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terça-feira, 23 de julho de 2019

TEXTO: HISTÓRIAS DE GUERRA 3


BATALHA DE GUADALCANAL
Em um dia 08/02 como este, em 1943, terminava a Batalha de Guadalcanal da II Guerra Mundial, entre os aliados (EUA e Gran Bretanha) e as forças do Império do Japão.
Quando a batalha começou, em 07/08/1942, o Império Japonês já tinha atingido sua expansão máxima e perdido a Batalha de Midway, na qual sua capacidade de ação militar no Pacífico foram bem reduzida.
A despeito disso, os japoneses enviaram tropas que tomaram as ilhas de Guadalcanal, onde iniciaram a construção de um aeroporto em Lunga Point, Tulagi, onde construíram uma base naval, e a Ilha Flórida, nas Ilhas Salomão.
O local era estratégico, pois uma vez terminado o aeroporto, o Japão poderia lançar ataques de longo alcance, prejudicando as rotas de suprimento e comunicação entre EUA, Austrália e Nova Zelândia.
Assim, com esse objetivo defensivo em mente, e também a ideia de usar as ilhas como bases de contra-ataques contra o domínio japonês na região, os aliados planejaram invadir as ilhas e expulsar os nipônicos.
A invasão aliada foi feita com o uso de soldados recém saídos do treinamento, utilizando equipamento antiquado, rações e munições reduzidas, considerando a prioridade que o Presidente Roosevelt dava à guerra na Europa.
Foram mobilizados 60 mil homens, "...seis cruzadores pesados, dois cruzadores leves, quinze contratorpedeiros, dezessete navios de transporte, seis de carga e cinco limpadores de minas.".
Devido ao mau tempo, entre os dias 06 e 07/08/1942 essa frota conseguiu se aproximar sem ser detectada e o ataque começou com bombardeios navais contra as praias e instalações japonesas espalhadas pelas ilhas.
O comando da frota coube ao "vice-almirante americano Frank Fletcher (que comandava a partir do porta-aviões USS Saratoga)" enquanto o comando das forças anfíbias ficou com o Almirante Richmond K. Turner. As tropas de desembarque, em sua maioria fuzileiros navais, agiam sob comando do Major-General Alexander Vandegrift.
Nas ilhas Tulagi, Gavutu e Tanambogo os invasores encontraram uma dura resistência, mas até 09/08 já haviam terminado a conquista. Em Guadalcanal a resistência foi pequena e já em 08/08 o aeroporto de Lunga Point estava sob posse dos aliados.
O contra-ataque japonês veio pelo ar, através de aviões que partiam da base de Rabaul (Nova Bretanha) e conseguiram danificar dois navios aliados e derrubar vários aviões dos porta-aviões americanos.
Apesar das perdas de aviões aliados serem inferiores às dos japoneses, os comandantes Fletcher e Turner retiraram suas embarcações da área antes de completar o desembarque de suprimentos, deixando os soldados aliados à mercê da força aérea japonesa, situação piorada pelo resultado da Batalha da Ilha Savo, na qual a Marinha Imperial do Japão causou sérios danos à frota de suprimentos aliados.
A despeito disso, da malária e diarréia, os fuzileiros se instalaram em Guadalcanal e começaram a trabalhar para recuperar o campo de pouso, agora chamado de Henderson, que lhes traria uma rota de suprimentos. Os japoneses se retiraram para além do Rio Maranikau.
As tentativas de retomar a ilha feitas pelos japoneses, a exemplo da Batalha do Rio Tenaru e a Batalha nas Ilhas Salomão Orientais, fracassaram, o que não impediu nenhum dos lados de seguir reforçando suas tropas com homens e material pois se os aliados dominavam os mares e ares durante o dia, utilizando o Campo Henderson, os japoneses dominavam à noite com o "Expresso de Tóquio", transportes navais que chegavam à ilha e voltavam na mesma noite.
Esse fortalecimento levou os japoneses, sob comando do General Kawaguchi, a planejar uma ofensiva dividida em três grupos no que ficou conhecida como Batalha de Edson´s Ridge. Porém, informados da movimentação japonesa, os aliados repeliram todos os ataques e ainda tomaram o quartel general japonês, roubando suprimentos e destruindo todo o equipamento que não poderia ser transportado. Com essa derrota o Japão se viu obrigado a interromper sua expansão para apoiar a retomada de Guadalcanal.

A partir dai uma série de pequenos combates em terra, mar e ar foram reduzindo a capacidade japonesa de impedir ou dificultar muito a chegada de reforços e suprimentos aos aliados. Em 12/12 os japoneses decidiram abandonar Guadalcanal e concentrar esforços em outras áreas.
A evacuação começou no início de fevereiro e foi completada dia 08/02. No dia 09/02/1943 os aliados tinham a posse total de Guadalcanal. Ao todo, os aliados tiveram até 60 mil homens na ilha, 7100 mortos, 7789 feridos, 4 capturados, além da perda de 29 navios e 615 aviões.
Os japoneses, que chegaram a ter 36.200 homens na ilha, perderam 31 mil deles mortos e 1000 capturados, além da perda de 38 navios e de 638 a 880 aviões abatidos.
A perda de Guadalcanal foi catastrófica para o esforço de guerra do Império do Japão e significou a virada do jogo para os aliados que instalaram importantes campos de pouso e portos a partir dos quais partiram a maioria das operações que expulsaram os japoneses de seus territórios conquistados no Pacífico.
Fontes e Imagens:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_de_Guadalcanal
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ilhas_Salom%C3%A3o

https://pt.wikipedia.org/wiki/Lunga_Point












Saqiyat Sidi Yusuf - Provável local da Batalha de Zama.
BATALHA DE ZAMA
Antecedentes - A Guerra vai para África!
Após devastar seguidamente as legiões romanas enviadas contra si, mas sem força suficiente para avançar sobre o restante da Itália, Anibal permaneceu no Sul, em Cápua, aguardando reforços de Cartago que jamais chegaram a contento. “É provável que nem o derradeiro esforço de Cartago pudesse proporcionar um exército bastante forte para essa tarefa.[1]

Por outro lado, Roma invadiu Siracusa e depois Agrigento, o que deu aos romanos o domínio da Sicília, garantindo o abastecimento e complicando as rotas entre as tropas de Anibal e Cartago.[2] Um ano depois foi a vez de Cápua ser retomada na ausência de Anibal e suas tropas.[3] Logo após a invasão de Filipe V foi frustrada por alianças entre Roma e cidades gregas.[4]
Acima vistas de Cápua e do Rio Volturo. Abaixo: Vistas de Siracusa. Imagens do Google Street View


Ao mesmo tempo foram travados combates na Hispânia, onde se estabeleceu impasse nas imediações do Rio Ebro o que, contudo, isolou Anibal dentro da Italia.[5]
Aos poucos Roma ganhava terreno conquistando vitórias não definitivas mas estrategicamente vitais. E logo entraria em cena um personagem que gravaria com fogo seu nome na História: Públio Cornélio Cipião, ou, como ficou mais conhecido, Cipião, o Africano, filho do primeiro Cipião a enfrentar Anibal. Seu ataque e conquista de Nova Cartago (atual Cartagena – Espanha), significou a derrota de Asdrúbal e a tomada da base de Anibal fora da Itália.[6]
E, para piorar, quando cruzou os Alpes e adentrou a Itália, Asdrúbal foi morto e suas forças foram aniquiladas pelo Cônsul Nero em Signalia, às margens do Rio Metauro. “Tal derrota decidiu a sorte da campanha[7]
A vitória em Cartagena aumentou muito o prestígio de Cipião, que foi eleito Cônsul em 205 a.C. Logo ele propôs invadir Cartago, para o que não teve apoio do Senado, sendo-lhe permitido “...instalar-se na Sicília, com permissão para passar a África se tal fosse do interesse de Roma…”[8], o que ocorreu no ano seguinte. Cipião partiu para África.
Ao chegar ao seu destino, as forças de Cipião “...derrotaram 500 cavaleiros cartagineses que os vieram fustigar e obtiveram uma adesão […] do príncipe númida dos Massilos, chamado Masinissa...”. Depois, cercaram o porto de Útica, sem obter um sucesso imediato.[9]
Por outro lado, usando uma estratégia diversionista, derrotou as forças cartaginesas e númidas (sob o comando do Rei Sifax), e ficou com o caminho livre para Cartago.[10] 

Acima vistas de Cartagena – Espanha. Abaixo: o Rio Metauro em Fossombrone e ruínas de Útica. Imagens do Google Street View


Contudo, antes de marchar para a capital, Cipião derrotou a Numídia e tomou Túnis, bem à frente de Cartago, depois desviou suas tropas iniciando saques nas áreas vizinhas. Em situação difícil, os cartagineses iniciaram negociações de paz que foram interrompidas quando, enfim, convocado, Anibal voltou para casa.[11]
A devastação causada por Cipião forçou Anibal a segui-lo para um local onde seus suprimentos ficaram com o abastecimento prejudicado e onde as forças romanas poderiam receber o reforço da cavalaria númida de Masinissa, lutando ao lado de Roma.[12] Este local era nas imediações de Naraggara, atual Saqiyat Sidi Yusuf na Tunísia, mas passou para a História com outro nome: Zama![13] 
Encontro de Anibal e Cipião.

A BATALHA DE ZAMA!
Antes da batalha, Anibal e Cipião se encontraram em um daqueles momentos em que se pode ver, claramente e sem qualquer dúvida, a História sendo feita. Tito Livio escreveu, muito tempo depois, portanto duvidoso, que Aníbal, solicitante do encontro, iniciou a conversa:
Se [...] o destino quis desta maneira que eu, que fui o primeiro a fazer a guerra contra Roma e que tantas vezes tive a vitória final quase ao alcance de minha mão, seja agora o primeiro a vir pedir a paz, me felicito porque o destino te designou, entre todos os demais, como aquele a quem se há de pedi-la.[14]

Políbio escreveu que Anibal ofereceu a devolução da Hispânia, Sicilia, Sardenha e todas as demais ilhas entre a Itália e a África, e a promessa de não guerrear mais por esses objetivos. Mas Cipião não aceitou.[15]
Nos parece, pelos relatos de Tito e Políbio, que quando o momento da batalha chegou, Cipião tinha um exército menor porém melhor, e conhecia mais a região do que Anibal (este não vinha a Cartago desde criança) e escolhera o terreno mais propício para a luta, posicionando-se de modo a ter uma fonte de água da região dentro dos limites de suas tropas.
Também por estes relatos, percebemos que Anibal tinha sob seu comando poucos dos veteranos com os quais cruzara os Alpes, suas tropas eram bem heterogêneas, uma parte não havia lutado sob suas ordens ainda. Ele não tinha cavalaria suficiente, de modo que posicionou os elefantes à frente das tropas, na esperança de que desfizessem a linha romana logo no primeiro ataque.[16]
Mas Cipião não formou uma linha contínua de unidades na frente, deixou espaços vazios “...entre elas, devido ao grande número de elefantes que tinha o inimigo.[17] Por este espaço os elefantes poderiam passar e ser combatidos sem esmagar as tropas. 
Quando a luta começou, os elefantes avançaram. Mas os romanos, em uma estratégia brilhante, iniciaram uma gritaria e o toque de trombetas. Os elefantes se assustaram e debandaram. Muitos voltaram sobre os próprios cartagineses e outros desfizeram a formação da cavalaria de Anibal.[18]

Por este espaço, aberto pelos elefantes, os cavaleiros númidas de Cipião, comandados por Masinissa, penetraram e desbarataram de vez a formação cartaginesa.[19]
Quando as infantarias avançaram os romanos conseguiram romper as linhas de Anibal quase até a retaguarda, quando foram chamados a recuar por Cipião. Ele os reuniu em linha para enfrentar a melhor tropa de Cartago, formada pelos veteranos das batalhas na Itália, vários dos quais estavam com Anibal desde os Alpes.[20]
Quando as duas linhas se chocaram o combate ficou equilibrado, mas logo depois as cavalarias de Masinissa e Lélius retornaram, atacando pelas laterais e por trás. Vitória de Roma.[21] 
Anibal conseguiu escapar, refugiou-se em Adrumeto (atual Sousse) e depois seguiu para Cartago onde anunciou que a resistência era impossível.[22] Então a capital aceitou exigência de Roma para rendição.[23]
Cartago concordou em pagar indenização (parcelada em 50 anos), suprir as tropas romanas com cereais por 3 meses, entregar desertores, prisioneiros de guerra, escravos e 100 reféns, não intervir mais na Numídia, não fazer mais qualquer guerra sem permissão romana e não treinar mais elefantes. Poderia, contudo, manter seu atual território (sem a Numídia), suas próprias leis e um reduzido número de dez trirremes (navios).[24]
Após sua vitória épica, Cipião retornou a Roma onde desfilou em triunfo. Deixou quase completamente a vida militar, passando a ocupar alguns cargos públicos.
Anibal passou a administrar Cartago e garantir que os pagamentos a Roma fossem feitos. Conseguiu também restabelecer importantes rotas de comércio. Nessa tarefa acabou fazendo muitos inimigos entre a elite. Os romanos, que não esperavam que Cartago pagasse a dívida, passaram a procurar motivos para invadir a cidade e destrui-la definitivamente, já que não viam com bons olhos o ressurgimento do comércio cartaginês. Quando enviaram uma delegação a Cartago com acusação contra Anibal, este foi obrigado a fugir.[25]
Anos depois os generais se reencontraram em Éfeso, onde conversaram sobre os “velhos tempos”. Plutarco escreve que na conversa amistosa, Anibal disse que o maior general fora Alexandre, o Grande, depois Pirro e ele próprio. Cipião, não vendo o próprio nome na lista perguntou: “E se eu te vencesse?”. E Anibal respondeu: “Então, oh Cipião! Eu não poderia me colocar em terceiro, mas iria declarar você o primeiro entre todos![26] 

Imagens (capturadas nos sites abaixo entre Abril e Junho de 2015):
http://cartographia.files.wordpress.com/2008/06/overlay.jpg
http://cartographia.files.wordpress.com/2008/06/minard-hannibal.jpg
http://www.heritage-history.com/www/heritage.php?Dir=characters&FileName=hannibal.php
http://4.bp.blogspot.com/-62nq3qaaOeQ/TgUV55gf4WI/AAAAAAAAAQ8/Q2JLLZJeKzo/s1600/HannibalElephAlps.jpg
http://elespiritudellince.blogspot.com.br/p/las-localizaciones.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Ruines_de_Carthage.jpg
http://en.wikipedia.org/wiki/File:Carthage_villas-romaines_1950.jpg
http://worldhistoryconnected.press.illinois.edu/3.2/gilbert.html
http://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_the_Trebia
http://en.wikipedia.org/wiki/File:Battle_Trebia-numbers.svg
http://civilizacoesafricanas.blogspot.com.br/2010/05/cavalaria-numida.html
http://www.casteggiohomeitaly.it/project/history-of-casteggio



[1]     Ibid. pg.64
[2]     (GRIMAL: 2011) pg. 72
[3]     (GRIMAL: 2011) pg. 72-73
[4]     TITO LIVIO. História de Roma desde su fundación. Livro XXVI: 24
[5]     (BRANDÃO; OLIVEIRA: 2015). pg. 177
[6]     (BRANDÃO; OLIVEIRA: 2015). pg. 178
[7]     (ROSTOVTZEFF: 1983) pg.66
[8]     (BRANDÃO; OLIVEIRA: 2015). pg. 183
[9]     Ibid. pg. 184
[10]    (BRANDÃO; OLIVEIRA: 2015). pg. 184
[11]    Ibid. pg. 184-185
[12]    Ibid. pg. 186
[13]    TITO LIVIO. História de Roma desde su fundación. Livro XXX: 29
[14]    TITO LIVIO. História de Roma desde su fundación. Livro XXX: 30  – Tradução Livre
[15]    POLÍBIO DE MEGALÓPOLIS. Historia Universal Bajo La República Romana - Tomo III – Libro Decimoquinto . Cap. I.
[16]    TITO LIVIO. História de Roma desde su fundación. Livro XXX: 33
[17]    POLÍBIO DE MEGALÓPOLIS. Historia Universal Bajo La República Romana - Tomo III – Libro Decimoquinto . Cap´. I.
[18]    TITO LIVIO. História de Roma desde su fundación. Livro XXX: 33
[19]    Idem
[20]    TITO LIVIO. História de Roma desde su fundación. Livro XXX: 34
[21]    TITO LIVIO. História de Roma desde su fundación. Livro XXX: 35
[22]    Ibid. Livro XXX: 34
[23]    Ibid. Livro XXX: 36
[24]    Idem
[25]    CONTEÚDO aberto. In: Wikipédia: a enciclopédia livre. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/An%C3%ADbal#An.C3.ADbal_deixa_Cartago – Acesso: 08/07/2015
[26]    PLUTARCO. Vidas Paralelas - Tomo III. Tito Quincio Flaminino - XXI. (Tradução Livre).





Cartago era neste local.

A BATALHA DE CANAS1
O desespero tomou conta de Roma quando a notícia da tragédia militar do Lago Trasímeno, derrota catastrófica imposta por Hannibal ao exército romano, chegou à cidade e a situação ficou ainda mais crítica quando se soube que cerca de 4 mil cavaleiros foram mortos ou presos em emboscada quando tentavam socorrer as tropas de Flamínio.
Então o Senado, fazendo uso de um recurso extremo, elegeu, por meio de votação popular, um Ditador. O escolhido, Quintus Fabius Maximus, concentrava o poder dos dois cônsules por um período de seis meses. Como garantia de manter algum controle, o Senado nomeou o segundo em comando, o Magister Equitum Minucius Rufo.
Um recrutamento foi logo convocado para formação de quatro legiões. A falta de opções mais favoráveis fez com que predominassem soldados veteranos ou muito jovens. O autor Mark Healy1 informa que, segundo Tito Livio, Fabius partiu com duas legiões, informação mais confiável que a de Polibio, quando diz que o Ditador levou as quatro legiões recém-formadas.
Assim, quando reuniu-se às quatro legiões de Gemino, Fabius Maximus partiu para o Sul ao encalço de Hannibal, contando agora com cerca de 30 mil homens sob seu comando supremo.
Hannibal, por sua vez, seguira pela Úmbria para a costa do Mar Adriático (arredores de Piceno), onde recuperou e descansou suas forças, avançando ainda mais para o Sul, saqueando e queimando colheitas.
Cidade de Piceno.
As tropas de Fabius alcançaram Hannibal nas imediações da Apúlia e este logo ordenou a posição de batalha, mas os romanos não lhe concederam o combate. Aquartelaram-se em um terreno mais elevado e aguardaram, adotando uma tática quase de guerrilha, com pequenas escaramuças que minavam o moral das tropas cartaginesas e aumentava a própria.
Arredores da atual Apulia.
Mas Hannibal não podia aguentar tal desgaste por muito tempo e levantou acampamento em direção Oeste, onde passou por Benevento e atacou Campânia saqueando e incendiando a fértil região de Falernus. O plano era que as províncias se sublevassem contra Roma, mas isso não ocorreu. Tampouco Fabius concedeu o desejado combate aos cartagineses, apesar da fortíssima oposição de Minucius Rufo e dos oficiais. Entretanto, o caminho de saída de Falernus foi bloqueado em um desfiladeiro por 4 mil soldados romanos.
Atual região de Campânia, ao sul de Benevento.

A fértil região do Ager Falernus nos dias atuais.
Sem poder passar o inverno naquele vale, Hannibal elaborou uma brilhante estratégia para atravessar o desfiladeiro guarnecido pelos romanos. Improvisou tochas nos chifres de 2 mil bois e os enviou por outro caminho. Pensando que os cartagineses estavam saindo por outra rota, os romanos abandonaram o desfiladeiro e Hannibal o atravessou tranquilo seguindo, depois, para a cidade de Geronium, que logo tomou e massacrou os habitantes.
Região de Campobasso, ao sul de Larino. A vila de Geronium ficava na área.
E para melhorar a situação de Hannibal, Fabius foi chamado a Roma onde recebeu dos senadores o pejorativo título de Cunctator (Contemporizador). O comando ficou com Minucius e este, por conta de um erro de Hannibal, conseguiu a vitória em um pequeno confronto, o que aumentou a confiança do Senado em uma vitória em campo aberto e rendeu ao vitorioso poderes equiparados ao do Ditador Fabius.
Com o comando dividido, Fabius e Minucius separaram as tropas e Minucius logo foi atacar Hannibal perto de Geronium, sendo salvo da aniquilação total por Fabius. Por sorte o inverno já se aproximava novamente e a campanha foi suspensa.
Com o fim do prazo da ditadura de Fabius, os dois novos cônsules assumiram o comando das tropas em meio às disputas políticas do Senado, onde as facções dividiam-se quanto a estratégia para enfrentar Hannibal. Os Cônsules eleitos, adeptos da estratégia de atacar, foram Varrão e Emílius Paulo, os mandatos de Gemino e Régulo foram renovados e oito novas legiões foram mobilizadas. Segundo os números de Políbio, Roma contava agora com 80 mil soldados e 6 mil cavaleiros.
Ao final do inverno Hannibal saiu de Geronium e dirigiu-se a Canas, uma cidadela em ruínas onde os romanos armazenavam grãos, azeite, etc. Na Região, além dos alimentos, Hannibal posicionava-se muito bem estrategicamente e forçava dois movimentos dos romanos, a busca de alimentos em outros locais e o tão esperado confronto.
Nesta colina ficava a cidadela de Canas (Cannae), que Hannibal tomou junto com os suprimentos romanos.  
Vista aérea de Canas, atual região de Canne della Bataglia.
Mark Healy1 acredita que o cartaginês montou seu acampamento onde hoje fica a cidade de San Ferdinando di Puglia, e que os romanos se estabeleceram nas imediações da atual Trinitapoli, divididos em dois campos.
Periferia de San Ferdinando di Puglia, provável local do acampamento de Hannibal.  
Periferia de Trinitapoli, provável local do acampamento romano. 
O local da batalha no contexto do mapa da Itália. 

No alto Trinitapoli, no meio San Ferdinando di Puglia e abaixo a colina de Canas.
Em 02 de agosto de 216 a.C., 70 mil romanos cruzaram o Rio Aufido (atual Ofanto) e 10 mil permaneceram na guarda dos acampamentos. Ao lado direito das tropas, comandando 1600 membros da cavalaria, o Cônsul Emílius Paulo, que escolheu ficar com o rio à sua direita, de modo a limitar o terreno dos cartagineses.
Ponte sobre o Rio Aufido (atual Òfanto) cruzado pelos romanos para a batalha.
Na esquerda, em outra seção da cavalaria, com 4800 membros, o Cônsul Varrão, tendo seu terreno delimitado por algumas colinas. 
O plano era forçar um combate frontal entre as cavalarias, permitindo que a infantaria romana, bem mais numerosa que a de Hannibal, desse conta do recado. Mas, essas delimitações não dificultavam apenas a mobilidade cartaginesa... O espaço de manobra da própria infantaria era mínimo.
Hannibal, por sua vez, posicionou suas cavalarias em frente às romanas, mas não formou sua infantaria em linha reta, adotando, porém, uma formação em curva que obrigaria os romanos a avançar as laterais de sua infantaria para a área entre as tropas e cavalarias de Cartago.
Quando o combate finalmente começou, a cavalaria sob comando de Paulo foi a primeira a ceder e os cavaleiros de Hannibal tiveram terreno livre para contornar a retaguarda romana e atacar a cavalaria de Varrão por trás.
As linhas vermelhas mostram o movimento das tropas romanas e as azuis são os soldados de Hannibal.
No choque das infantarias as tropas romanas obrigaram os cartagineses a recuar, mas não conseguiram romper a linha, apenas fizeram o côncavo virar convexo (ou vice-versa, não sei), e rapidamente tinham entrado na armadilha. Com a pressão imensa de tantos soldados avançando e empurrando, logo os romanos não conseguiam nem levantar os braços para usar as espadas.
Quando as cavalarias cartaginesas livraram-se de seus oponentes romanos, fecharam o cerco pela retaguarda das legiões e o massacre começou.
Muitos morreram sem poder se mover.
Foi um terrível banho de sangue no qual 47 mil soldados romanos foram mortos, assim como 2700 cavaleiros, dentre estes estavam Paulo, Gemino e Minucius. Quase 20 mil romanos foram feitos prisioneiros. Os que conseguiram escapar refugiaram-se em Canusium (atual Canosa di Puglia).

Entrada de Canusium, atual Canosa di Puglia, local de refúgio dos romanos que conseguiram escapar do massacre de Canas.
Porém, mais uma vez, Hannibal relutou em atacar Roma diretamente, preferindo forçar novos combates em campo aberto do que cercar a cidade. Mas o erro de um combate como esse não seria mais cometido por Roma. A resposta da cidade foi que não negociaria.
Roma sabia que tinha o tempo em seu favor e ordenou novo recrutamento. A cidade eterna dispunha de recursos aparentemente ilimitados e adotara uma nova estratégia.
Hannibal veria, aos poucos, suas tropas serem reduzidas pelas necessidades de controlar áreas tomadas e, sem receber reforços de Cartago, foi enfraquecendo, mas a memória de sua espetacular vitória naquele dia, viveria para sempre.

1Todas as informações deste texto provém da obra “Canás 216 a.C. - Aníbal dizima as legiões” (da série Grandes Batalhas da Osprey), de autoria de Mark Healy. As imagens são de vários sites da internet e do Google Street View.




A 1ª BATALHA DE YPRE - FLANDRES
Em 19/10/1914, começava a Primeira Batalha de Ypre-Flandres na Grande Guerra.
Depois da Primeira Batalha do Marne e após o estabelecimento da frente do Rio Aisne, os exércitos inimigos tinham um vasto território para avançar e tentar cercar o adversário.
Ambos os lados realizaram tentativas de envolvimento que ficaram conhecidas como Corrida para o Mar. Os resultados dessas manobras foram fracassos que faziam a rede de trincheiras ir aumentando até que chegou a Nieuport, no litoral da Bélgica, na saída do Estreito de Dover, entrada do Mar do Norte. Neste setor ocorreu a Primeira Batalha de Ypre, que foi o último grande combate de 1914.
Ypre é uma cidade belga próxima à fronteira com a França, a Leste de onde passou a linha de trincheiras dos franceses, ingleses e belgas que barravam a passagem aos alemães.
Para este local convergiram o IV Exército de Campanha alemão, sob comando do Marechal-de-Campo Albrecht, Duque de Württemberg, e o VI Exército Alemão, sob as ordens do Príncipe Rupprecht da Baviera. Ambas as forças eram formadas, majoritariamente, por soldados ainda sem experiência de combate e, portanto, ansiosos por entrar em ação.

Trincheira da batalha preservada.
O plano do Alto Comando Alemão era romper a linha dos inimigos e ao IV Exército, que estava posicionado na ala direita da linha alemã, mais perto do litoral, cabia a função principal, enquanto o VI Exército, que estava à esquerda, deveria realizar um ataque que atraísse parte das forças adversárias, facilitando o avanço do IV Exército.
Do lado adversário, posicionado ao longo do Rio Yser, a Força Expedicionária Britânica estava posicionada ao Sul, na ala direita da linha defensiva, os franceses ocupavam o centro e os belgas estavam ao Norte, na ala esquerda, mais perto do litoral e na área onde deveria vir o grosso do ataque alemão.
O Rio Yser na atualidade
O avanço germânico começou em 20/10/1914 com o IV Exército atacando em direção a Diksmuide, Houthulst, PoelKapelle, Passchendaele e Becelaere, objetivos que custaram grandes baixas.
Os belgas sofreram terrivelmente com o ataque da artilharia alemã e teriam cedido passagem se não fossem a ordem de inundar a região tornando-a intransponível.
Em 21/10 o avanço prosseguiu em direção a Langemark e Broodseinde. Apesar dos devastadores ataques de artilharia, os alemães não tiveram êxito, pois os aliados resistiram e montaram um contra-ataque que deteve os alemães no dia seguinte.

Langemark em Outubro de 1914

Por seu lado, o VI Exército atacou as forças britânicas em direção a Ypre. Os alemães conseguiram romper a linha em 31/10 e tomar a vila de Gheluvelt, mas o contra-ataque inglês fechou a brecha e retomou o lugar.
A cidade em si foi devastada pois “...em pouco tempo, a artilharia alemã destruiu completamente a cidade de Ypres atrás das linhas Aliadas.[1]

No alto, Diksmuide em 1914 e atualmente (à direita - Monumento Ijzerdjik – Google Street View). Abaixo, à esquerda, Ypres em 1914 e atualmente (à direita - Catedral – Google Street View).

A batalha se estendeu até 22/11 quando, apesar dos reforços de infantaria recebidos, por conta, em parte, da escassez de munição de artilharia, os alemães desistiram da ofensiva e estabeleceram uma linha de trincheiras.
1914 se aproximava do fim, mas ainda registraria um dos momentos mais lindos da História.
http://clevelode-battletours.com/the-first-world-war/belgium-in-the-first-world-war/#lightbox[auto_group1]/7/




[1]    SONDHAUS, Lawrence. A Primeira Guerra Mundial – História CompletaTrad. Roberto Cataldo. Editora Contexto, 2011. pg. 106.



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