reinado, não podemos nem imaginar que riquezas não compuseram as tumbas de Faraós mais famosos, como Ramsés II, por exemplo.


NO TRIBUNAL DE OSÍRIS
O Livro dos Mortos possui esse nome por conta dos historiadores. Os egípcios, porém, o chamavam de “Capítulos do Sair à Luz ou Fórmulas para Voltar à Luz (Reu nu pert em hru)1, e isso significava vencer os desafios e armadilhas que estavam colocadas em seu caminho na vida após a morte.

Testemunha da História do Egito, o livro apresentou variações ao longo dos séculos. Capítulos entraram ou saíram de sua composição de acordo com as variações culturais das épocas e a qualidade de sua feitura revela os tempos de crise ou bonança da terra dos Faraós.

Os períodos do auge das dinastias nos legaram as cópias feitas com maior esmero e beleza, enquanto os períodos de transição ou agitação social mostram-se em cópias mal feitas ou de qualidade inferior.

A caminhada, porém, era uma só e o julgamento no Tribunal de Osíris era o ponto culminante dela. Ao chegar para seu julgamento, a alma do morto é conduzida ao salão pela deusa Maat, da Justiça. 
A Balança de Anúbis. À esquerda o coração e, á direita, a pena da Verdade.
Nele já estão presentes os deuses Hórus e Osíris, este último em seu trono, portando os símbolos de seu poder, o cetro e o leque. Ele está em companhia de Ísis e Néftis, suas irmãs, posicionadas atrás do trono.

O deus Toth (direita), perante Osíris em seu trono (roupa vermelha) com uma de suas irmãs atrás (esquerda).
O júri, se é que podemos chamar assim, pois nos parece que sua deliberação é apenas confirmar o resultado já dado pela balança de Anúbis, é composto por 42 juízes, um para cada província do Egito, e também está presente.
Os Juízes, representando as províncias do Egito.
No meio do salão está a balança onde o coração da alma será pesado em comparação à pena da verdade, uma pena de avestruz. O resultado esperado deve ser um empate. O deus Anúbis (cabeça de chacal) faz a pesagem que é anotada por Toth (cabeça de ibis) em um papiro.

A pesagem também é assistida pelo esfomeado Ammut, um monstro com cabeça de crocodilo e um corpo que é parte leão, ou outros felinos, e hipopótamo. Suas refeições são garantidas por aqueles cuja balança de Anúbis revelam um coração mais pesado que a pena da verdade.

Anúbis conduz a alma e pesa seu coração. No centro o monstro Ammut espera uma refeição. À esquerda Toth anota o resultado.

Antes da pesagem, porém, a alma deve, perante os juízes, declarar que não cometeu um certo número de pecados. Essa declaração negativa traz grande semelhança com os Dez Mandamentos da Bíblia, e será tema de texto posterior.

Feita a declaração, o coração da alma é, então, pesado e, em caso de aprovação, Hórus conduzirá a alma até diante de Osíris, que vai lhe indicar seu destino no Além. O ideal de Paraíso egípcio é representado por um campo de juncos, o que significa um oásis.  
Hórus apresenta a alma aprovada a Osíris. Atrás dele as irmãs Ísis e Néftis.
Não se tem notícia de algum momento anterior na História escrita em que alguma outra civilização tenha demonstrado a preocupação com o julgamento das almas de seus mortos a partir de um código escrito de conduta ética. O Livro dos Mortos é o indício histórico que coloca os egípcios à frente na corrida rumo ao Campo dos Juncos!







O escriba Nebqed, na companhia de sua esposa Meryt, e sua mãe Amenemheb, apresentam-se, aprovados, a Osíris. No centro a mesa de oferendas.
Imagens:
http://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Judgement_of_Osiris?uselang=pt-br
http://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Book_of_the_Dead?uselang=pt-br#mediaviewer/File:Egypt_bookofthedead.jpg

1http://www.tolledo.net/artigoV2/114/O_Livro_dos_Mortos_do_Antigo_Egito.html


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O PAPIRO DE ANI
Ernest Alfred Thompson Wallis Budge, inglês, nascido na Cornualha em 27/07/1857 e falecido em 23/11/1934, foi, na visão de alguns, um dos maiores responsáveis pelo fascínio que a História do Egito desperta ao longo dos tempos. Na visão de outros foi um dos maiores ladrões de artefatos egípcios dos mesmos tempos!

Diretor de antiguidades egípcias e asiáticas do Museu Britânico, escritor de mais de 100 livros, alguns com erros depois descobertos, parece-nos que ele não media esforços e meios, escusos ou não, para obter todos os artefatos antigos valiosos nos quais pudesse colocar as mãos, segundo se pode perceber das informações trazidas no documentário O Livro dos Mortos, do History Channel, produzido por Tim Evans e dirigido por Petra Hafner.
"Arqueólogos" do Século XIX estudando uma múmia.
No mesmo documentário, Stuart Tyson Smith, Phd, Professor da Univeristy of California Santa Barbara diz que “Ele praticamente pilhava e saqueava, comprando o que via...”. Já James Wasserman, escritor e ocultista, contemporiza dizendo que “As pessoas fazem julgamentos totalmente extemporâneos. Comprar objetos culturais naquele tempo era normal.

Esta é a mesma linha de pensamento de Carol A. R. Andrews, autora de vários livros sobre o Egito. No documentário ela declarou que “Não devemos olhá-lo como mero ladrão de culturas. Não se pensava assim...”, o que difere um pouco do pensamento de Zahi Hawass, à época do documentário Chefe do Conselho Supremo de Antiguidades: “Para mim era ladrão...
À esquerda Wallis Budge. À direita Zahi Hawass.
Contudo, ladrão ou egiptólogo proeminente, ou mesmo um pouco de cada, foi Wallis Budge o responsável por resgatar, levar para Inglaterra e traduzir um dos melhores exemplares do Livro dos Mortos de que se tem notícia: o Papiro de Ani.

Ani era escriba, uma espécie de contador do Templo de Osíris, que viveu, provavelmente, durante o reinado de Seti I ou de seu filho, Ramsés II. Vivendo em Tebas e convivendo diretamente com o cotidiano de um dos pólos centrais da religião, Ani preocupava-se ainda mais com a vida após a morte.
O funeral de Ani. Ao centro as mulheres choram a perda.
O Ba (alma) sobre o Kat (corpo) mumificado de Ani.
É de se imaginar que seus contatos estreitos com os sacerdotes lhe rendiam informações privilegiadas sobre todos os aspectos da vida espiritual conforme a entendiam os religiosos de seu tempo. A elevada posição social de que era detentor como escriba, aliada à sua função de recebedor das doações e tributos pagos ao templo, lhe garantiu recursos suficientes para encomendar um dos mais bem feitos e completos exemplares do Livro dos Mortos já encontrado.

Wallis Budge o comprou ainda com o selo intacto e, ao abri-lo, deparou-se com 24 metros de magníficas ilustrações coloridas e escrita excelente. O Papiro de Ani possui 65 orações e encantamentos e cerca de 150 ilustrações coloridas.
O cortejo fúnebre de Ani. No centro sua esposa, Tutu, chora ao lado do sarcófago, puxado por bois em um trenó. à esquerda outro trenó, menor, com pertences e, acredito, os vasos canópicos. À frente do corpo, o sacerdote.
No centro da imagem, Anúbis protege a múmia de Ani.
Logo, porém, o achado lhe foi tomado por ordem do diretor do Departamento de Antiguidades Egípcias da época, o francês Eugène Grébaut, que apreendeu diversos artefatos e os trancou sob guarda.
Segundo o documentário do History dá a entender, Wallis Budge teria pago a um dono de hotel vizinho ao depósito para escavar um túnel até o quarto onde os objetos estavam e roubá-los. Para que a operação não fosse ouvida pelos guardas ele providenciou uma refeição “batizada” que os fez dormir pesadamente!
Wallis Budge acreditava que o papiro se perderia se fosse levado ao museu do Cairo. Assim, quando chegou ao Museu Britânico, com o intuito de preservar e estudar o precioso artefato, Wallis Budge tomou a providencial atitude de... cortá-lo em pedaços!

...
Nesta parte do livro Ani, ou seus "clones", trabalha para os deuses.
O Capítulo 125 - Ani faz as Confissões Negativas, afirmando não ter cometido uma série de pecados.
Bem... agora que já conseguimos parar de esmurrar a mesa e esmagar os papéis, voltemos ao papiro...
Anúbis pesa o coração de Ani contra a Pena da Verdade de Maat, deusa da Justiça. Toth anota o resultado observado por Ammut, sempre pronto a devorar os reprovados.
Não se sabe como ou quando Ani morreu, mas sua caríssima aquisição foi com ele para o túmulo e, supostamente, o ajudou a fazer a caminhada no Além rumo ao Campo dos Juncos.
Hórus conduz Ani (que se ajoelha) perante Osíris e suas irmãs, Isis e Néftis.
Ani, e sua esposa Tutu, apresentam uma mesa de oferendas a Hórus.
Sua cópia personalizada do Livro dos Mortos apresenta ilustrações de sua alma fazendo todo o percurso previsto, enfrentando os desafios e respondendo as questões com a ajuda das orientações do livro.
Ani parece ter vencido a tortuosa estrada rumo ao Campo dos Juncos!

Imagens:
http://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Papyrus_of_Ani?uselang=pt-br
http://www.clccharter.org/euzine1/mummificationwebsite.html
http://elainn.deviantart.com/art/Mummification-3-292789386
http://hiddenchronicles.wikia.com/wiki/Mummification_Room?file=Scene_Mummification_Room-Screenshot.png
https://mcs-ancientcivs-2011.wikispaces.com/RA+Death+and+the+Afterlife+Mummification+Process
http://i-cias.com/e.o/mummy.htm
http://veehd.com/video/4556542_Digging-For-The-Truth-Nefertiti-The-Mummy-Returns
http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Seti_I_memmy_head.png
http://www.prairiesmokepress.com/tutankhamuns-treasures-come-to-malmo/
http://commons.wikimedia.org/wiki/Category:Sarcophagi_of_Tutankhamun?uselang=pt
http://deadandwrapped.tumblr.com/ 

1http://www.geocities.ws/lumini_enigmas/LUMINI_ENIGMAS_E_MISTERIOS_ARQUIVOS/Crencas_Funerarias.html

2Natrão é um mineral composto por carbonato de sódio hidratado, com fórmula química Na2CO3·10H2O.
O natrão era uma das substâncias utilizadas pelos antigos egípcios nos processos de mumificação; na verdade o natrão era composto por carbonato de sódio, bicarbonato de sódio, sal e sulfato de sódio - no qual as múmias ficavam imersas por durante 70 dias; a substância natural era encontrada em várias regiões do país, especialmente no uádi el-Natrum. Seu uso, neste fim, destinava-se à desidratação das células e combate às bactérias.
Na antiguidade egípcia seu uso também era o de alvejante para roupas brancas, e misturado com argila formava um tipo de sabão, com uso no preparo da lã.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Natr%C3%A3o


3http://www.geocities.ws/lumini_enigmas/LUMINI_ENIGMAS_E_MISTERIOS_ARQUIVOS/Crencas_Funerarias.html

AS CONFISSÕES NEGATIVAS E OS DEZ MANDAMENTOS
As 42 confissões negativas do Livro dos Mortos, apesar das variações, talvez fruto das traduções, constituem o código de conduta, os princípios éticos e morais sob os quais se sustentava a sociedade egípcia.
É uma impressionante coleção de comportamentos corretos que a pessoa deveria observar em vida, considerando futura cobrança pelos deuses após a morte.
O fato de que o Livro dos Mortos ensina como passar pelos desafios, oferecendo fórmulas e indicando amuletos, revelando que os egípcios não eram exatamente fiéis em vida, isso não exclui a conclusão de que aquele povo tinha princípios éticos e morais que considerava relevantes para atingir o Paraíso.

É justamente neste ponto que o Livro dos Mortos se encontra com os Dez Mandamentos de tal forma que alguns estudiosos chegam a sugerir que Moisés teria se inspirado nele para compor seu código de conduta. Retiram de Deus a autoria, o que consideramos um erro e aqui está escrevendo um autor cristão que não vai se separar de sua convicção.
Nós, enquanto cristão, consideramos que, como as Leis de Deus são perfeitas, e portanto imutáveis, qualquer código de boas práticas encontrará respaldo nestas Leis e terá muitas semelhanças com outros códigos semelhantes, guardando apenas pequenas diferenças de núcleo cultural e temporal.

Dito isto, vejamos as semelhanças entre os dois códigos. Listaremos as Confissões Negativas do Papiro de Ani a partir da tradução de nosso controverso Wallis Budge[1], auxiliados pelo blog Guarda-Livro[2] quando necessário.
Primeiro vamos separar os Mandamentos que possuem equivalentes egípcios e, depois, veremos o que sobra, se haveria, de fato, muita diferença. Acima, sem numeração e em negrito, vai o Mandamento e, abaixo, numeradas, as confissões, na ordem do Papiro de Ani:
Não usar o nome de Deus em vão;
27 Eu não blasfemei.
37 Eu não amaldiçoei Deus.
Não roubar;
Não cobiçar o que é do outro.
02 Eu não cometi roubo com violência.
03 Eu não roubei.
05 Eu não roubei grãos.
06 Eu não furtei oferendas.
07 Eu não roubei a propriedade de deus.
16 Eu não roubei terra cultivada.
39 Eu não tenho roubado o pão dos deuses.
40 Não desviei bolos khenfu dos espíritos dos mortos.
41 Eu não arranquei o pão de crianças nem tratei com desprezo o deus da minha cidade.
42 Eu não matei o gado que pertence ao deus.
Não matarás;
04 Eu não matei homens e   mulheres.
14 Eu não ataquei qualquer homem.
28 Eu não sou violento.
Não levantar falso testemunho;
08 Eu não proferi mentiras.
15 Eu não sou homem falso.
18 Eu não caluniei.
20 Eu não desmoralizei verbalmente a mulher de homem algum.
Não cometer adultério;
Não desejar a mulher do próximo.
11 Eu não cometi adultério, não deitei com homens.
Nossa comparação pode ser contestada por uma observação mais rigorosa, no entanto, estamos buscando apenas a essência, o conceito que aproxima as duas filosofias.
Assim, para nós, a blasfêmia e a maldição proferidas contra a divindade podem ser encaixadas como transgressão ao “Não usar o nome de Deus em vão”, assim como a violência pode estar junto ao “Não Matarás”, considerando que o assassínio dificilmente prescindirá de alguma forma de violência.
Da mesma forma, embora a mulher do próximo não seja necessariamente sua esposa, não haverá adultério se não houver, antes, o desejar da esposa alheia.
Quanto ao “Não Roubarás”, todas as confissões negam algum tipo de subtração de propriedade de outrem, sejam eles deuses, espíritos ou homens e não há, a nosso ver, a possibilidade de que alguém vá roubar algo que, de alguma forma não tenha cobiçado antes.
Na mesma linha, mentir, ser falso, caluniar e desmoralizar, certamente se encaixam na categoria de falso testemunho.
Vemos, portanto, que sete (70%) dos Dez Mandamentos possuem alguma relação com as Confissões Negativas do Papiro de Ani. São nada menos que 20 confissões (quase 50%) relacionadas de alguma forma a um equivalente hebreu.
Indo além, considerando que a semelhança é irrefutável, também fica claro que o código de conduta egípcio é bem mais detalhado e específico, embora a simplicidade Divina dos Dez Mandamentos tenha o dom de torná-los muito mais abrangentes.

Os Mandamentos restantes (Amar a Deus sobre todas as coisas / Santificar o dia de descanso / Honrar pai e mãe) também não ficam descartados quando sabemos do cuidado egípcio com a religiosidade e com seus antepassados. É provável que isso fosse tão óbvio que nem precisaria ser incluído nas confissões.
Vejamos, agora, as confissões restantes:
01 Eu não cometi pecado.
09 Eu não joguei comida fora
10 Eu não proferi maldições
12 Eu não fiz ninguém lamentar
13 Eu não comi o coração.
17 Eu não fui um intrometido.
19 Eu não senti raiva sem justa causa.
22 Eu não me profanei
23 Eu não aterrorizei ninguém
24 Eu não transgredi a lei
25 Eu não fui irado
26 Não fechei os ouvidos às palavras verdadeiras.
29 Eu não fui um agitador de conflitos.
30 Eu não agi com pressa imprópria.
31 Eu não pressionei em debates.
32 Eu não falei demais
33 Não prejudiquei ninguém, não fiz nenhum mal
34 Não fiz feitiços nem blasfêmias contra o Faraó
35 Eu não interrompi o fluxo de água
36 Eu nunca elevei minha voz.
38 Eu não agi com arrogância.
 
Vemos que as confissões restantes apenas aprofundam e especificam mais as anteriores, como se fossem, a nosso ver, gradações mais leves, mas que podem levar aos degraus maiores, que relacionamos aos Dez Mandamentos.
Também vemos que demonstram o comportamento egípcio em comunidade, nos permitindo perceber que aquela sociedade considerava incorreta a alteração de comportamento, a perda do equilíbrio interior e abominavam o desperdício.
Por fim, o status quo também ficava garantido pois, atentar contra o Faraó, ainda que apenas em palavras, era um pecado! 
[1]     O PAPIRO DE ANI - O LIVRO EGÍPCIO DOS MORTOS - Traduzido por E.A. Wallis Budge. Disp.:http://www.historia.seed.pr.gov.br/arquivos/File/fontes20historicas/livro_egipcio_dos_mortos.pdf


[2] http://guarda-livro.blogspot.com.br/2014/06/42-confissoes-negativas-para-maat.html


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