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terça-feira, 23 de julho de 2019

TEXTO: HISTÓRIAS DE GUERRA 1




 
A BATALHA DE VERDUN - 1916
Verdun-sur-Meuse é uma cidade do nordeste da França com mais de mil anos de História tendo enfrentado e repelido nada menos que um cerco de Átila, o Huno, no século V.
Na época da Grande Guerra, Verdun estava dentro de uma linha fortificada, composta por dezoito fortes subterrâneos, a exemplo dos fortes Douaumont e Vaux, e mais doze instalações menores.
A capacidade de resistência dos fortes era diferenciada, pois enquanto alguns deles foram reforçados para resistir à artilharia pesada, outros não receberam a mesma atenção.
Para piorar, o comandante francês, General Joffre, não confiava mais na resistência de seus fortes, considerando que a artilharia alemã conseguira destruir construções semelhantes na Bélgica.
Assim, as guarnições de armamentos destas instalações foram reduzidos ao mínimo e algumas delas, como Douaumont e Vaux, estavam até selecionadas para demolição!
Do lado alemão, o novo comandante, Erich von Falkenhayn, com base em informes de seus serviços de inteligência, calculava que a perda de homens obrigaria a França a sair da guerra em 1916.
Nos cálculos alemães, “...a França teria 400 mil soldados a menos [...] em 1916 do que em 1914, e teria de enfrentar uma crise de quantidade de tropas em setembro de 1916 se suas perdas no próximo ano continuassem no ritmo de 1914 e 1915.1.
Assim, e considerando que as linhas de abastecimento francesas eram bem mais precárias do que as alemãs, Falkenhayn escolheu Verdun para um ataque que fosse desgastando ainda mais o efetivo de tropas francesas atraídas para defender uma cidade de alto poder simbólico.
Falkenhayn esperava apressar a saída francesa da guerra por falta de tropas. Mas ele estava muito enganado...
O plano de batalha previa um devastador ataque de artilharia pesada, seguido do avanço da infantaria sobre as defesas francesas que, acreditava-se, estariam destroçadas.
Em 21/02/1916 o ataque começou e foi, de fato, devastador. Os alemães utilizaram “...mais de 800 canhões pesados, quase 400 canhões leves e 200 morteiros martelando um setor da frente de apenas 16 km de largura, antes do avanço inicial de dez divisões de infantaria.2.
As trincheiras francesas, seus postos de metralhadoras e linhas de comunicação estavam pulverizados e os alemães avançaram com lança-chamas, espingardas e granadas.
Apesar disso, os soldados franceses sobreviventes resistiram bravamente e o avanço alemão era de apenas 5 quilômetros em 22/02, tomando Bois des Caures. Na sequência tomaram Haumont e foram repelidos em Bois de l'Herbebois.
No dia 24/02 se iniciou o assalto alemão ao Forte Douaumont, que foi tomado no dia seguinte. Esse movimento, contudo, colocou os alemães na mira da artilharia francesa.
Esse avanço, portanto, se deu ao custo de pesadas baixas pois, se os franceses perderam 24 mil homens, sendo, porém, 15 mil prisioneiros, “...dentro dos primeiros dez dias, os alemães perderam 26 mil.3.
Ao contrário do esperado, a linha de abastecimento dos franceses não foi interrompida e o General Joffre introduziu um rodízio de tropas na linha de frente, substituindo os soldados extenuados por outros, descansados.
O abastecimento, feito pela Voie Sacrée (Via Sacra), movimentava “...diariamente 3000 caminhões com uma carga de 4000 toneladas de apetrechos e 20000 homens.4.
No início de junto o Forte Vaux foi tomado e, depois, os alemães quase conseguiram romper a linha de defesa francesa. Esse movimento terminou junto ao Forte Souville.
O caminho para Verdun passava pela tomada de Souville, já bastante castigado pela artilharia, mas ainda defendido pelos franceses. Os ataques com gás fosgênio não produziram o resultado esperado, pois os soldados tinham máscaras.
O ataque devastador dos canhões permitiu o avanço alemão, contudo a resposta da artilharia francesa dizimou grande parte dos soldados invasores que foram obrigados a recuar.
Este foi o dia 12/07/1916 e os alemães haviam atingido o ponto mais próximo que conseguiriam chegar de seu objetivo.
A partir dali, ataques de russos e britânicos em outros locais impediram o exército alemão de ficar focado apenas nos franceses. As perdas eram equivalentes e a França não parecia à beira do colapso como Falkenhayn previra.
O comandante alemão “...se resignou em suspender o ataque, pois se esperava uma ofensiva francesa no Somme: reduziu, pois, os efetivos que havia alinhado frente a Verdun.5. Em 02/09, com o comando geral passando para os generais “...Hindenburg e Ludendorff, os ataques alemães terminaram.6.



No mês seguinte foi a vez contra-ataque francês. Utilizando a tática de enviar soldados pouco atrás de onde caiam as bombas da própria artilharia, os franceses avançavam antes que os alemães pudessem reagir.
Para retomar o Forte Douaumont foram disparados mais de 600 mil tiros de canhão de diversos calibres, inclusive alguns pesando 900 kg. A fortificação foi retomada em 24/10. Em 02/11 foi a vez do Forte Vaux. Em Dezembro os alemães haviam sido empurrados de volta ao ponto da partida. Verdun estava salva. Destruída, mas salva.
A posição alemã, depois de quase um ano de batalha, mostra a estupidez da guerra. Para não conseguir avançar um mísero quilômetro, os combates “...geraram 377 mil baixas francesas contra 337 mil alemãs. Oficialmente, os franceses reconheceram 162 mil mortes e os alemães, 82 mil, sendo provável que esta última cifra seja subestimada.7.
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1SONDHAUS, Lawrence. A Primeira Guerra Mundial – História Completa. Trad. Roberto Cataldo. Editora Contexto, 2011. pg. 270.
2Ibid. pg. 271.
3Ibid. pg. 271.
4PIMLOTT, John. A Primeira Guerra Mundial. Bogotá, Colômbia: Editora Norma. pg. 19. Tradução livre.
5RENOUVIN, Pierra. La Primera Guerra Mundial. Em língua espanhola. Trad. Jordi García Jacas. Barcelona-Espanha, Editora Montserrat, 1990. pg. 20. Tradução Livre.
6SONDHAUS, Lawrence. A Primeira Guerra Mundial – História Completa. Trad. Roberto Cataldo. Editora Contexto, 2011. pg. 273.
7Ibid. pg. 274. 









ATAQUE A PEARL HARBOR
Em um 7/12 como hoje, no ano de 1941, o Império do Japão realizava um ataque aéreo de surpresa à base naval estadunidense de Pearl Harbor, na Ilha Oahu, no Hawai.
O ataque, planejado pelo Almirante Isoroku Yamamoto, e executado pelo Vice-Almirante Chuichi Nagumo, fora inspirado no ataque britânico à frota italiana posicionada na África, a Batalha de Tarento, na qual uma pequena esquadrilha, partindo de porta aviões, obtivera retumbante sucesso. 
Almirante Isoroku Yamamoto e Vice-Almirante Chuichi Nagumo
Por seu lado, os comandantes estadunidenses consideravam que as águas rasas de Pearl Harbor protegiam seus navios de ataques de torpedos e que ataque semelhante ao britânico seria irrealizável ou defensável por parte da frota naval. Estavam mortalmente enganados!
Com comunicações falhas, apesar de descobrirem que um ataque era iminente, os americanos não conseguiram fazer com que as informações chegassem em tempo hábil ao Hawaii.
O ataque japonês foi preparado e meticulosamente ensaiado enquanto as negociações diplomáticas entre os dois países ainda se desenrolavam. 
Mas, finalmente, em 26/11/1941 a frota japonesa, que incluía o porta-aviões Akagi, Hiryu, Kaga, Shokaku, Soryu e Zuikaku, nos quais se encontravam 441 aviões, partiu das Ilhas Kurilas em total sigilo e silêncio de rádio.
Na imensidão do oceâno, naquela região, era virtualmente impossível encontrar mesmo tamanha frota se esta quisesse ficar oculta. 
Uma frota de 20 submarinos completava o comboio e as ordens de cinco deles eram para invadir o porto e torpedear os navios enquanto aos demais cabia a tarefa de atacar os navios que eventualmente escapassem do porto para mar aberto.
Quando o ataque aéreo começou já amanhecera o dia 07/12/1941 em Pearl Harbor (07:53hs), enquanto já era madrugada (03:23hs) do dia 08/12 no Japão.

A primeira onda de ataques aéreos utilizou 186 aviões torpedeiros e bombardeiros de mergulho que se dirigiram aos navios e às bases aéreas de Hickam e Wheeler. A segunda onda de ataques utilizou 168 aeronaves e atingiu as bases de Bellow e a Ilha Ford.
Primeira explosão (câmera em avião japonês).
As baixas japonesas foram de 29 aviões abatidos, 55 pilotos mortos, 5 mini-submarinos afundados, 9 marinheiros mortos e 1 capturado.

Do lado estadunidense, as perdas foram catastróficas: 2403 mortos, 1178 feridos, 5 couraçados afundados, 3 danificados, 3 cruzadores afundados, 3 contratorpedeiros danificados, 188 aviões destruídos, 155 aviões danificados.
A tragédia só não foi maior porque os porta-aviões estadunidenses não se encontravam em Pearl Harbor e as oficinas e tanques de combustível não foram seriamente atingidos, assim como os submarinos.
A despeito da tragédia, Churchill exultou, pois sabia que já não seria mais possível aos EUA manter a neutralidade.

Quando Roosevelt foi ao Congresso e conseguiu a declaração de guerra contra o Japão, Hitler respondeu declarando guerra aos EUA, o que deu-lhes o pretexto para atacar na Europa, o alvo então prioritário.
O dia da infâmia ainda seria respondido duplamente menos de quatro anos depois, com uma infâmia muito maior, nos ataques nucleares a Hiroshima e Nagazaki.

Histórias como essa servem para que a gente possa saber o que aconteceu, como e por qual motivo. Para aprender e não repetir os mesmos erros.  

Neste final de ano o Reino de Clio deseja que todos reconheçam e defendam o valor da Democracia, onde todos podem ser ouvidos e considerados e onde a vontade da maioria não significa que as minorias não tenham vez e voz. 

Por um Brasil sempre livre, laico e democrático. Feliz Natal e um 2020 socialmente e democraticamente consciente. 

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BATALHA DE ACTIUM
A Batalha Naval de Actium, na qual as forças de Otavio César, sob comando de Marcus Vipsanius Agripa, enfrentaram a frota de Marco Antônio e Cleópatra, aconteceu em 02/09/31 a.C.
Ocorrida no contexto da guerra civil romana que encerrou a aliança política conhecida como Segundo Triunvirato, ela foi o combate decisivo, que selou a sorte dos contendores e mudou a História do mundo antigo ocidental.
À época, o Segundo Triunvirato não existia mais na prática, pois Lépido, que estava na África, fora paulatinamente afastado das decisões importantes e apenas os demais membros, Otávio e Antônio, dividiam o poder de fato, com este governando as províncias do Oriente e aquele governando Roma.
Marco Antônio - Lépido - Otávio César - Cleopatra
Os inimigos de ambos estavam mortos ou exilados e a aliança fora selada com o casamento de Antônio com a irmã de seu parceiro, Otávia. Quando Marco Antonio se aliou a Cleópatra porém, a situação começou a mudar. Ele abandonou a esposa, irmã de Otávio, e passou a viver com a Rainha do Egito em Alexandria.
A crise política romana chegou ao ponto sem retorno quando Marco Antônio fez as chamadas Doações de Alexandria, na qual o general cedia territórios de Roma a seus filhos com Cleópatra:
O filho de Cleópatra e Antônio, Alexandre Hélio, foi proclamado rei da Armênia e da Pártia (por conquistar).
O outro filho do casal, Ptolomeu Filadelfo, recebeu a Síria e a Cilícia.
A filha, Cleópatra Selene, obteve a Cirenaica e a Líbia.1
Acima a divisão proposta por Antônio.
A loucura de Marco Antônio denunciada no Senado.
Quando a notícia deste ato chegou a Roma, Otávio denunciou Antônio no Senado e conseguiu a aprovação dos Senadores para uma declaração de guerra contra o Egito. A batalha estava prestes a começar!
Marco Antônio se dirigiu à Grécia. Lá ele reuniu, com apoio de Cleópatra, entre 300 e 400 barcos, sendo naus de guerra e de transporte. Seu plano era invadir a Itália, levando suas tropas em direção a Roma.
Otávio, por seu lado, construiu uma frota nova, contando com 250 navios. Ele não queria travar combate em solo italiano e agiu de forma a manter as tropas de Antônio em território grego, bloqueando a seus navios o acesso à península italiana.
Acima e abaixo, vistas aéreas atuais do local da batalha.
Quando Antônio estabeleceu sua base no promontório de Actium, no atual Golfo de Arta, Grécia, Otávio desembarcou suas tropas, sob o comando de Marcus Vipsanius Agripa, ao Norte, avançando depois rumo ao Sul, para atacar os adversários por terra.
Mas o movimento que deu início às hostilidades foi naval: o afundamento da frota de transporte de Antônio, quando transportavam suprimentos para Actium. Quando a frota de Otávio chegou, bloqueou as rotas marítimas de seu adversário.
Acima e abaixo, vistas atuais do local da batalha.
Percebendo as dificuldades que teriam pela frente, muitos soldados de Antônio desertaram, obrigando-o a incendiar vários de seus navios que ficaram sem tripulação.
A situação deixou Marco Antônio com apenas duas alternativas: lutar em terra, opção preferida pelas tropas devido a maior experiência, ou atacar a frota de Otávio, na esperança de romper o bloqueio.
Esta última, que era a opção preferida por Cleópatra, foi a escolhida. Ela e Antônio acreditavam que seus navios, mais pesados e armados com disparadores de projéteis (balistras), levariam vantagem sobre as embarcações mais leves de Otávio.
Mas a leveza também garantia melhor margem de manobra e logo a frota de Otávio estava em vantagem. Na primeira oportunidade, Cleópatra fugiu com seus navios, sendo rapidamente seguida por Marco Antônio.
Diante da fuga de seu comandante, as tropas navais e terrestres de Antônio sucumbiram ou renderam-se naquele dia ou logo nos dias seguintes.
Algum tempo depois, Otávio desembarcou em Alexandria, capital do Egito, para terminar de vez o assunto com Antônio. Mas este cometeu suicídio.
Quando teve uma proposta de aliança recusada, seu filho Cesarion morto e na iminência de ser exibida em um desfile romano, Cleópatra também se suicidou.
Com o fim de seus inimigos, Otávio César anexou o Egito ao império e retornou a Roma como líder incontestável. Contudo, se na prática detinha o poder absoluto, também soube manter as aparências, preservando as instituições republicanas mas reservando-lhes um papel cada vez mais meramente decorativo.
Quando anunciou que renunciaria aos cargos que detinha, o Senado implorou que os mantivesse e outorgou-lhe o título de Augusto. Roma, que era um império, tinha agora um Imperador.
Começava um dos governos mais exitosos de toda a História!
AVE CÉSAR! AVE AUGUSTUS!


1https://pt.wikipedia.org/wiki/Doa%C3%A7%C3%B5es_de_Alexandria

http://corvobranco.tripod.com/ArtigosHT/ht_batalhaActium.htm
https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_%C3%81ccio

Imagens:

Area of the Battle of Actium, Preveza. Harry Gouvas http://prevezamuseum.spaces.live.com
http://www.mlahanas.de/Greece/Cities/PrevezaActium01.html

Actium Battlefield – Aerial View
http://www.colorado.edu/classics/clas1061/Text/RFHO14.htm

The Donations of Alexandria Map
http://questgarden.com/72/85/5/081109184839/process.htm

Battle of Actium
http://ximene.net/home/research-topics/history/roman-empire/the-super-power/the-principate/

Anthony and Cleopatra. Painting by Agnes Pringle - photo credit: Laing Art Gallery
http://www.bbc.co.uk/arts/yourpaintings/paintings/the-flight-of-antony-and-cleopatra-from-the-battle-of-acti37069 

CÉSAR x POMPEU
A BATALHA DE FARSÁLIA
Em um dia 09/08, no ano de 48 a.C., ocorria o confronto final entre Júlio César e Pompeu, que disputavam o poder sobre a República de Roma, que na prática deixaria de existir a depender do resultado daquela batalha, travada na Grécia, e do comportamento de seu vencedor. 
A Batalha de Farsália, ou Farsalos, foi parte da Guerra Civil iniciada por conta do boicote e da perseguição de uma parte do Senado contra César, no final da Guerra na Gália. 
Pompeu, o mais proeminente, poderoso e popular cidadão da facção senatorial anti César, e membro do Primeiro Triunvirato que fora desestabilizado pela morte de Crassus, liderou essa disputa pelo poder, deixando a César, como única opção viável, a reação e resistência armada.
O que Pompeu e o Senado não esperavam é que a reação de César fosse tão rápida e radical. Ele violou a Lei que proibia a entrada de generais acompanhados por tropas no território da Itália e marchou para Roma sem que Pompeu tivesse tempo de mobilizar tropas suficientes para barrar-lhe o caminho. Só restou-lhes a fuga! Em pouco tempo, porém, Roma estaria novamente em guerra!
O campo de batalha visto a partir do Leste, nas imediações de Paleofarsália.
Após seu retorno da Gália e da travessia do Rubicão, César conquistara Roma sem batalha, mas correra em perseguição a Pompeu, que conseguiu escapar do cerco em Brindisi, levando a guerra para o solo grego/macedônico.
Com muito mais recursos humanos e materiais, Pompeu se dava ao luxo de evitar um confronto direto, optando por minar as forças de seu adversário.
A vitória de Pompeu em Dirráquio obrigara César a fugir, apresentando-se o momento em que Pompeu deveria persegui-lo, o que ele até fez, mas interrompeu logo depois.
Quando a perseguição recomeçou e César estacionou suas tropas em Paleofarsália (não Farsália, que fica bem ao sul do campo de batalha), não demorou para que os exércitos ficassem frente a frente. Estava para começar o confronto direto que César sempre desejara e que decidiria o destino dos dois titans romanos.
César reuniu suas forças com as que escaparam de Pompeu em Dirráquio e chegou à planície de Tessália, onde encontrou campos cheios de trigo. A cidade de Gomphos, ou Gomphi1 recusou-se a atendê-lo e foi cercada.  
Na ocasião César falou aos soldados das vantagens de saquear uma cidade bem abastecida como aquela e “...aproveitando o entusiasmo extraordinário dos soldados, no mesmo dia de sua chegada pôs-se a atacar a cidade […] entregou-a à pilhagem dos soldados.2
Esta ação de César, pondo de lado a clemência, acabou fazendo com que Metrópolis3, a próxima cidade do caminho, fosse bem mais receptiva, assim como as demais cidades da região.4
Acima: à esquerda a região intermediária entre as atuais Gomfoi e Paleomonastiro, onde acreditamos ter sido localizada a antiga Gomphi. À direita a periferia de Mitropoli que acreditamos ser, obviamente, a antiga Metrópolis.
Abaixo: à esquerda a pequena Krini, a antiga Paleofarsália a oeste do campo de batalha. À direita a Igreja Ortodoxa Grega de Farsália, bem ao Sul do campo de batalha.
Seguindo sua marcha, César chegou à região de Paleofarsália (atual Krini – e não Farsália, mais ao sul e que mantém o nome), acampando às margens do Rio Enipeas. Pompeu também chegou à região e acampou próximo a elevações de onde podia observar vasta área.5
Acompanhando as formas geométricas brancas de cima para baixo: o primeiro elipse é o acampamento de Pompeu, logo abaixo, os primeiros três retângulos são suas tropas. Frente a eles as tropas de César, com um traço diagonal representando sua reserva contra a cavalaria inimiga. No círculo a localização de Paleofarsália e o segundo elipse aponta o acampamento de César. A seta indica a direção de Farsália, que ficou com a fama, mas nem aparece no mapa!
Em 09/08/48 a.C., finalmente as forças de Pompeu avançaram em direção ao acampamento de César. Eram compostas por 47 mil homens e 6.700 cavaleiros.6
César possuía cerca de 22 mil homens e mil cavaleiros e quando as infantarias ficaram frente a frente, as linhas de Pompeu eram bem mais robustas.7
Tendo o Rio Enipeas à esquerda de César e direita de Pompeu, o grosso das cavalarias foram posicionadas no lado oposto de cada um. Mas César posicionou dois mil soldados da infantaria em uma linha diagonal, atrás de sua cavalaria, oculta das vistas de Pompeu, mas prontas a entrar em combate quando a cavalaria mais numerosa deste avançasse, impedindo-os, assim, de cercar sua infantaria.8
Quando o confronto começou de fato, a cavalaria de Pompeu avançou a galope, mas a infantaria permaneceu parada, a esperar a chegada das tropas de César.9
Pompeu queria manter a coesão de suas forças e desorganizar as tropas de César pela caminhada quando “...estariam sem fôlego e exauridos de cansaço.”10
Mas as tropas de César não caíram na armadilha da correria. Avançaram em intervalos, reagrupando e descansando e, quando chegou o momento, atacaram.11
Pompeu usou tudo que tinha, mas César, apesar de estar em menor número, manteve reservas e, mesmo com a vantagem ainda maior que isso proporcionava ao adversário, as linhas de ambos os lados resistiam.12
Acima: à esquerda o Rio Enipeas nas proximidades do campo de batalha. À direita a vista dos montes onde acampou Pompeu, a partir da área do acampamento de César.
Abaixo: à esquerda uma vista mais próxima dos montes onde Pompeu montou seu acampamento. À direita o campo de batalha visto da área logo abaixo do mesmo acampamento.
A decisão, então, só poderia vir do confronto de cavalarias. Quando a mais numerosa cavalaria de Pompeu começou a ter vantagem, César ordenou o recuo da sua. Acreditando na vitória, as forças adversárias começaram a se dividir para cercar a infantaria de César por trás.13
Neste momento, a infantaria obliqua de César recebeu ordem de ataque. Os legionários investiram ferozmente assustando cavalos e atacando o rosto dos cavaleiros com suas lanças e, surpresa das surpresas, a infantaria de César venceu a cavalaria de Pompeu, que se colocou em fuga.14
Uma vez liberada, a cavalaria de César pôde cuidar das tropas de arqueiros de Pompeu e as reservas que tinha entraram no combate pelo flanco esquerdo, onde antes estava a cavalaria fugitiva. As tropas menores cercavam as tropas maiores!15
Sem reservas para colocar em combate, Pompeu viu suas legiões abandonarem a luta para escapar de um massacre. Foram recuando lentamente até refugiarem-se nas colinas próximas do acampamento, para onde seu comandante já se havia retirado. Vitória de César!16
César vencera a batalha decisiva da Guerra Civil. Mas, mesmo com a vitória assegurada, ele não agia como Pompeu e queria liquidar a partida, queria a vitória total, de modo que avançou seu exército para o acampamento adversário, invadindo-o e tomando-o. Pompeu e seus seguidores fugiram, assim como as tropas remanescentes.17
César colocou suas forças em perseguição e conseguiu cercar os restos do exército de Pompeu na atual localidade de Kiparissos, uma colina que foi cercada na base leste, cortando o acesso a um riacho. Sem água e sem líderes, o restante das forças de Pompeu se renderam na manhã de 10 de agosto de 48 a.C.18
A Guerra Civil ainda duraria quase 3 anos, mas a Batalha de Farsália foi, a nosso ver, decisiva. Não há um consenso absoluto sobre os motivos que levaram Pompeu a conceder a César um combate total quando seria muito mais vantajoso esperar que a fome e outros problemas minassem a força do exército deste.
O próprio César afirma que a confiança na vitória de Pompeu era tão grande que os políticos e militares romanos que o acompanhavam já se envolviam em disputas do poder que teriam ao retornar a Roma: “... todos estavam ocupados em obter cargos ou compensações financeiras, ou em dar livre curso aos seus ressentimentos pessoais...19
Para Rostovtzeff essas presenças políticas também foram motivo para a derrota de Pompeu, que não tinha total liberdade de ação, dificuldade causada “... pela presença de grande número de senadores em seu quartel-general – homens que constantemente criticavam e interferiam nas disposições do general e exigiam reuniões frequentes para discutir a situação.20
Sheppard segue na mesma linha ao afirmar que o próprio Pompeu não desejava conceder um combate direto, que foi obrigado a isso por seus companheiros “... não por vontade própria...”21
Obrigado ou não, Pompeu apostou tudo quando não precisava apostar nada. E perdeu. César manteve-se senhor de Roma e de seus vastos recursos, podendo dividir suas forças, enviando seus generais para lugares diferentes. Pompeu buscou refúgio no Egito onde acabou assassinado de forma traiçoeira.
Lissner escreve que o grande general foi apunhalado às vistas de sua esposa e filhos e que “...cobriu o rosto com sua toga. Não pronunciou uma palavra e nenhuma queixa lhe saiu da garganta.22
Quando, na perseguição, César chegou ao Egito, foi-lhe entregue a cabeça de seu maior rival, “Profundamente perturbado, César cobriu a face e chorou.23

1   Sheppard afirma que é a atual Paleo Episkopi (que não localizamos nos mapas da região), mas nós acreditamos que a antiga cidade pode ser a atual Gomfoi ou Paleomonastiro.
2   CÉSAR, BELLUM CIVILE – A Guerra Civil. Livro III: 80. pg. 273
3   Sheppard afirma que é a atual Paleo Kastro (que localizamos ao norte de Gomfoi e não ao sul como deveria ser. Nós acreditamos que a antiga cidade é a atual Mitropoli, ou Paleoklisi.
4   CÉSAR, BELLUM CIVILE – A Guerra Civil. Livro III: 81. pg. 273-275
5   (SHEPPARD: 2010) pg. 53
6   Ibid pg. 56
7   Ibid. pg. 56-60
8   CÉSAR, BELLUM CIVILE – A Guerra Civil. Livro III: 88-89. pg. 281-283
9   Ibid. Livro III: 92. pg. 285
10 Idem
11 CÉSAR, BELLUM CIVILE – A Guerra Civil. Livro III: 93. pg. 285
12 (SHEPPARD: 2010) pg. 73
13 Ibid pg. 74
14 CÉSAR, BELLUM CIVILE – A Guerra Civil. Livro III: 93. pg. 287
15 Idem
16 Ibid. Livro III: 94. pg. 285
17 CÉSAR, BELLUM CIVILE – A Guerra Civil. Livro III: 95. pg. 289
18 (SHEPPARD: 2010) pg. 81
19 CÉSAR, BELLUM CIVILE – A Guerra Civil. Livro III: 83. pg. 277
20 (ROSTOVTZEFF: 1983) pg 132
21 (SHEPPARD: 2010) pg. 56
22 (LISSNER: 1964) pg. 67-68
23 Ibid. pg.68

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