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segunda-feira, 27 de março de 2017

LEOPOLDINA VII

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segunda-feira, 20 de março de 2017

IMPERATRIZ LEOPOLDINA - Parte VII

IMPERATRIZ LEOPOLDINA – MATRIARCA DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL – Parte VII1
A lendária infidelidade do marido Pedro começou a operar no dia seguinte ao casamento, quando levou a esposa à casa que abrigava seu guarda-roupa, na qual ele podia ver Noémi Thierry, filha de um artista francês por quem estava apaixonado desde que seu casamento era arranjado sem seu conhecimento.
Sem saber de nada disso, Leopoldina escreveu que emocionara-se com a recepção que recebera e que, os que a cercavam eram, todos, “...anjos de bondade, especialmente meu querido Pedro...” (Cassotti - pg.112)
Nos primeiros meses de casamento as cartas de Leopoldina permitem imaginar que foi feliz. Escrevia sobre as qualidades do marido, propunha-se a instruí-lo e o acompanhava sempre em passeios.
As cartas de Leopoldina.
Outros relatos, porém, dão conta de que o marido não era tão atencioso assim, que precisava ser repreendido pela mãe para que desse mais atenção à esposa. A própria Leopoldina chegou a escrever reclamando de dias difíceis e mau humor pois o marido “... não me deixava dormir, até que eu lhe disse, sinceramente, que estava abatida.” (Cassotti - pg.112)
Testemunhar um ataque epilético brando de D. Pedro também abalou a princesa e a solidão da vida no Rio de Janeiro começou a afetá-la, chegando a escrever que sentia falta de ir ao teatro e de interagir socialmente com pessoas diferentes, faltas que ela procurou preencher com aulas de “canto, português e latim” nas manhãs, e passeios à tarde.
Os primeiros conflitos entre o casal surgiram por questões financeiras. Os rendimentos da princesa acabavam sempre indo parar nas mãos do marido, impedindo-a de cumprir compromissos assumidos.
Outros problemas foram causados por desentendimentos entre as servidoras austríacas da princesa e os portugueses. A maioria delas se tornou aliada de Carlota Joaquina e acabou substituída por criadas portuguesas.
Em 1818 as cartas de Leopoldina começam a revelar que ela já percebia as falhas de caráter do esposo, escrevendo que “... com toda a franqueza ele diz tudo que pensa, isso às vezes com certa brutalidade. Acostumado a executar sempre sua vontade, todos devem se adequar a ele. Até eu sou obrigada a aceitar algumas respostas ácidas.” (Cassotti - pg.125)
A má fama de sua sogra ela agora podia testemunhar pessoalmente: “seu comportamento é vergonhoso, e, infelizmente, já se vêem as tristes consequências em suas filhas menores...” (Cassotti - pg.126)
Neste época tornaram-se frequentes os passeios de Leopoldina que buscava, no isolamento da natureza deslumbrante, ficar afastada o quanto possível das pessoas e situações que a cercavam.
Continua...
1Marsilio Cassotti. A biografia íntima de Leopoldina: a imperatriz que conseguiu a independência do Brasil. São Paulo: Planeta, 2015

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APARTHEID - Parte IV


A “LEGISLAÇÃO” DO APARTHEID[10]
O regime segregacionista foi baseado em centenas de leis que partiam do pressuposto de que era necessário impedir a integração das raças como forma de proteção à raça branca e a manutenção de cada raça em seu espaço.
Vejamos alguns dos principais conjuntos dessas leis, que sustentavam a segregação sulafricana:
Lei de Proibição dos Casamentos Mistos – 1949: como o nome já diz, proibiu o casamento interracial;
Lei da Imoralidade – 1950: tornou crime a relação sexual interracial;
Lei de Registro Populacional – 1950: “formalizou a divisão racial através da introdução de um cartão de identidade para todas as pessoas com idade superior a dezoito anos, especificando a qual grupo racial cada uma delas pertencia.”;
Lei de Áreas de Agrupamento – 1950: impediu a convivência de raças em um mesmo local das cidades, determinando áreas nas quais cada raça poderia morar;
Lei de Supressão ao Comunismo – 1950: que extinguiu o Partido Comunista Sul Africano o que, na prática, permitiu ao governo perseguir qualquer um que fizesse oposição, bastando que fosse taxado de comunista;
Lei de Reserva dos Benefícios Sociais – 1953: segregou os espaços públicos, determinando quais locais poderiam ser utilizados por cada raça, medida que levou a separação desde hospitais até bancos de praça e os serviços públicos, que caiam de qualidade conforme a raça que deles fazia uso;
Lei de Educação Bantu – 1953: “criou um sistema educacional separado para os estudantes negros, projetado para preparar os jovens negros para passarem o resto da vida como trabalhadores braçais.”;
Tal estado inacreditável de segregação não poderia deixar de gerar oposição e ela tomou forma já na década de 50, quando o Congresso Nacional Africano (CNA), organização política criada em 1912, lançou uma campanha de desobediência civil. Começava a resistência...
Continua...
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[10] https://pt.wikipedia.org/wiki/Apartheid

quarta-feira, 15 de março de 2017

A BATALHA DO SOMME

A BATALHA DO SOMME
A luta na região do Rio Somme foi mais uma carnificina da Grande Guerra, com a diferença de ser planejada pelos ingleses, contra os alemães.
Ela foi a contra-partida britânica ao acordo da Conferência de Chantilly (dez/1915), na qual foram acordados ataques simultâneos dos aliados (russos, britânicos, franceses e italianos), visando pressionar seus inimigos por todos os lados.
No caso específico desta batalha, a Inglaterra se aproveitava da situação em Verdun-sur-Meuse, na qual os alemães depositavam o grosso de suas tropas e materiais, deixando menos protegidos outros setores da frente, como o Somme.
Por outro lado, e pelo mesmo motivo, essa ofensiva contaria com poucas tropas francesas. A Força Expedicionária Britânica, porém, fora muito ampliada por conta do alistamento militar obrigatório, que rendera mais dois exércitos bem equipados, embora mal treinados.
Os britânicos também tinham grande superioridade em artilharia que “...incluía cerca de 3 mil canhões, metade dos quais era britânica, metade,francesa.[1]. Essa superioridade também se verificava no ar, onde a aviação aliada superava a alemã.
A despeito de toda essa vantagem material, os comandantes aliados divergiam quanto à estratégia de ataque e um dos motivos era a desconfiança quanto ao preparo de seus homens para a batalha.
Por fim, optaram pelo básico bombardeio da artilharia e o avanço da infantaria para abrir uma brecha que seria invadida pela cavalaria.(?!)
O ataque foi iniciado em 24/06 com o bombardeio da artilharia, gás cloro e a explosão de túneis escavados sob as trincheiras alemãs. Os aliados lançaram “...12 mil toneladas de projéteis de artilharia – cerca de 1,7 milhão de disparos.[2].
Apesar das grandes baixas sofridas, os alemães conseguiram uma rápida recuperação, considerando que o bombardeio “...não conseguiu destruir seus esconderijos subterrâneos mais profundos nem suas plataformas de metralhadoras fortificadas, e deixou grande parte de seu arame intacta.[3].
Para complicar, as explosões dos túneis secretos escavados sob as trincheiras alemãs mais dificultou do que ajudou o avanço, pois os buracos abertos eram praticamente “intransponíveis”.
Os soldados avançavam em meio às crateras, lamaçal e arame farpado da Terra de Ninguém, onde eram massacrados pelo fogo das metralhadoras, granadas, bombas e fuzis dos alemães, que recuaram poucos quilômetros de sua posição original.
O resultado foi que, a exemplo de tantos outros avanços, este resultou em banho de sangue. As baixas foram tão terríveis que traumatizaram a população inglesa pois “Cidades como Manchester, Birmingham, Liverpool, Sheffields, Leeds, Bradford e outras, tiveram de reconhecer a realidade da guerra total. Bairros inteiros […] perderam seus homens.[4].
Em meados de julho uma nova tentativa foi feita com a infantaria reunindo-se à noite e avançando sem apoio da artilharia. Conseguiram avançar cerca de 6km, mas não dispunham de reservas para completar o trabalho de modo que “...a batalha seguiu a pauta familiar de uma carnificina de desgaste.[5].
Outros ataques, em setores diferentes, visando evitar a concentração de reforços alemães, tiveram custo alto em vidas, a exemplo das tropas australianas próximas à cidade de Artois, onde sofreram nada menos que “5.500 vítimas” em um único dia.
Com o fim da Batalha de Verdun se aproximando, os alemães reforçaram a frente do Somme, complicando ainda mais os planos aliados. Apesar disso, em 15/09 um novo ataque teve início, desta vez usando tanques pela primeira vez na guerra.
A Inglaterra enviou 49 tanques Mark I, que pesavam 28 toneladas e “corriam” a 5 km/h! Mas, destes 49 tanques, “...apenas 32 chegaram à frente de batalha, dos quais apenas 9 conseguiram cruzar a terra de ninguém para enfrentar o inimigo.[6].
Apesar desse fiasco, e graças ao tremendo impacto psicológico que os monstros de ferro causaram nos soldados que nunca tinham visto nada semelhante, os alemães recuaram. Mas só um pouco
Porém, neste mesmo mês de setembro/1916, a força-aérea alemã voltou a ter o domínio dos ares. Entrava em cena o Esquadrão de Caça Jasta II, no qual servia Manfred Albrecht Freiherr von Richthofen, o Barão Vermelho.
A supremacia aérea, que significava a coleta de informações precisas sobre a localização de alvos e o movimento de tropas, foi fundamental para que os alemães equilibrassem o jogo em terra.
A Batalha do Somme começou depois e terminou antes do final oficial da Batalha de Verdun. Apesar disso conseguiu matar mais soldados. Números oficiais apontam “...624 mil baixas Aliadas (420 mil britânicas [...], 204 mil francesas), incluindo 146 mil mortos ou desaparecidos, contra 429 mil perdas alemãs, incluindo 164 mil mortos ou desaparecidos.[7].
As duas batalhas, Verdun e Somme, mostraram que a estratégia de desgastar o adversário trazia, na verdade, perdas para os dois lados e que “...a superioridade dos efetivos e a abundância de material podiam assegurar êxitos parciais, mas estes êxitos […] não bastavam para implicar a ruptura da frente.[8].






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[1]  SONDHAUS, Lawrence. A Primeira Guerra Mundial – História Completa. Trad. Roberto Cataldo. Editora Contexto, 2011. pg. 275.
[2]  Ibid. pg. 276.

[3]  Ibid. pg. 276.

[4]  PIMLOTT, John. A Primeira Guerra Mundial. Bogotá, Colômbia: Editora Norma. pg. 22. Tradução livre.

[5]  Ibid. pg. 23.
[6]  SONDHAUS, Lawrence. A Primeira Guerra Mundial – História Completa. Trad. Roberto Cataldo. Editora Contexto, 2011. pg. 280.

[7]  Ibid. pg. 283.
[8]   RENOUVIN, Pierra. La Primera Guerra Mundial. Em língua espanhola. Trad. Jordi García Jacas. Barcelona-Espanha, Editora Montserrat, 1990. pg. 20. Tradução Livre.



terça-feira, 7 de março de 2017

LIVRO DOS MORTOS - FINAL


AS CONFISSÕES NEGATIVAS E OS DEZ MANDAMENTOS
As 42 confissões negativas do Livro dos Mortos, apesar das variações, talvez fruto das traduções, constituem o código de conduta, os princípios éticos e morais sob os quais se sustentava a sociedade egípcia.
É uma impressionante coleção de comportamentos corretos que a pessoa deveria observar em vida, considerando futura cobrança pelos deuses após a morte.
O fato de que o Livro dos Mortos ensina como passar pelos desafios, oferecendo fórmulas e indicando amuletos, revelando que os egípcios não eram exatamente fiéis em vida, isso não exclui a conclusão de que aquele povo tinha princípios éticos e morais que considerava relevantes para atingir o Paraíso.
É justamente neste ponto que o Livro dos Mortos se encontra com os Dez Mandamentos de tal forma que alguns estudiosos chegam a sugerir que Moisés teria se inspirado nele para compor seu código de conduta. Retiram de Deus a autoria, o que consideramos um erro e aqui está escrevendo um autor cristão que não vai se separar de sua convicção.
Nós, enquanto cristão, consideramos que, como as Leis de Deus são perfeitas, e portanto imutáveis, qualquer código de boas práticas encontrará respaldo nestas Leis e terá muitas semelhanças com outros códigos semelhantes, guardando apenas pequenas diferenças de núcleo cultural e temporal.
Dito isto, vejamos as semelhanças entre os dois códigos. Listaremos as Confissões Negativas do Papiro de Ani a partir da tradução de nosso controverso Wallis Budge[1], auxiliados pelo blog Guarda-Livro[2] quando necessário.
Primeiro vamos separar os Mandamentos que possuem equivalentes egípcios e, depois, veremos o que sobra, se haveria, de fato, muita diferença. Acima, sem numeração e em negrito, vai o Mandamento e, abaixo, numeradas, as confissões, na ordem do Papiro de Ani:
Não usar o nome de Deus em vão;
27 Eu não blasfemei.
37 Eu não amaldiçoei Deus.
Não roubar;
Não cobiçar o que é do outro.
02 Eu não cometi roubo com violência.
03 Eu não roubei.
05 Eu não roubei grãos.
06 Eu não furtei oferendas.
07 Eu não roubei a propriedade de deus.
16 Eu não roubei terra cultivada.
39 Eu não tenho roubado o pão dos deuses.
40 Não desviei bolos khenfu dos espíritos dos mortos.
41 Eu não arranquei o pão de crianças nem tratei com desprezo o deus da minha cidade.
42 Eu não matei o gado que pertence ao deus.
Não matarás;
04 Eu não matei homens e mulheres.
14 Eu não ataquei qualquer homem.
28 Eu não sou violento.
Não levantar falso testemunho;
08 Eu não proferi mentiras.
15 Eu não sou homem falso.
18 Eu não caluniei.
20 Eu não desmoralizei verbalmente a mulher de homem algum.
Não cometer adultério;
Não desejar a mulher do próximo.
11 Eu não cometi adultério, não deitei com homens.

Nossa comparação pode ser contestada por uma observação mais rigorosa, no entanto, estamos buscando apenas a essência, o conceito que aproxima as duas filosofias.
Assim, para nós, a blasfêmia e a maldição proferidas contra a divindade podem ser encaixadas como transgressão ao “Não usar o nome de Deus em vão”, assim como a violência pode estar junto ao “Não Matarás”, considerando que o assassínio dificilmente prescindirá de alguma forma de violência.
Da mesma forma, embora a mulher do próximo não seja necessariamente sua esposa, não haverá adultério se não houver, antes, o desejar da esposa alheia.
Quanto ao “Não Roubarás”, todas as confissões negam algum tipo de subtração de propriedade de outrem, sejam eles deuses, espíritos ou homens e não há, a nosso ver, a possibilidade de que alguém vá roubar algo que, de alguma forma não tenha cobiçado antes.
Na mesma linha, mentir, ser falso, caluniar e desmoralizar, certamente se encaixam na categoria de falso testemunho.
Vemos, portanto, que sete (70%) dos Dez Mandamentos possuem alguma relação com as Confissões Negativas do Papiro de Ani. São nada menos que 20 confissões (quase 50%) relacionadas de alguma forma a um equivalente hebreu.
Indo além, considerando que a semelhança é irrefutável, também fica claro que o código de conduta egípcio é bem mais detalhado e específico, embora a simplicidade Divina dos Dez Mandamentos tenha o dom de torná-los muito mais abrangentes.
Os Mandamentos restantes (Amar a Deus sobre todas as coisas / Santificar o dia de descanso / Honrar pai e mãe) também não ficam descartados quando sabemos do cuidado egípcio com a religiosidade e com seus antepassados. É provável que isso fosse tão óbvio que nem precisaria ser incluído nas confissões.
Vejamos, agora, as confissões restantes:
01 Eu não cometi pecado.
09 Eu não joguei comida fora
10 Eu não proferi maldições
12 Eu não fiz ninguém lamentar
13 Eu não comi o coração.
17 Eu não fui um intrometido.
19 Eu não senti raiva sem justa causa.
22 Eu não me profanei
23 Eu não aterrorizei ninguém
24 Eu não transgredi a lei
25 Eu não fui irado
26 Não fechei os ouvidos às palavras verdadeiras.
29 Eu não fui um agitador de conflitos.
30 Eu não agi com pressa imprópria.
31 Eu não pressionei em debates.
32 Eu não falei demais
33 Não prejudiquei ninguém, não fiz nenhum mal
34 Não fiz feitiços nem blasfêmias contra o Faraó
35 Eu não interrompi o fluxo de água
36 Eu nunca elevei minha voz.
38 Eu não agi com arrogância.

Vemos que as confissões restantes apenas aprofundam e especificam mais as anteriores, como se fossem, a nosso ver, gradações mais leves, mas que podem levar aos degraus maiores, que relacionamos aos Dez Mandamentos.
Também vemos que demonstram o comportamento egípcio em comunidade, nos permitindo perceber que aquela sociedade considerava incorreta a alteração de comportamento, a perda do equilíbrio interior e abominavam o desperdício.
Por fim, o status quo também ficava garantido pois, atentar contra o Faraó, ainda que apenas em palavras, era um pecado!





[1]     O PAPIRO DE ANI - O LIVRO EGÍPCIO DOS MORTOS - Traduzido por E.A. Wallis Budge. Disp.:http://www.historia.seed.pr.gov.br/arquivos/File/fontes20historicas/livro_egipcio_dos_mortos.pdf

[2] http://guarda-livro.blogspot.com.br/2014/06/42-confissoes-negativas-para-maat.html


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A MORTE DE CÉSAR - POR SUETÔNIO

A MORTE DE CÉSAR POR SUETÔNIO
Em um dia como este 15/03, no ano 44 a.C., Júlio César era morto no Senado de Roma pelos golpes traiçoeiros de seus inimigos.
O Reino de Clio presta homenagem a um dos maiores políticos e generais da História trazendo o relato de Suetônio sobre a morte do ditador romano.1
A escrita, em antigo português de Portugal, foi mantida. Vamos a Suetônio:
Mais de 60 cidadãos conspiraram contra elle; tinham à frente C. Cassio, Marco e Decimo Bruto. Vacillaram ao principio sobre a forma de se desfazerem do oppressor; se, na assembleia de Campo de Marte, no momento em que chamasse as tribus aos suffragios, uma parte d'entre os conjurados o deitaria por terra, e outra o massacraria então; ou se o atacariam na rua Sagrada ou á entrada do theatro.
Mas quando a assembleia do senado fosse indicada para os idos de março na sala construída por Pompeu, elles concordariam todos a não procurar momento nem logar mais favoráveis.
Prodígios tocantes annunciaram a César o seu fim próximo.
Alguns mezes antes, colonos a quem elle dera terras na Campania, querendo ali edificar casas, escavaram antigos túmulos com tanta mais curiosidade, que de tempos em tempos encontraram monumentos antigos; acharam n'um sitio, onde se dizia que Capys, o fundador de Capua, estava sepultado, uma mesa de bronze com uma inscrípção em grego cujo sentido era que, quando se descobrissem as cinzas de Capys, um descendente de Júlio seria morto pela mão dos seus parentes, e seria vingado pelas desgraças da Itália.
Não se pôde encarar este facto como fabuloso ou inventado ; é Cornelio Balbo, amigo intimo de César, que o conta.
Pelo mesmo tempo soube-se que os cavallos que César tinha consagrado no dia da passagem do Rubincon, e que deixara pastando em liberdade, se abstinham de todo o alimento e choravam abundantemente. O adivinho Spurinna o avisou, num sacrifício, que estava ameaçado d'um perigo, ao qual se exporia antes dos idos de março.
Na véspera d'estes mesmos idos, pássaros de differentes espécies, voaram d'um bosque visinho e fizeram em pedaços uma carriça que se havia empoleirado em cima da sala do senado com um ramo de louro no bico. Na própria madrugada do dia em que foi assassinado, pareceu-lhe durante o somno, que voava acima das nuvens, e que tocava na mão de Júpiter.
Sua mulher Calpurnia sonhou que o alto da casa caía e seu marido fora ferido com successivos golpes nos braços. As portas da sua camara abriram-se por si mesmo.
Área do Teatro Argentina em Roma, onde ficava o Forum de Pompeu, no qual César foi assassinado.
Todas estas razões e a sua saúde, que sentia já muito enfraquecida, o fizeram hesitar, se deveria ficar em casa e addiar o que resolvera fazer n'esse dia no senado ; mas Decimo Bruto o aconselhou a não faltar ao senado, cujos membros o esperavam em grande numero e desde muito tempo.
Saiu pela quinta hora do dia. Apresentaram-lhe uma memoria que continha um detalhe da conjuração, que elle misturou com outras que tinha na mão esquerda, como se a reservasse para a ler n'outra occasião.
Imolaram-se varias victimas, sem que uma só desse presagios felizes, e arrostando esses terrores religiosos, entrou no senado, zombando de Spurinna: «Afinal, os idos de março chegaram, vindos sem accidente, dizia elle», a que respondeu o adivinho : «os idos não passaram ainda
Quando tomou o seu logar, os conjurados o cercaram como para lhe fazerem a corte, e immediatamente Tullio Cimber, que se encarregara de dar começo á tragedia, aproximou-se como para lhe pedir uma mercê. Tendo-lhe César feito signal para deixar para outra occasião o pedido, Cimber o agarrou pelo alto da túnica. «É uma violência!» exclamou César.
Então, um dos dois Casca o feriu com um punhal um pouco abaixo do collo, César agarrou-lhe no braço, e lhe enterrou um punção que tinha na mão. Quer arremete-lo, mas uma segunda punhalada o detém ; vê de todos os lados o ferro levantado sobre elle; então cobre a cabeça com a sua veste e com a mão esquerda abaixa a túnica para cair mais decentemente.
Deram-lhe vinte e três golpes. No primeiro soltou um gemido sem proferir palavra alguma. Outros, comtudo, contam, que César disse a Bruto que avançava para o ferir: «E tu também, meu filho!» Ficou algum tempo estendido no chão.
Todos haviam fugido. Por fim, três escravos o levaram para casa n'uma liteira, d'onde lhe pendia um dos braços.
De tantas feridas, a única que o seu medico Antiscio achou mortal, foi a segunda que recebera no peito.
Os conjurados tinham resolvido arrastar o cadáver para o Tibre, de declarar os seus bens confiscados e todos os seus actos nullos, mas o receio que tiveram do cônsul António e de Lépido, general de cavallaria, os deteve.
Depois, a pedido de Lúcio Pisão, seu sogro, abriu-se o testamento, que foi lido na casa de António. César havia-o feito no mez de setembro anterior, numa casa de campo, chamada Lavicanum, e confiara-o á primeira das vestaes.
O salão do Senado ficaria ao fundo da imagem, em parte já coberta pela rua, abaixo do prédio rosado.
Q. Tuberon conta que, desde o seu primeiro consulado até ao começo da guerra civil, costumava ter mencionado no testamento C. Pompeu para seu herdeiro, e que tinha até lido esta clausula n'uma arenga que fizera aos soldados.
Mas pelas suas ultimas disposições nomeava três herdeiros, os seus segundos sobrinhos : C. Octávio com três quartos da herança ; Lúcio Pinario e Quinto Pedio tinham a ultimo quarto.
No fim do testamento adoptava Octávio e lhe dava o seu nome. Declarava vários dos seus assassinos tutores de seus filhos, se os houvesse. Collocou Decimo Bruto na segunda classe dos seus legatários, deixava ao povo romano os seus jardins sobre o Tibre e 300 sesterceos por cabeça.
No dia marcado para as exéquias, levantou-se uma fogueira no Campo de Marte, ao pé do tumulo de Júlia, e uma capella dourada defronte da tribuna dos oradores, pelo modelo do templo de Vénus Mãe; ali se collocou um leito de marfim, coberto d'um estofo de ouro e de púrpura sobrepujado d'um tropheo d'armas e da mesma túnica, que vestia quando fora assassinado.
Como se não acreditava que o dia fosse bastante para a multidão daquelles que traziam offertas para a fogueira, se se observasse a marcha fúnebre, declarou -se que, cada pessoa iria sem ordem e pelo caminho que conviesse, levar as suas dadivas ao Campo de Marte.
Nos jogos funerários, cantaram-se vários trechos compostos para excitar a piedade e a indignação, como o monologo de Ajax na peça de Pacuvio, que tem por titulo : As armas de Achilles: Foi o seu salvador para ser sua victima, etc, e o de Electra d'Accio, mais ou menos similhante.
Em logar de oração fúnebre, o cônsul António mandou ler por um arauto o ultimo senatus-consulto que lhe concedia todas as honras divinas e humanas, e o juramento pelo qual todos se obrigavam a defende-lo com risco da própria vida. Accrescentou muito poucas palavras esta leitura.
Magistrados em funções ou tendo deixado o cargo, conduziram o leito de estado para a praça publica. Uns queriam queima-lo no santuário de Júpiter, outros no senado.
De repente dois homens armados de espadas e trazendo dois chuços, deitaram fogo ao leito com tochas, e logo cada um se apressou a deitar-lhe madeira secca, bancos, cadeiras de juizes, e tudo que se encontrasse á mão.
Dois tocadores de flauta e histriões deitaram os fatos triumphantes de que estavam revestidos para a cerimonia; os veteranos legionários, as armas com que se haviam enfeitado para as exéquias do seu general; as mulheres os seus adornos e os de seus filhos.
Os estrangeiros tomaram parte neste luto publico ; deram uma volta em torno da fogueira, patenteando o seu desgosto cada um ao uso do seu paiz. Os próprios judeus velaram algumas noites ao pé das cinzas.
Logo depois das exéquias, o povo correu com fachos ás casas de Bruto e de Cassio, e só com muito custo foi repellido.
Encontrou um certo Helvio Cinna, que tomaram pelo tribuno Cornelio Cinna, que. na véspera havia arengado violentamente contra César ; foi massacrado e trouxeram-lhe a cabeça espetada no cabo d'uma lança.
Depois, erigiram na praça publica uma columna de mármore de Africa, de vinte pés de altura, com a inscripção:
AO PAE DA PÁTRIA
Durante muito tempo o povo ia ali offerecer sacrifícios, formar votos e terminar certas desavenças jurando pelo nome de César.
[…]
Durante os jogos que o seu herdeiro Augusto celebrou para sua apotheose, um cometa cabelludo brilhou durante sete dias; apparecia pela undécima hora do dia, e dizia-se ser a alma de César recebida nos céus...
É assim que Suetônio narra a morte do homem que, a despeito de sua trajetória sangrenta, salvou Roma de si mesma e concedeu a seus inimigos uma piedade e buscou uma harmonia que poucos antes e depois dele praticaram. O pagamento por isso foi a traição e a morte.
Contudo, a diferença é que, enquanto César vive no panteão dos grandes líderes políticos e militares, dentre os quais é um primus inter pares, seus assassinos vivem na infâmia da História e ali permanecerão para sempre, pois é lá, MT, o lugar dos traidores.



AVE CÉSAR!

1 Obra Roma Galante – Crônica escandalosa da corte dos doze Césares, tradução de Guilherme Rodrigues, publicado pela João Romano Torres & Cia, de Lisboa, pgs. 34 - 38


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Imagens:
http://seuhistory.com/hoje-na-historia/assassinado-julio-cesar-de-roma
http://www.keywordsking.com/YW50b255IGZ1bmVyYWwgb3JhdGlvbg/
http://fadomduck2.blogspot.com.br/2015_08_01_archive.html
http://m.megacurioso.com.br/saude-e-beleza/69925-novo-diagnostico-aponta-que-julio-cesar-nao-sofria-de-epilepsia.htm
http://www.biography.com/people/julius-caesar-9192504


https://omundonumamochila.com.br/category/italia/
http://www.heritage-history.com/index.php?c=academy&s=char-dir&f=antony
http://www.eonimages.com/media/8d0fc9ec-3a63-11e0-983b-37ad3c946b85-mark-antony-delivers-funeral-oration-for-julius-caesar
http://superrara.deviantart.com/art/Calpurnia-s-Dream-83704225


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