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terça-feira, 18 de julho de 2017

HIROSHIMA

70 ANOS DE UM CRIME CONTRA A HUMANIDADE
(Republicado)
Nos últimos dias 06 e 09 de agosto, em 2015, completaram-se 70 anos do bombardeio atômico às cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. A nosso ver, a manipulação da energia nuclear para fins militares e, pior ainda, o seu uso efetivo, foi um dos piores crimes da História humana.
Os ataques foram as últimas etapas de uma corrida iniciada anos antes, em 1939, que contrapusera o III Reich e os Estados Unidos na disputa pelo domínio da energia nuclear.
Mobilizando uma astronômica quantidade de recursos humanos e materiais, os americanos ergueram uma super-secreta base de construção em Los Álamos, no deserto do Novo México, mais as gigantescas fábricas de processamento de urânio e plutônio em Oak Ridge, Tennessee e Hanford, Washington, respectivamente.
O Laboratório de Los Álamos - Novo México.
Sob o comando militar do General Leslie Richard Groves e do Físico Julius Robert Oppenheimer, os americanos prepararam duas bombas, a Little Boy, com carga de urânio, e a Fat Man, carregada com Plutônio e alguns dos parâmetros para a seleção de alvos potenciais deixa clara a natureza sinistra do planejamento: área urbana que fosse um importante alvo estratégico, com tamanho maior que 4,8km de diâmetro.
O Físico Oppenheimer e o General Groves.
Em outras palavras, uma cidade de médio ou grande porte, bem povoada, que seria transformada em um laboratório para testar a arma e, depois, fazer a máxima propaganda de seus efeitos.
Hiroshima, com cerca de 350 mil habitantes, que era sede de várias unidades militares, que possuia um centro de comunicações e um movimentado porto, foi atacada em 06/08, às 08:15hs, pela bomba Little Boy, transportada pelo avião bombardeiro B-29 Enola Gay, do 393º Esquadrão de Bombardeio, sob comando do Coronel Paul Tibbets.
A bomba Little Boy, a equipe do bombardeiro B-29 Enola Gay e a explosão sobre Hiroshima.
Nagasaki, que abrigava cerca de 260 mil habitantes no dia do ataque, que também era uma cidade industrial e portuária, era o alvo secundário do segundo bombadeio atômico (o principal era Kokura) e foi atacada em 09/08, às 11:00hs, com a bomba Fat Man, lançada pelo avião bombardeiro B-29 Bockscar, do 393º Esquadrão de Bombardeio, sob comando do Major Charles W. Sweeney.
A bomba Fat Man, a equipe do bombardeiro B-29 Bockscar e a explosão sobre Nagasaki.
Os efeitos devastadores causaram a morte instantânea ou consecutiva de 140 mil pessoas em Hiroshima e de 80 mil pessoas em Nagasaki, aproximadamente.
A obra “O Último Trem de Hiroshima”, de Charles Pellegrino1, fazendo uso de documentos e relatos coletados entre os sobreviventes, reconstitui de forma brilhante e terrível, os bombardeios e seus momentos posteriores.
É uma leitura assustadora, e reveladora do quão fundo o ser humano desceu na capacidade de causar o mal a seus semelhantes.
Pellegrino descreve a vaporização de pessoas antes mesmo que seus cérebros pudessem emitir a sensação de dor:
Sob o hipocentro, o sangue no cérebro da senhora Aoyama já começava a vibrar, na iminência de virar vapor. O que ela experimentou foi uma das mortes mais rápidas de toda a história humana. Antes que algum nervo começasse a perceber a dor, ela e seus nervos deixaram de existir. (pg.29)2
Muitas dessas vítimas desapareceram completamente, deixando como lembrança de sua presença apenas sombras impressas no chão ou em paredes, como negativos de uma fotografia.




Para os que não foram diretamente expostos, o horror de presenciar outros sendo diretamente atingidos, como a Srª. Teruko Kono, que não enviara seu filho à escola naquele dia:
Quando veio o golpe, ela o observava brincar em uma balsa, da janela do segundo andar de casa, à margem do rio. A casa ficava dentro da zona de Sadako, a menos de dois quilômetros do hipocentro. A senhora Kono foi escudada contra o raio de calor, mas o garoto foi completamente exposto. Ela o viu ser transformado em um relâmpago branco e pálido e emitir uma coluna de fumaça negra para o alto... (pg.37)
Qualquer coisa de cores mais escuras, como cabelos e roupas, pareciam atrair de forma mais forte os efeitos da explosão. Quem vestia roupas brancas parece ter sido atingido menos intensamente, se é que isso fez alguma diferença mais significativa.
Em sua obra,  Pellegrino reconstitui relatos de premonições assustadoras de crianças que imploraram para não serem enviadas à escola por suas mães, mas que não foram atendidas. Um dos casos foi o da jovem Etsuko Kuramoto que, diante da determinação irrevogável de sua mãe, de que iria para escola de qualquer forma, pediu para usar sua melhor roupa:
Quando Sumi Kuramoto viu a filha pela última vez, sua sagrada, adorada filha caminhava em direção à Escola Primária Nacional, rumo ao hipocentro, com sua "melhor roupa de domingo", e chorava. (pg.38)
Outra premonição, ainda mais arrepiante, foi a do garoto Hiroshi Mori. Ele disse à Yoshiko, sua mãe, que Hiroshima seria completamente destruída naquele dia. Mas ela não foi demovida da ideia de que o filho não poderia perder a aula e o enviou à escola:
...o garoto disse à mãe que se cuidasse e pediu que não colocasse comida em sua mochila, porque ele não precisaria de almoço naquele dia. (pg.38)
Relatos do momento da explosão dão conta do barulho ensurdecedor para alguns e quase silencioso para outros. Pessoas sendo erguidas do solo como folhas ao vento e depois novamente arremessadas ao chão com força esmagadora.
Para o Sr. Kita, que assistiu a explosão de uma estação meteorológica no monte fora da cidade, o barulho chegou em dois segundos e a onda de choque, segundo seus cálculos, viajava a setencentos metros por segundo. Após conseguir levantar, e usando um binóculo, ele pode ver toda a devastação que se abatia sobre Hiroshima:
Tudo no sul e no leste parecia ter-se tornado um deserto de areia amarela. No norte, e rio acima, o mundo era uma escuridão que mesmo à distância podia ser sentida, interrompida apenas por raios e turbilhões incandescentes que às vezes alcançavam a altura de cinco a dez andares. Havia estranhas correntes de vento ascendentes e descendentes junto à fumaça; e com os binóculos Kita pôde divisar grandes camadas de granizo negro ou neve descendo violentamente de cima. (pg.46-7)
Havia muitos sobreviventes, inclusive pessoas bem abaixo do local do chamado grau zero, onde ocorrera de fato a explosão. Estavam sob uma cúpula de concreto, ou ficaram dentro de bolsões de ar sob estruturas desmoronadas e escaparam no primeiro momento.
O caso do garoto de 13 anos, Yoshitaka, foi surpreendente. A escola inteira desabou ao seu redor, mas ele conseguiu sair “rápido o suficiente para testemunhar a nuvem ainda radiante que crescia no céu, quase diretamente acima de sua cabeça.”(pg. 58). Ele relatou o calor e as cores do arco-íris, o que chegou a considerar uma bela visão.
Os filhos da Srª Matsuyanagi, que escaparam praticamente ilesos da explosão e da onda de calor, não escaparam dos raios gama. A morte por hemorragia generalizada ocorreu poucas horas depois. (pg.60)
Além dos efeitos nocivos dos raios gama, os sobreviventes que podiam andar ainda foram submetidos à visão que pode ser classificada como o inferno na terra:
...a rua estava cheia de pessoas transformadas em carvão e pilhas de cera ardente. À primeira vista, a rua parecia simplesmente vazia, mas, quando ela olhou de novo por entre a fumaça e as chamas, era fácil ver como as pessoas que estavam caminhando na direção do banco jaziam caídas umas por cima das outras. Várias pareciam ter caído aos pedaços, como sacos de folhas queimadas e esparramadas pelo chão. (pg.62)
Depois dos primeiros efeitos, veio a chuva. Chuva negra com pingos grandes que machucavam a pele. Os relatos dão conta que os sobreviventes sentiam uma sede tão incontrolável que, contra todo bom senso, erguiam a cabeça para o alto e bebiam a chuva negra que, depois, iria lhes tirar a vida. (pg. 63).
Pellegrino segue trazendo horror sobre horror à medida que a leitura avança. Os relatos sobre a explosão em Nagasaki não são menos terríveis.
Não é uma leitura a ser recomendada como fazemos com um livro de aventuras ou mesmo de História. Não queremos que nossos amigos sofram. Mas é uma obra que deve ser lida, para que o repúdio à existência de armas nucleares cresça, se fortaleça e jamais desapareça.


Aqueles terríveis momentos parecem bem distantes de nós, no tempo e no espaço, mas há, espalhados pelo mundo, milhares de silos, plataformas e submarinos carregados com armas que fariam a Little Boy e a Fat Man parecerem brinquedos de criança.
As manchas brancas no chão da ponte, à direita, são tudo que restou de um grupo de pessoas que transitavam por ali no momento da explosão.
Nosso mais forte repúdio, no aniversário de 70 anos, àquele crime que foi cometido contra a humanidade, do passado, do presente e do futuro.
Marcello Eduardo.
Ps. Quem quiser ler a obra, pode fazer o download aqui. E quem quiser ler relatos de sobreviventes, recomendamos visitar este site aqui.
1PELLEGRINO, Charles. O Último Trem de Hiroshima : os sobreviventes olham  para trás. Rio de Janeiro : Leya, 2010.
2Versão em pdf, disponibilizada pelo site LeLivros


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